74. Heróis da Resistência: “Diga Não”

Diga não pra qualquer controle
Diga não pra qualquer descaso
Diga não pra quem não te ouve
Diga não!
Diga não pra quem destrói o mundo
Diga não pra quem constrói demais
Diga não pra falta de visão
Diga não!


Prestes a sair do Kid Abelha – o que ocorreria como um vexaminoso pastelão, literalmente -, o baixista Leoni juntou algumas composições que tinha na manga, reuniu-se com três colegas músicos (o guitarrista Jorge Shy, o tecladista Lulu Martin e o baterista Alfredo Dias Gomes) e montou o Heróis da Resistência, em 1986.

Parecia uma tentativa – risível, diga-se de passagem – de se repetir o sucesso estrondoso do RPM: a banda era um quarteto, com a formação baixo-bateria-guitarra-teclados e com um galã como vocalista, baixista e band leader. Não funcionou.

Os Heróis chegaram a gravar um bom disco, epônimo, ainda em 1986, que trazia as boas “Dublê De Corpo”, o estouradíssimo hit “Só Pro Meu Prazer” e minha favorita, o funk-pós-punk “Esse Outro Mundo”.

Dois anos depois, lançou o fraco Religio, uma coleção de desastrosas experiências eletrônicas e tentativas de soar “black” ou “funky”.

No entanto, já com nova formação – agora um trio, com Leoni, Shy e Galli comandando as baquetas -, o conjunto se redimiu da mal sucedida experiência anterior e lançou seu melhor álbum, singelamente intitulado Heróis três, em 1990.

O disco representou o reencontro da banda com as origens roqueiras de seus membros, tendo uma produção competente, que ressalta dignamente a eficiente cozinha de Leoni e Galli, permitindo ao excelente Jorge Shy brilhar com seu raro talento. Assim, o disco é repleto de guitarras distorcidas, como em “Um Herói Que Mata”, “Nova Onda, Nova Droga” e na heavy “Rio”. Há também baladas, mais (“O Que Eu Sempre Quis”, belíssima) ou menos (“Canção Da Despedida”) leves, e pelo menos uma grande canção: “Diga Não”, nosso tema de hoje.


Heróis três abre com uma bela vinheta instrumental, “Greenpeace”, que exibe Jorge Shy em uma peça de violão clássico. A faixa serve como prólogo a “Diga Não”, cuja introdução dá continuidade aos arpejos de Shy no violão com cordas de nylon, até a entrada dos demais instrumentos.

Logo de cara, o ouvinte se certifica de que está diante de uma canção forte. Que o digam os versos, todos trazendo o imperativo “Diga não”. Assim, a canção se erige enquanto uma interminável lista de valores disfóricos a serem negados. Trazendo novamente ao blog minha obsessão com esquadrinhamentos, tentemos expor o elenco de negações em um quadro:

Diga não
阳 (yang) 阴 (yin)
pra qualquer controle pra qualquer descaso
                                                                                  pra quem não te ouve
pra quem destrói o mundo pra quem constrói demais
                                                                                  pra falta de visão
pro prepotente pro submisso
                                                                                  pra tudo isso
pra quem faz a guerra pra quem foge à luta
                                                                                  pra ter paz na Terra
pra quem engole tudo pra falta de apetite
                                                                                  pra quem não tem limites
pra tantas leis pra tantos crimes
                                                                                  pra ficar livre
pra quem tem demais pra quem se deixa usar
                                                                                  pra desabafar
                                                                                  pra ser ouvido, seja positivo

Assim, “Diga Não”, cujo verso “Diga não pra tudo isso” parece indicar um comprometimento com o niilismo pós-moderno, na verdade é, talvez, a canção do BRock que mais bem expôs o conceito de dialética, conforme a leitura marxiana da obra de Hegel. A ideia de negar as teses e antíteses, visando à síntese, está sumarizada no refrão da composição de Leoni: “Diga não, pra ser ouvido / Seja positivo”. O intento, então, não é apenas encontrar uma posição de equilíbrio entre valores ativos e passivos, mas justamente superá-los, em direção a uma nova ética, em direção à “paz na Terra”, “pra ficar livre” ou, pelo menos, “pra desabafar”. Observe que esses valores não podem ser considerados apenas enquanto polos positivos e negativos. Por isso, recorri aos conceitos chineses de yin e yang, me abstendo de avaliá-los enquanto essencialmente bons ou maus. Para a doutrina do Tao, nenhum dos dois polos é, em essência, ruim; ruim é o desbalanço entre eles, quer dizer, o predomínio exacerbado das qualidades yin (passivas) ou yang (ativas).

herois-da-resistencia
Os Heróis da Resistência: de pastiche do RPM aos criadores de ao menos um belo disco do BRock.

Em 2001, a Warner Music lançou um volume da E-Collection dos Heróis, trazendo os três álbuns da banda praticamente na íntegra, mais alguns remixes e raridades. Infelizmente, as quatro últimas faixas de Heróis três (“Senhor Do Mundo”, “Sinal Dos Tempos”, “Sexo E Certezas” e “O Fim Da Estrada” – esta, com título profético, pois foi de fato a última canção lançada pela banda) ficaram de fora. Como consolo, foi disponibilizada uma versão ao vivo de “Diga Não”, registrada no programa Estúdio ao vivo, da Rádio Transamérica. A original é bem superior, mas ao menos os fãs podem matar a curiosidade de saber como a banda se virava, ao vivo, para reproduzir arranjos que, nas versões de estúdio, eram mais elaborados:

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