76. Rumo: “Ladeira Da Memória”

Olha as pessoas descendo, descendo, descendo
Descendo a Ladeira da Memória
Até o Vale do Anhangabaú
Quanta gente!


O Rumo surgiu em 1974, nucleado por um conjunto de estudantes da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), tendo gravado um primeiro LP em 1981. O grupo é um verdadeiro coletivo de cantores e músicos, com algo em torno de dez membros, que se revezam nas composições e nos vocais.

É difícil caracterizar o som do Rumo, que traz diversas influências, do samba ao rock. Boa parte das canções, no entanto, possui uma assinatura, cortesia de um de seus fundadores, Luiz Tatit: a forma como as melodias se equilibram no exato ponto médio entre o canto e a fala cotidiana.

Essa forma de cantar, aliás, seria importante para a própria teoria elaborada por Tatit, já como docente da ECA, a semiótica da canção. Um dos pilares dessa teoria é a consideração de que os processos de elaboração do canto, na canção popular, se apropriam de marcas entoativas próprias da fala comum, de forma a garantir a comunicação de enunciados melódicos – se assim podemos chamá-los – que podem transmitir sentimentos eufóricos, disfóricos, asseverações, estados de “suspense”, etc.

Uma boa canção – produto do trabalho de um bom cancionista – é aquela que sabe se apropriar dessas características da fala para, adequadamente, transmitir sua mensagem.

Isso tudo só fui compreender (se é que compreendi exatamente) muito tempo depois, quando imergi na obra de Tatit, por volta de 2012. Àquela época, estava já em algum ponto do estudo das teorias enunciativas dos soviéticos (embora, erroneamente, atribuísse a origem de tais construtos teóricos unicamente a M. M. Bakhtin) e me considerava preparado para conhecer a semiótica da canção, visando a elaboração de algumas investigações sobre a canção popular brasileira.

Bom, estou, desde então, buscando conhecer a produção acadêmica de Tatit, e a cada dia fico mais surpreso com o grau aprofundamento teórico requerido para a compreensão de seus conceitos, que praticamente não tangenciam os autores que estudei em minhas primeiras incursões no universo linguístico, se inspirando na obra de estudiosos como Greimas e Hjelmslev.


A canção de hoje é “Ladeira Da Memória”, que conheci em 2006, mais ou menos a época em que o Rumo foi reativado e agendou algumas apresentações no Sesc Pompéia. Então, a Rede Cultura apresentou uma espécie de documentário sobre o conjunto, que mesclava depoimentos de seus componentes com alguns números desses shows. Assim, vim a escutar a canção de hoje e outras mais, como a censurada “Ah!”, “Diletantismo”, “Esboço”, “Essa É Pra Acabar”, “Mesmo Porque” e as incríveis versões para “Trem Das Onze”, de Adoniran Barbosa, e “Quantos Beijos”, de Noel Rosa.

“Ladeira Da Memória” está no álbum Diletantismo, de 1983. A letra da canção está integralmente exposta na epígrafe do post, e fala sobre as pessoas “Descendo a Ladeira da Memória / Até o Vale do Anhangabaú”. Um observador nota que elas são apenas figurantes nessa paisagem geográfica, que caminham e, eventualmente, “namoram” as vitrines. O cotidiano de qualquer sociedade capitalista. Mas um evento, subitamente, altera sua rotina: a chegada de uma tempestade.

Veja bem, escutava “Ladeira Da Memória” à época em que morava em São Carlos, “Cidade do Clima”. Uma queixa comum, de seus habitantes, é a de que o clima ali é imprevisível. De que você sai de casa, rumo ao trabalho, apenas para ser surpreendido por uma chuva torrencial ao fim da tarde. E que a noite, apesar do calor do dia, pode ser gelada a ponto de exigir gorros e luvas.

Mas como nós do interior somos exagerados!

Nada disso se compara à imprevisibilidade do clima aqui na Grande São Paulo, o que senti logo que mudei para Santo André. Na verdade, é uma imprevisibilidade que o torna quase previsível! O dia amanhece com um belo céu azul e, por volta das 15h, vêm as nuvens. E aí, há chances de boas chuvas, que se dissipam até às 21h, deixando como rastro uma noite nublada – e, por conseguinte, um céu sem estrelas e sem lua.

“Ladeira Da Memória” flagra justamente uma dessas – pra lá de realistas – cenas que os habitantes da capital, e arredores, vivem cotidianamente. Pois a chuva vem caindo e obriga as pessoas a se amontoarem na beirada das calçadas e nos estabelecimentos comerciais: “Quanta gente!”, se admira o observador.

Mas logo a água passa, trazendo uma inesperada alegria para o trabalhador que atravessa a Ladeira da Memória: “Olha as pessoas felizes, felizes, felizes / Felizes por que a chuva que caía agora há pouco / Essa chuva que caía agora há pouco já passou”.

grupo-rumo.jpg
Rumo, uma super-banda que enriqueceu o repertório da Vanguarda Paulistana.

Ainda sobre as relações entre interior e cidade grande, lembro que, ao escutar a canção pela primeira vez, jamais imaginei que um dia passaria pela própria Ladeira da Memória. Esse universo – e a própria Vanguarda Paulistana, o coletivo de artistas que se revezava nos palcos da Lira Paulistana, incluindo o Rumo, Arrigo Barnabé e o Premeditando o Breque – parecia algo muito distante, intangível.

Pois em 2017, estava andando por São Paulo a trabalho, prestes a visitar minha amiga Vivian Storti na Reitoria da Unesp, para conversarmos sobre a questão da biblioteca universitária, um assunto com o qual acabei me envolvendo, à época. Ela me informou o endereço e, nas andanças da Estação Anhangabaú do metrô, até a Reitoria, passei justamente… pela Ladeira da Memória. E aí entendi, finalmente, o que era descer a Ladeira até o Vale do Anhangabaú (“Quanta gente!”).

Quando encontrei a Vivian no prédio, contei a estória para ela, que não conhecia a canção. Chegando em casa, enviei o link do Rumo para que ela escutasse.

– Nossa, eu estive em uma música e não sabia! – divertiu-se a Vivian.


A canção composta por Zecarlos Ribeiro foi regravada para um disco de mesmo nome, lançado em 2013 pelo Selo Sesc e organizado pelo sempre inquieto e criativo Carlos Careqa, em homenagem ao Rumo e a outros nomes da Vanguarda Paulistana. Quem defendeu “Ladeira Da Memória” foi ninguém menos que Chico Buarque, sob um arranjo delicado e comovente. Há quem diga que Chico não é o melhor intérprete nem de suas próprias canções… não poderia discordar mais, e essa versão de “Ladeira Da Memória” prova que o canto buarquiano é sim capaz de trazer novas cores também para a obra alheia (o que, aliás, seu Sinal fechado, de 1974, já havia comprovado). Veja que coisa bela: 

Em 2018, o octeto vocal paulistano Canto Ma Non Presto produziu o álbum Som na cabeça, que reúne algumas homenagens à Vanguarda Paulistana. “Ladeira Da Memória” aparece com um magnífico arranjo a capella, com a participação de Ná Ozzetti e Paulo Tatit, os vocalistas originais da versão do Rumo em Diletantismo. Delicie-se:

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