77. Katinguelê: “Recado A Minha Amada”

Lua vai iluminar os pensamentos dela
Fala pra ela que sem ela eu não vivo
Viver sem ela é o meu pior castigo
Vá dizer que se ela for eu vou sentir saudades
Dos velhos tempos que a felicidade
Reinava em nossos pensamentos, Lua


Os anos 1990 assistiram a diversas ondas chegarem e partirem, deixando traços mais ou menos definitivos na canção popular brasileira. Não tenho nenhuma tese sociológica a respeito, aliás, sequer tenho autoridade para teorizar sobre aquele momento musical do Brasil.

Mas percebo que, dentre essas ondas – primeiro, uma redescoberta da latinidade com o ritmo da lambada, seguida da música sertaneja (muito diferente da música propriamente caipira), e aí o pagode romântico, que deu lugar à axé music -, ficaram resquícios hibridizados na produção cancional atual, que mescla elementos de todo aquele universo noventista: a canção ligeira, com letra simples e melodia facilmente memorizável, o apelo rítmico à dança e a ênfase nos estados passionais.

Especificamente o pagode, que foi a onda que percebi como a mais duradoura naquela época, frequentemente resvalava para o melodrama barato. As elaboradas harmonias do samba davam lugar a acordes previsíveis, quando não a encadeamentos monótonos. Valorizava-se mais a forma que o conteúdo, com boas produções, mas com letras e instrumentações que jamais marcaram indelevelmente a vida de ninguém.

Por outro lado, o gênero produziu também canções que, apesar de compartilharem dessa espécie de estética pasteurizada, ficaram guardadas na memória afetiva de muita gente e, olhadas com o distanciamento que só o tempo proporciona, eram sim obras de enorme valor. E com uma vantagem (ou desvantagem, a depender do referencial): conseguiam ser comercializáveis.

Coloco nesse conjunto a canção de hoje, “Recado A Minha Amada”, clássico do Katinguelê, composta por Juninho do Banjo, Fi e Salgadinho, e lançada no álbum No compasso do criador (1996). Como outras canções já tematizadas aqui, trata-se de uma obra simples, sem grandes mistérios. Mas gosto, sobretudo, da forma como a harmonia descomplicada proporciona o aparato ideal para a transmissão de uma mensagem que, de outra forma, soaria piegas: um pedido à Lua. A voz da canção, assim, dirige-se ao satélite da Terra rogando para que ele transmita um recado à sua amada: “Fala pra ela que sem ela eu não vivo / […] Vá dizer que se ela for eu vou sentir saudade”.

katinguele.jpg
Katinguelê, à época de Salgadinho: longínquas raízes no romantismo tradicional do samba, atualizadas no pagode oriundo do Cacique de Ramos.

Gosto muito da sonoridade de alguns versos: “Lua vai iluminar” soa muito poético, apesar (ou por causa?) da oposição semântica entre os universos lunar e solar. Também chama a atenção a ênfase nos “pensamentos”, nas memórias, o que conecta o pagode do Katinguelê à herança de grandes nomes da tradição do samba. Por fim, gosto também de pequenos detalhes, como as aliterações e a rima encadeada em “Lua, vá dizer que a minha paz depende da vontade / E da bondade vinda dessa moça”, além da presença do verbo “reinar” (“a felicidade reinava em nossos pensamentos, Lua”), relativamente raro em composições mais radiofônicas.

Waldir Pinto, no artigo “Convergência em meio à dicotomia: produção musical no pagode das décadas de 1980 e 1990” para o periódico Sonora (Campinas, v. 4, n. 8, p. 1-4, 2013), fala sobre o surgimento do pagode enquanto gênero musical, e sobre uma possível genealogia dos artistas a ele vinculados, nos anos 1990:

Naquele momento histórico [anos 1980], uma conjunção de fatores fez com que a indústria fonográfica e os meios de comunicação se apropriassem da palavra “pagode” – até então, sinônimo de encontro social regado a comida, bebida e samba -, utilizando-a como sinônimo de um novo gênero musical, ou de um subgênero do samba.

Dentre estes fatores pode-se destacar: utilização de instrumentos novos ou pouco utilizados no samba (tantã, banjo, repique de mão – este último, criado por Ubirany, do Cacique de Ramos); surgimento de uma nova leva de sambistas e compositores que, até então, não tinham acesso aos meios de comunicação de massa; e uma tentativa de resgate da tradição do samba, que se encontrava alijado dos meios de comunicação de massa – a não ser pelo samba enredo, já no âmbito do espetáculo midiático do carnaval. […]

No início dos anos de 1990 uma nova safra de artistas, cujos discos foram rotulados como pagode, apresentava sonoridades, influências e referenciais diversos. Alguns se espelhavam nos “pagodeiros” da década anterior; outros guardavam pouca semelhança com aqueles.

No segundo grupo supracitado algumas características são mais salientes: utilização massiva de instrumentos eletro-eletrônicos (especialmente, teclados), saxofone e metais; samba-rock e artistas como Jorge Benjor, como referencial sonoro; diálogo maior com a cultura e a música “pop” internacionais.

[…] Outros grupos também considerados representantes do “novo” pagode, no entanto, apresentam características que os aproxima da primeira leva de “pagodeiros” da década de 1980, por exemplo: Exaltasamba, Katinguelê, Soweto, entre outros (p. 1).

Acredito que “Recado A Minha Amada”, por essas características que explorei rapidamente, filia o Katinguelê à tradição do legítimo pagode do Cacique de Ramos, ele mesmo uma tentativa de resgate (e, ao mesmo tempo, atualização) de um samba mais antigo – como é afirmado no fragmento acima. No entanto, no mesmo trabalho, Pinto traz também algumas ressalvas à dicotomia entre o pertencimento a um subgênero mais tradicional do samba, ou a uma releitura mais moderna, principalmente no que tange à produção do pagode noventista e suas relações com o mercado:

a despeito das dicotomias que envolvem o pagode – e por mais que haja uma tendência de classificar o chamado “samba de raiz” como imune a influências externas, tecnológicas e pop – é na mediação realizada pelos produtores musicais que é possível identificar, com mais clareza, o que norteia a gravação de um disco: o mercado. É a comercialização e a vendagem do disco (o produto fonográfico) que orienta estratégias de produção – inclusive, no que tange a arranjos, instrumentação, recursos técnico-tecnológicos etc – e que determina o sucesso de um produtor musical e, conseqüentemente de um disco – seja ele de “samba de raiz” ou de “pagode romântico” (p. 4).

Outras investigações poderiam lançar luz sobre processos análogos em outros universos, como o do rock brasileiro. Afinal, mui “frankfurtianamente”, eu diria tudo se trata da indústria cultural e do eterno dilema entre manter a qualidade artística e elaborar produtos comercializáveis – aspecto bem resolvido em “Recado A Minha Amada”.


Meu sonho é escutar, algum dia, uma versão instrumental, com arranjo e formação de choro, para a canção do Katinguelê. Enquanto isso não acontece, fique com a versão cantada por Alcione, junto com os autores, no disco Os melhores do ano (1998), que reuniu grandes pagodeiros:

Bem mais recentemente, o Katinguelê, já sem Salgadinho (após idas e vindas), incluiu uma versão repaginada (pero no mucho) de “Recado A Minha Amada” em Um novo tempo (2018):

Há também uma boa versão cantada por Salgadinho, como extra de seu DVD Minha verdade (2016). Um atrativo são os ótimos sons de cavaco tirados pelo próprio vocalista:

5 comentários

  1. Ah não mano, não acredito que tem Katinguele no seu blog, infância demais esses pagode dos anos 90 ❤

    Pqp ta ficando foda demais o seu blog viu, parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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