78. Toquinho-Vinícius: “Cotidiano nº 2”

Hay dias que no sé lo que me pasa
Eu abro meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada, não
Tenho meu violão


Nos meus tempos de graduação, vivia numa espécie de comunidade acadêmico-musical com uma penca de amigos. Entre uma lista de exercícios e outra, entre um relatório e outro, lá estávamos nós ouvindo, reproduzindo e fazendo música. A turma tinha bons instrumentistas e alguns, como eu, bem esforçados. O rock era um contexto bastante limitado para nós; tocar três acordes, todos tocavam. O desafio era a tal da MPB, com suas harmonias dissonantes e seus voos melódicos mais imprevisíveis.

Nosso amigo Emanuel “Zero” Marques, que tinha passagens por grupos de hardcore e uma baita mão direita ao violão, vira-e-mexe aparecia com algo de Toquinho e Vinícius de Moraes nas nossas sessões sonoras – e, assim, aprendemos a tocar coisas como “Tarde Em Itapuã” e “A Tonga Da Mironga Do Kabuletê”. Outro fã da canção popular brasileira da mais nobre estirpe era Maurício “Bob” Peres de Paula, que tocava também um ótimo violão e conhecia outras canções da dupla. Uma delas, que quase nunca ensaiávamos – e que era a única que eu sabia arranhar -, era “Cotidiano nº 2”.

Vamos falar dela hoje, e o post fica como homenagem e agradecimento a esses amigos que tanto contribuíram para minha educação musical.


A primeira vez que a canção chamou minha atenção foi já aos 20 anos, quando a vi ser tocada ao vivo num sarau universitário. Depois, estudando a harmonia da obra, pude compreender o porquê de ter sido fisgado: após cumprir pequenos passeios no campo harmônico de Dó Maior, o refrão traz algumas inversões que, descendo pela escala cromática, criam uma série de pequenas tensões. Estas, acumuladas, se resolvem repentinamente no jogo dominante-tônica (acordes de G7 e retorno ao Cmaj7), causando o alívio resignado: “Mas não tem nada, não / Tenho meu violão”. Não é a mais complexa das soluções harmônicas (embora também não seja simples), mas é pra lá de eficiente, e exemplifica como funcionava a relação praticamente simbiótica entre o então jovem violonista e o veterano poeta e diplomata – “Na linha direta de Xangô”, como completava Vinícius no “Samba Da Benção”.

toquinho-vinicius.jpg
Toquinho-Vinícius: a dupla boêmia que, sob uma forma erudita, soube traduzir muito do que acontece no mundo popular.

Existem ainda outras estórias sobre essa canção. Uma delas está no livro Vinícius de Moraes (2013), organizado por Wagner Homem e Bruno De La Rosada para a série Histórias de Canções, da editora Leya:

Em Paris, os autores se encontraram com Pablo Neruda, grande amigo de Vinícius, e resolveram mostrar-lhe a homenagem que lhe haviam feito. Cantaram a música e ficaram aguardando um comentário do homenageado. Após um silêncio constrangedor, Neruda disse que gostou da música, mas não havia entendido a homenagem. Mais silêncio. “Como, Neruda? Esse verso ‘Hay dias que no sé lo que me pasa’ é seu!”, disse Vinícius. Perguntaram então à esposa de Neruda, que conhecia bem sua obra. Ela pensou e respondeu: “Esse verso é de um tango argentino!”. “É muito bonito, eu devo ter esquecido de fazer”, finalizou Neruda, gentilmente.

Antes desse parágrafo, existe ainda um depoimento de Toquinho que acerta em cheio, ao definir o tema da canção: uma “ideia linda, fantástica e terrível, de cotidiano”.

Poeticamente, destaco também os versos “Acordo de manhã, pão com manteiga / E muito, muito sangue no jornal / Aí a criançada toda chega / E eu chego a achar Herodes natural”. Apesar da crueldade bíblica, sempre rio dessa passagem. Perdão, Senhor!

A canção apareceu pela primeira vez no álbum São demais os perigos desta vida… (1972) e, obviamente, serve como resposta a uma obra anterior: “Cotidiano” de Chico Buarque, lançada um ano antes, em Construção. É curioso observar como as duas peças são, ao mesmo tempo, diversas e convergentes. Na canção de Chico, o cotidiano é resumido a rotina, repetição, monotonia: a harmonia é simples, cinza, com pontes baseadas em acordes diminutos, reforçando o subtexto de que um tal dia-a-dia é, afinal, absurdo – em que se vive para trabalhar, em vez de se trabalhar para viver, resignadamente (“E me calo com a boca de feijão”):

Já na parceria de Vinícius e Toquinho, a náusea, quando o enunciador interrompe o percurso narrativo para refletir sobre seu cotidiano (em vez de meramente descrevê-lo), chega somente ao final da canção: “Às vezes quero crer, mas não consigo / É tudo uma total insensatez / Aí pergunto a Deus, que escute, amigo: / – Se foi pra desfazer, por que é que fez?”. E segue-se o refrão, apontando o refúgio no ato de compor/tocar como estratégia para a sobrevivência. De certa forma, o binômio absurdo/resignação, que marca tanto a “Cotidiano” original quanto a réplica de Toquinho com o Poetinha, pode ser resumido justamente nesse desfecho, que aparece, em algumas versões, como uma vinheta. Ouça a que aparece em 10 anos de Toquinho e Vinícius (1979):

E não para por aí. Dois anos depois da réplica de Toquinho-Vinícius a Chico, Odair José, meio sem ser convidado, se meteu nesse diálogo com “Cotidiano nª 3”, presente em Lembranças. A obra é um tanto politicamente incorreta, com um eu-lírico que só se queixa da esposa, cotidianamente desleixada, até chegar ao ponto mais alto da tensão, explodindo apelativamente: “Antes de casar comigo, você não era assim”. Mas, bem a seu feitio, acaba cedendo ao amor, após elencar toda a decadência (física e comportamental) que o matrimônio teria provocado na mulher – e exatamente como na resolução dominante-tônica de “Cotidiano nº 2”, Odair recua (ou se justifica de forma ainda mais machista, a depender da leitura): “Pois eu te amo”. Ouça:

De toda forma, são três canções que deram voz a muitos brasileiros, que com elas podem se identificar quase plenamente.


Em 1973, o show de Toquinho-Vinícius com Clara Nunes, registrado no álbum Poeta, moça e violão, teve espaço para “Cotidiano nº 2”, numa linda e comovente versão – infelizmente, sem a participação da mineira guerreira:

No ano seguinte, o Zimbo Trio registrou uma versão instrumental e bossa-nova, em Zimbo Trio FM Stereo – Programação especial:

Mais recentemente, Toquinho, em Seu violão e suas canções – vol. 1 (2010), gravou uma belíssima performance voz-e-violão, com atualizações na harmonia:

Já a versão vinheta também fora registrada apenas pelo parceiro de Vinícius, em Trinta anos de música (1994):

Por fim, e como curiosidade, o Blues Etílicos também fez uma releitura para a canção, em Puro malte (2013). O clima trágico/terrível, subjacente ao texto de Vinícius, cede lugar à leveza, na bem humorada versão blueseira – que ressalta a adequação do verso “Aos sábados em casa tomo um porre” ao universo do conjunto de Flávio Guimarães e Greg Wilson. Confira:

10 comentários

  1. Adoro essa música! Também acho cômica a passagem de Herodes e ri alto com a estória da reação do Neruda, rsrs. Parabéns pelo post, está ótimo!!

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    1. Muito obrigado! Você sabia que o Samba de Primeira começou com esta canção? Inclusive, acho que foi um dia em que você e seu esposo estavam presentes, junto com outros feras, como Manito, Krusty e até o Bolão.

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  2. A melancólica relação de Ódio e Amor ao cotidiano. Acordes tão simples e ao mesmo tempo tão complexamente conexos com as palavras que os seguem. Isso era Toquinho e Vinícius.
    Tudo isso em um análise tão coerente e viva do nosso querido amigo Químico e escritor de sonhos.
    Obrigado por trazer ainda mais luz aos nossos ídolos!
    Abraços

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    1. Se o post tivesse como texto apenas seu comentário, já estaria perfeito! Você resumiu a canção muito melhor que eu.
      E fico feliz demais em tê-lo aqui. Como é bom revermos essas canções que foram tão importantes no início de nossa amizade, não é mesmo?
      Grande abraço!

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