79. Gloria Bomfim: “Sultão Do Mato”

Minha guia é de conta encarnada
De búzio da costa, de conchinha azul
No pescoço ela dá sete voltas
E traz pendurado o Cruzeiro do Sul
Eu não sei que santo é esse, meu mano
Mas o dia que eu souber eu não conto
Ele tem na mão direita um abano
E na esquerda o seu bastão de confronto


Até certa altura do ano, não havia nenhum post sobre as composições de Paulo César Pinheiro. E agora me vejo na seguinte situação: de todas as 10 canções em meus planos para os próximos dias, metade são de sua lavra. Tentarei dar uma mesclada com outros compositores e “segurar” algumas dessas obras, mas o fato é uma mostra eloquente do quanto Paulinho é um autor prolífico – provavemente, o que melhor conjuga as dimensões da qualidade e da quantidade, em toda a história da canção popular brasileira.

Fiquei mais próximo desse compositor por volta de 2012, quando me envolvi mais com a cultura abrobrasileira. Foi um ano de grandes descobertas espirituais, nesse sentido – a partir de sonhos e outras experiências do sono, visões, fenômenos acontecendo em casa, intuições, etc. Pode ser tudo coisa de minha cabeça, lógico. Mesmo assim, me atingiram em cheio, e não poderia ficar indiferente a elas.

Por volta de setembro, em minhas buscas por canções que exprimissem essa forma de espiritualidade, acabei conhecendo o disco Santo e orixá (2007), de uma desconhecida cantora baiana, Gloria Bomfim. A obra colige 14 afro-sambas de Paulo César Pinheiro, e está envolta em estórias – e polêmicas.

release do disco, escrito pela esposa de Paulinho, a cavaquinista Luciana Rabello, narra a forma como Gloria veio a se tornar intérprete:

A história dessa baiana é comovente e cinematográfica. Nascida em Areal, um pequeno povoado no interior da Bahia, Glória era requisitada desde muito menina pra cantar nas redondezas, em festas de casamento, batizados etc. Ela conta que muitas vezes foi tirada da cama por seu Tutu, festeiro do lugar, vestindo um camisú (daqueles de cambraia com calçola igual) e levada no balaio de um jegue pra animar essas festas. Não havia rádio e muito menos disco naqueles lugarejos em que a festa dependia dos músicos e dos cantores da região. Filha de Domingas e Miguel, a pequena intérprete de 8 anos agradava a todos com sua voz potente. De cima de um caixote de madeira, sua voz era ouvida de longe, garantindo boa dança e boa festa! Década de 60, o rock chegando às capitais, e o hit da pequena cantora era a valsa Viagem, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. A partir daqueles dias, a menininha começa a sonhar em ser cantora de verdade. Mas a valsa e tudo aquilo ficaria pra trás quando, acreditando em falsas promessas de estudo e de um futuro melhor, Domingas entrega a filha aos cuidados de uma senhora. No lugar de cartilha, a menina recebeu uma colher-de-pau e o trabalho doméstico não remunerado. Voltou a subir em tamboretes, agora não mais pra cantar, mas pra alcançar o fogão e a pia. Acabou se tornando uma cozinheira de mão cheia! Aos quatorze anos veio pro Rio de Janeiro, fugindo da tal tutora. Sem documentos, pai nem mãe, tinha apenas a cara, a coragem e o dinheiro do ônibus. Trabalhou de doméstica e, dez anos depois, veio parar em minha casa. Meu filho Julião – que também estréia como violonista nesse disco – tinha apenas dois meses. Glória trabalhava sempre cantando. Desde a primeira vez que a ouvi, já senti o que estava ali. Voz rascante e afinada, com volume impressionante, precisão rítmica admirável. E tinha cultura, ancestralidade. O repertório era irretocável. Comecei a reparar também que Paulo César Pinheiro, o dono da casa, era o compositor mais constante, com diversos parceiros: Mauro Duarte, João Nogueira, Eduardo Gudin e, naturalmente, João de Aquino. Um dia daqueles, ainda sem conhecer sua história, passei pela cozinha enquanto ela cantava Viagem, e brincando, insinuei que ela estaria puxando o saco do patrão. Ela se assustou, me pegou pelo braço e me fez sentar pra explicar. Eu falei que aquela música era do Paulinho, ora! Com os olhos cheios dágua, ela me disse não acreditar que alguém inventasse música e, menos ainda, que estivesse trabalhando na casa do criador daquela, que a acompanhava desde criança. Eram dois fenômenos: Glória achava que músicas não eram feitas, mas que apenas existiam como as cantigas de santo do candomblé. E não imaginava, absolutamente, que estava há quatro anos convivendo com o autor da sua maior lembrança!

Algum tempo depois, Rafael César, do blog Meu Jazz, escreveu um texto sobre esse release, entendendo que o mesmo reproduz uma postura racista por parte de Luciana. É um texto que vale muito a pena ser lido e refletido. Tendo a considerar que o autor exagera, e que Paulo César e Luciana jamais apoiariam qualquer postura racista, considerando seu entusiasmo para com todas as tradições brasileiras de origem africana. De toda forma, o post de Rafael nos alerta para o quanto o racismo está introjetado na cultura brasileira, no nosso modo de falar e de agir para com a pessoa ao lado, quando ela é negra. Segue um fragmento:

Sabe qual é a questão? Vai saber se a Glória Bomfim estava mesmo a fim e à vontade de cantar com aquelas pessoas. Pode ser que estivesse? Sim. Mas pode ser também que, por várias vezes, ficasse cansada de ser o mico de circo que anima a plateia, como qualquer artista. E com uma diferença: qual a margem que ela teria de dizer “Dona Luciana, hoje não quero, não estou a fim. Vou ficar no meu quartinho de dois metros quadrados, assistindo à minha televisão de cinco polegadas. Quando a senhora precisar de alguma coisa, grita”? Quase nenhuma, evidentemente. Até porque Luciana não entenderia como Glória não iria querer estar com ela, sendo uma patroa tão boa.

E já que Luciana fala da ancestralidade de Glória nesse texto, deixa eu falar um pouco da ancestralidade da própria Luciana. Talvez ela não saiba, mas está repetindo o velho hábito que seus antepassados senhores de terra tinham de ir à senzala com seus convidados e mandar os negros cantarem os folguedos, jongos, sambas para diverti-los. Isso era comuníssimo, e ai do escravo que não quisesse participar do pocket show. Wilson Moreira e Nei Lopes já cantaram em “Candongueiro”, mas Luciana, mesmo atenta e sensível ao mundo do samba, não percebeu: “Meu candongueiro / bate jongo dia e noite / só não bate quando o açoite / quer mandar ele bater / também não bate / quando o seu dinheiro manda / isso aqui não é quitanda / pra pagar e receber”.

(Quando falo dos antepassados de Luciana Rabello, não afirmo que estes tenham sido senhores de escravos, mas remeto a um espaço simbólico do qual ela é herdeira socialmente falando, já que desfruta dos privilégios de ser branca por conta do passado da escravidão e do racismo que é presente – além de repetir os costumes que são tradicionalmente passados adiante nesse contexto.)


Controvérsias à parte, Santo e orixá é um belo disco. Do samba da faixa título, passando pelas ótimas “Ogum-Menino”, “Gameleira Branca” e “A Palma Da Palmeira”, a obra promove uma verdadeira imersão no universo das religiões de matriz africana e, de forma mais geral, na cultura brasileira. Uma das canções já foi tematizada aqui, “Encanteria” – que encantou Maria Bethania e foi incorporada a seu repertório.

Outra canção poderosa, no álbum, é “Sultão Do Mato”, que tem uma batida percussiva sincopada, lembrando uma embolada. A melodia é sinuosa e vai crescendo em degraus, à medida que descreve o tal sultão.

Sobre o personagem, mais uma estória de Paulinho, contada no blog Receita de Samba:

Paulo conta que desde pequeno desenvolveu uma certa mediunidade. Vê vultos, pessoas, sombras… Ouve palavras, cantos e passos, sonha com coisas que muitas vezes acabam acontecendo… Conta ainda que em uma longa noite de insônia, sem vontade alguma de ler, compor ou mesmo pensar, deitou-se em um quarto isolado em um canto de sua casa, para não acordar a família. Apagou as luzes, deitou-se na esperança do sono chegar de leve, mas nada… Aos poucos aquilo foi crescendo e virou, em suas palavras, um grande círculo faiscante de azul intenso. Imóvel, um tanto assustado, pregado no colchão, viu surgir na luz azul um rosto, de feições árabes, barba bem recortada no rosto, um olhar negro penetrante, na cabeça um grande turbante e uma pedra roxa no centro da testa. Quase em pânico, ouviu a imagem começar a cantar… um canto bonito, mas diferente. Segundo o poeta, parecia um ponto, um mantra. A música levou o medo embora e após aquela voz grave que vinha sabe-se lá de onde repetir o refrão por umas dez vezes, Paulo César o decorou e a imagem foi se desfazendo até sumir completamente.

Paulo César, ainda sob o choque de tal experiência, foi para seu escritório e registrou o canto em seu gravador… Aos poucos foram surgindo versos, formando-se estrofes e ao amanhecer uma nova música estava pronta. Paulo descreveu a figura que lhe aparecera para sua empregada, a Glória Bonfim, que como foi dito era uma autoridade no campo da umbanda e candomblé. Glória lhe contou que havia um “Sultão das Matas” na linha de Xangô que lhe parecia ser a figura descrita pelo patrão, mas não tinha certeza. Paulo César Pinheiro conta que essa imagem o acompanhou durante muito tempo em pensamento.

Até que um dia, procurando algo entre seus livros na biblioteca, puxou um livro que não era dele, que ele nem conhecia muito menos sabia de onde viera. Era um livro sobre o Conde Saint German, criador da doutrina do Sétimo Raio, cujo objetivo era instruir a humanidade a transmutar seus erros e ingressar num viver regenerado, puro e cheio de felicidade. Ao folhear o livro, tomou um susto… viu em uma das páginas a imagem de um homem, exatamente igual ao que lhe aparecera naquela visão… Era o Sultão do Mato.

Nas palavras do próprio Paulo: “Não acreditam? Pois é… É assim que eu vivo. Entre a matéria e o etéreo. Entre o papel e o ar. Entre a massa e a energia. Entre Arigó e Einstein…

gloria-bomfim.jpg
Gloria Bomfim, a voz aguda e rouca que encarna perfeitamente os afro-sambas de Paulo César Pinheiro.

Como disse no post sobre “Encanteria”, Santo e orixá foi reeditado em 2011, pela Biscoito Fino, com o título Anel de aço. Por muito tempo, o álbum de 2007 acabou se tornando uma raridade, pois saiu do catálogo da Acari Records – sendo que, nele, havia duas canções descartadas no relançamento de 2011, “Bambueiro” e “A Palma Da Palmeira”. Hoje, é possível escutar Santo e orixá, na íntegra, no YouTube.

Também é possível conferir o mas recente trabalho da parceria entre Gloria e Paulinho, Chão de terreiro, lançado ao final de 2018. Como esperei por um lançamento como esse! Confira:

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