80. Maglore: “Mantra”

A fita do Bonfim tá pra partir já
A santo não se basta só pedir pra já
A sorte é um mantra diferente
Ah! Tudo passará
Vinte anos de esmola espiritual
Todo plano que se quebra em corpo é todo amor
Não se recebe, não se enxerga em cor de sol
Extrema fonte de vontade


Em 2007, São Carlos começou a sediar o Festival Contato. Talvez o maior festival multimídia do interior, o Contato alegrou muitos momentos de minha vida, sempre acontecendo nos meses finais do ano. A programação era farta, com palestras, cursos, intervenções e música, muita música. Os shows (sempre gratuitos) aconteciam em espaços públicos da cidade, primeiro na Estação Cultura, depois na praça do Mercado Municipal, subindo para a praça Coronel Salles, e depois ocupando o Parque do Bicão.

O festival era muito bom para evidenciar novos sons. Foi assim que conheci, por exemplo, Cérebro Eletrônico, Charme Chulo, Apanhador Só, Liniker e os Caramelows e As Bahias e a Cozinha Mineira. Cada um na sua praia, mas sempre muito marcantes – e como é emocionante conhecer um artista assim, diretamente ao vivo!

Lembro especialmente dos primeiros shows: uma libertadora e impressionante apresentação na Estação Cultura, com dois palcos se revezando (enquanto o som era passado num, um artista se apresentava no outro); os dois dias incríveis no Mercadão em 2008, findando com uma delirante apresentação do Mudhoney (!); e as noites na Coronel Salles, em que ouvi muita coisa, inclusive, uma incrível homenagem à fase “racional” de Tim Maia.

No entanto, há uma lembrança mais recente, e que quero trazer ao blog hoje. Havia acabado de mudar para Santo André, depois de 30 anos morando em São Carlos. Novo trabalho, novos desafios, esse clichê todo… E que saudade da minha terrinha! Sobretudo, sentia falta da companhia daquele montão de gente bacana que conheci em meus quase 15 anos de USP, primeiro como estudante, depois como trabalhador. Logo que cheguei no ABC, meu círculo de pessoas mais chegadas não ultrapassou cinco valiosas presenças, como o Marco Antonio (sempre tranquilizador, foi essencial para minha ambientação na nova morada), minha monitora Thaís Rocha e alguns alunos dessa primeira turma para a qual lecionei, como o Arthur Armelim e o Luquinhas “Dx”. Foi um pessoal que me ajudou muito – logo, expandindo meu círculo de relações – e, por isso, serei eternamente grato pela acolhida.

Após quase um mês na nova morada, tinha a oportunidade de passar um fim-de-semana em São Carlos, justamente quando aconteceriam os shows da 9ª edição do Contato. Desci de bicicleta para o Parque do Bicão e foi aí que conheci o som tematizado hoje, “Mantra”, dos baianos do Maglore, presente em seu disco mais recente à época, III (2015).

O que me marcou, dessa canção, foi todo um conjunto de sensações: a melodia suave, com revezamentos de asseverações com momentos mais passionais (“Só sei ser inteiro / Não sei ser pela metade”), o instrumental indie, o jeito despojado dos integrantes… Mas não só isso: também o pôr-do-sol ao fundo do palco, a certeza de que sempre teria São Carlos para retornar quando sentisse falta… e, sobretudo, o sentimento de que era amado, muito amado!

Pois, depois de algum tempo de solidão em outra cidade, lentamente sendo preenchida por aquelas novas amizades, reencontrava uma multidão de pessoas queridas: a cada topada, um abraço, um beijo, uma euforia. Eram ex-alunos meus do ensino médio, contemporâneos da USP na graduação ou na pós, amigos que já não estavam em São Carlos (mas que retornavam graças ao poder aglutinador do Contato), gente que já abriu a porta de casa (e do coração) para mim… Um banho de ânimo, de esperança e de amor. Como diz a letra da canção de hoje (que me faz tão bem ouvir, por conta dessa memória), “Lavando a mente de toda tristeza / Ah! Tudo passará”.

Destaque também para o criativo videoclipe, gravado numa praia da Salvador e dirigido por Victor Marinho. Nele, temos o vocalista/guitarrista Teago Oliveira (compositor da canção) sendo carregado pelos demais integrantes do, à época, trio, Rodrigo Damati (baixo) e Felipe Dieder (bateria). No fim das contas, todos se jogam no mar – e volto a lembrar de todas essas almas que passaram por minha vida, ora me carregando pacientemente, ora se atirando, comigo, nas mais impensadas aventuras. E como sou grato por poder viver isso até hoje!

maglore.jpg
Maglore: som da Bahia, meio indie rock, com boas doses de brasilidade, e que merece ganhar o mundo.

Não deixe de escutar a versão acústica que a banda registrou na 89 – A Rádio Rock:

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