81. Fernanda Abreu: “Speed Racer”

Cada dia que passa
É mais um dia que passa
Pra onde o destino me leva
Eu não sei
Eu ando pela cidade
Speed Racer, pela cidade
Mach 5 cor de prata
Em alta velocidade
Em alta velocidade


Fernanda Abreu sempre me encantou. Confesso que, por muitos anos, chegou a ser uma espécie de musa para mim, com sua presença magnética, seu olhar sério de mulher forte, decidida, dona de sua carreira e, principalmente, de si mesma.

Um dia, assistia ao programa Ensaio, da TV Cultura – ou terá sido outra atração? – e fiquei inexplicavelmente hipnotizado por uma canção simples, “Speed Racer”. À época, não havia acesso fácil à internet, de modo que me coube, resignado, guardar o nome da faixa e tentar cantarolar parte do refrão, mais tarde. Bom, apenas guardei o nome, e fiquei anos sem ouvir a peça, de autoria da própria Fernanda, mais o produtor Fábio Fonseca e Herbert Vianna. Aliás, àquela época, estava descobrindo a discografia paralâmica e talvez por isso “Speed Racer” tenha me chamado a atenção – assim como “Um Amor, Um Lugar”, a canção parecia algo como uma “reserva técnica” do repertório do trio, vazada para a obra de Fernanda, onde poderia florescer de forma mais pujante.

Muitos anos mais tarde, comprei usado o segundo álbum solo de Herbert Vianna, Santorini blues (1997). O título é uma espécie de dupla enganação: nem as canções são tão blueseiras assim (certo, há influências beeeem sutis numa ou noutra faixa), nem “Santorini Blues”, a canção, estava ali presente (e que eu conhecia de Hey na na, o irretocável disco de 1998 dos Paralamas).

Mas, como consolação, lá estava “Speed Racer”, com um arranjo semelhante ao que escutei Fernanda Abreu performar, embora todo acústico:

Acabou se tornando a minha favorita desse singelo, mas belo, disco de Herbert.

Pouco tempo depois, outra aquisição: Raio-X, de Fernanda, lançado no mesmo ano que Santorini blues. Confesso que demorei a entender a proposta do álbum. Na faixa-título, o rap que abre o álbum, a cantora apresenta sua carta de intenções: “Mil novecentos e noventa e sete / Mais um ano nesse tempo de pandeiro e de disquete / Eu preciso olhar pra trás pra seguir em frente / E pra você eu dedico esse som, esse presente / Com uma galera classe A fotografando em raio X / Tô mostrando nessa chapa boa parte do que eu fiz / Na forma de uma mini-discografia autorizada / Aqui em edição revista e ampliada”. Só mais tarde fui entender o sentido de “mini-discografia em edição revista e ampliada”: Raio-X é metade coletânea, com regravações de sucessos de Fernanda, metade disco de carreira, com uma boa quantidade de faixas inéditas.

Importa destacar que ali encontrei, finalmente, Fernanda cantando “Speed Racer”, numa versão iniciada com guitarras, que depois passam a dividir espaço com um incrível arranjo de cordas, ajudando a construir um clima dramático. No entanto, a canção era a mesma: uma batida em andamento lento, com frases de guitarra que acompanham os versos, como uma paisagem acompanha um motorista no assento do carro, seu eu-lírico. O personagem observa os elementos urbanos e chega a refletir sobre o que vê (“A vida nem sempre é boa”), mas a velocidade é tão alta que, à Speed Racer em seu Mach 5, tudo se torna indistinguível e, portanto, fica a impressão de lentidão, de repetição, quase de imobilidade. Pense numa roda girando em altíssima velocidade: para nossos olhos, é como se ela não se movesse, com os raios formando uma superfície sólida. Assim é “Speed Racer”. Ouça a versão de Raio-X:

Por anos, fiquei satisfeito com as duas gravações que escutei da canção, até que procurei escutar a original, do primeiro disco solo de Fernanda, Sla radical dance disco club (1990). Essa é a versão que abre o post, com seu videoclipe que mescla flashes de Fernanda cantando, mais tomadas externas em que (previsivelmente) vemos a paisagem passando pelo vidro de um carro. Herbert Vianna, que é quem pilota as guitarras na faixa, também participa do vídeo, que é um documento histórico, representativo de tudo o que os anos 1990 viriam a proporcionar ao Brasil na seara da canção popular.

Fernanda, nesse sentido, foi uma das mais desenvoltas personagens desse período, não apenas antecipando tendências (como a de trazer o pop ao Brasil e de mesclá-lo com o rap e nossos ritmos – ou você acha que a Iza se fez assim, do nada, do dia para noite?), mas colaborando para a construção de uma nova estética, que esgarçaria, mais tarde, os limites entre a canção e sua negação. Mas isso é conversa para outro post

fernanda-abreu.jpg
Fernanda Abreu: visionária e precursora do pop de qualidade, que permanece como uma das mais fortes tendências da canção brasileira atual.

3 comentários

  1. Não conhecia,gostei da batida.Eu acho que posso dizer que Fernanda Abreu é bem diferente das cantoras de sua geração.

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    1. Sim, Fernanda Abreu construiu uma respeitável carreira solo, sem se apadrinhar com grandes figurões de outras gerações, escorando-se apenas em seu próprio talento. Sempre senhora de sua trajetória.

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