82. Nelson Cavaquinho: “Luz Negra”

Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofre como eu também
E não consigo achar ninguém
Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim
A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou desempenhando o papel
De palhaço do amor


“Luz Negra” é uma típica canção de Nelson Cavaquinho. Presente no disco Nelson Cavaquinho – Série documento (1972)nela há diversas assinaturas do sambista mangueirense. A harmonia tortuosa tem como destaque a deprimidíssima sequência de abertura, com um pequeno e cruel cromatismo que conduz um acorde menor até sua versão com sétima (passando pela sétima aumentada) – intervalo dissonante que, aliás, está presente em grande parte dos acordes da canção, que contam também com sextas e uma quinta diminuta.

Outra característica de Nelson, e que salta mais claramente aos ouvidos, é a letra, pura disforia, desencontro, desencanto – em uma palavra, disjunção. Perceba que o conteúdo lírico até consegue veicular termos que, abstratamente, podem remeter a valores positivos, como a “luz”, a “cor” e o “palhaço”. Mas tudo isso é modulado de forma a se negativar: assim, a luz não ilumina, pois é uma “luz negra”; a cor não colore, pois está negada (“sem cor”); e o palhaço não diverte, pois é um papel desempenhado de forma envergonhada, humilhante – o “palhaço do amor”, ironia ou joguete do destino, aliás, adjetivado como “cruel”. Pura tragédia: mais Nelson, impossível.

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Nelson Cavaquinho: das quadras da Mangueira, a poesia deprimida que se tornaria um dos maiores patrimônios de nosso samba.

A canção, de Nelson e Amâncio Cardoso, até onde sei, foi lançada por Nara Leão em seu LP de 1964 (a canção – isso porque há uma primeira versão instrumental, de que falarei ao final do post). A intérprete (e o arranjador, Lindolfo Gaya) captaram corretamente a mensagem, fazendo da faixa um belo e trágico registro, com cordas e um melancólico trombone:

No ano seguinte, seria lançada a versão de Elizeth Cardoso, com Paulinho da Viola ao violão e o próprio Nelson nos vocais, em Elizeth sobe o morro. Antológica! Ouça:

Em 1970, Nelson lançou seu primeiro LP, Depoimento do poeta, que traz “Luz Negra”. Trata-se de uma gravação alternativa àquela que abre o post, e que foi reeditada em 1974 (por isso, a de 1972 soa mais clássica). Quando escutei essa versão, me chamou a atenção a flauta. Só poderia ser Altamiro Carrilho e… bingo. Ouça:

A partir daí, diversos intérpretes escolheriam esse clássico para regravar. São muitos, muitos mesmo! Vou destacar, dentre tantas interpretações, duas que soam muito marcantes.

A primeira é a de Beth Carvalho, no tributo Beth Carvalho canta Nelson Cavaquinho (2001). Minha impressão é que tudo o que Beth toca vira ouro. Veja se estou errado:

Em 2007, Fernanda Takai gravou Onde brilhem os olhos seus, um tributo à Nara. Lá está “Luz Negra”, numa versão sombria, cheia de teclados de Lulu Camargo e com as guitarras rascantes do maridão John Ulhoa. Poderia, perfeitamente, estar num projeto do Pato Fu. Uma inusitada versão que reconstrói, brilhantemente, esse clássico da canção brasileira:


Como disse, “Luz Negra” foi lançada como canção em 1964, mas poucos conhecem uma versão instrumental anterior, de Baden Powell, do LP Um violão na madrugada (1961): 

E por falar em instrumentais, existe uma desconcertante releitura pelo violino de Nicolas Krassik, músico francês radicado no Brasil desde 2001. Krassik frequentou muito o Chorando Sem Parar, festival que agita São Carlos todo ano, culminando num domingo inesquecível com 12 horas de choro sem parar, na praça XV de Novembro. Na edição de 2008, ele tocou essa versão de “Luz Negra” e explicou seu estilo ao violino, delineado após anos de estudo e a partir da vontade de, quando garoto, tocar guitarra. Daí as passagens em que toma o violino como um bandolim, dedilhando as cordas. O que, infelizmente, não acontece na gravação em questão, do álbum Na lapa (2004), e que tem Beth Carvalho como convidada, cantarolando a melodia e tocando cavaquinho. Registro indispensável (como o é, aliás, todo o Na lapa, excelente mostra de como um estrangeiro pode criar a partir do apreço e do carinho pela música brasileira, nos ensinando uma valiosa lição):

1 comentário

  1. Não conhecia a versão do Nicolas Krassik,ficou linda,mas a versão mais surpreendente dessa música,na minha opinião,é a do Cazuza.Saiu naquele LP Chico &Caetano,tem até um vídeo dele no youtube cantando a triste canção.

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