83. Gaúcho da Fronteira: “Guri”

Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse
Uma mala de garupa e uma bombacha e me desse
Queria boinas e alpargatas e um cachorro companheiro
Pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço soleiro
Hei de ter uma tabuada e o meu livro “Queres Ler”
Vou aprender a fazer contas e algum bilhete escrever
Pra que a filha do seu Bento saiba que ela é meu bem querer
E se não for por escrito eu não me animo a dizer
Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai
Botas feitio do Alegrete e esporas do Ibirocai
Lenço vermelho e guaiacas compradas lá no Uruguai
Pra que digam quando eu passe saiu igualzito ao pai
E se Deus não achar muito tanta coisa que eu pedi
Não deixe que eu me separe deste rancho onde nasci
Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui


Nutro uma forte relação afetiva pelo Sul do país, embora jamais tenha descido além de Florianópolis – e isso, ainda nos anos recentes.

As bandas sulistas sempre me atraíram e, quando conheci alguns parceiros tão fanáticos quanto eu por aqueles sons, foi uma euforia muito grande. (Falando nisso, por onde anda meu amigo Mário Pontieri, com quem não converso há anos?).

Tempos mais tarde, tive a oportunidade de trabalhar com uns gaúchos muito bacanas – trilegais, diriam -, com quem dividi, além de muito trampo, uns copos e picanhas: o Bruno Pastoriza, da Universidade Federal de Pelotas, e o Marcus Ribeiro, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. Com eles, dei boas risadas e aprendi a origem de alguns termos que, espalhados por todo o vocabulário das diversas regiões gaúchas, podem se tornar verdadeiras barreiras comunicativas para quem fala outras variantes do português. Por exemplo, o Marcus me explicou, de forma muito didática e inesquecível, o significado da expressão “frio de renguear cusco” – que é relativamente sintética e muito mais elegante que o “baita frio” ou a “p*** friaca” que usamos aqui em São Paulo.

Esse é o cerne da dificuldade que sinto em ouvir a canção popular gaúcha. As gaitas (que, aqui, chamamos sanfonas ou acordeões), combinadas com as violas e violões, me remetem a timbres familiares. As temáticas também o são, embora pareçam se equilibrar melhor entre o dramático e a necessária frieza do homem do campo, em comparação com as modas caipiras tão presentes em minha história. O sotaque é um bálsamo para meus ouvidos, sendo compreensível que tantos colegas do Sudeste, ao se mudarem para o Sul, tenham se apropriado tão rapidamente do “bah”, do “tu” e do “mãssss”. Não, como disse, a questão é realmente léxica!

Hoje em dia, é fácil encontrar o significado de palavras como “guaiaca”, que ouvi pela primeira vez ao escutar “Herdeiro Da Pampa Pobre”, do Gaúcho da Fronteira. Mas, à época, precisei contar com a explicação de um pai bem vivido e bem informado.

“Guaiaca”, por sinal, reaparece na canção de hoje, “Guri”, dos compositores João Batista Machado e Julio Machado, ambos de Uruguaiana. O próprio Gaúcho da Fronteira – que gravou a canção em 30 anos de sucesso (2007) – é uruguaio, mas vamos dar um desconto a esse incrível personagem, considerando que ele é naturalizado brasileiro (já que o blog é dedicado exclusivamente a canções nacionais, e de artistas aqui nascidos). Batizado Heber Artigas Armua Frós, Gaúcho se criou em Sant’Ana do Livramento, também na fronteira com o Uruguai, mas a cerca de 200 km de Uruguaiana. Em “Guri”, é mencionada outra cidade desse extremo Sul: Alegrete, do famoso “Canto Alegretense”.

Tanto “Guri” quando “Canto Alegretense” tocaram bastante em casa, por conta de uma aquisição de 2010: o instrumental Clássicos gaúchos ao violão (2003), de Marcello Caminha. O violonista é natural de Bagé, outra cidade próxima à fronteira com o Uruguai. Uruguaiana, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Bagé, Pelotas… será que ainda terei a oportunidade de conhecê-las?

“Guri”, nessa versão de Caminha, me comovia especialmente, sem que eu soubesse o porquê:

Essa comoção me atirou direto para a gravação do Gaúcho da Fronteira, que tem um atrativo: a participação de Chitãozinho & Xororó. Se eu já me emocionava com a versão instrumental, esse registro acabou por me certificar de que “Guri” deveria ser mesmo uma de minhas canções gaúchas favoritas. A interpretação vocal da dupla sertaneja, aliada ao canto firme do Gaúcho, tornam ainda mais emocionantes versos como “Hei de ter uma tabuada e o meu livro ‘Queres Ler’ / Vou aprender a fazer contas e algum bilhete escrever / Pra que a filha do seu Bento saiba que ela é meu bem querer / E se não for por escrito eu não me animo a dizer”.

A propósito, a letra (integralmente reproduzida na epígrafe do post) traz o próprio guri do título como o eu-lírico, prenhe de /querer/. Toda criança, em algum momento, já pensou no “quando eu crescer”. Aqui, nosso pequeno gauchinho vai além, desejando toda sorte de apetrechos e de predicados que o habilitem a ser um adulto em miniatura, agora, já. Tudo isso para emular os passos do pai.

gaucho-da-fronteira-chitaozinho-xororo.jpg
Gaúcho da Fronteira, com Chitãozinho & Xororó: celebrando o amor entre pais e filhos (ou melhor, entre gerações) no Sul do país.

Meu enternecimento com “Guri” ganhou um sentido novo, assim, quando conheci a letra da canção. Pois lembro que, quando pequeno, sempre quis ser igual a meu pai: queria andar de bicicleta como ele (✓), ser bem humorado como ele (✓), desenhar como ele (✕), jogar futebol como ele (✕), ser caprichoso e ter sua habilidade com as coisas manuais (✕ – mas aí tenho desculpa: sou canhoto)…

Hoje sei que ele sente orgulho do filho que tem, assim como sinto gratidão pelo pai que recebi. Mas, às vezes, me vêm essas bobagens à cabeça: será que não deixei a desejar? Será que meu velho não gostaria que eu fosse como o guri da canção, “igualzito ao pai”? É lógico que não, mas a tradição patriarcal brasileira, somada ao ambiente do interior, faz parecer natural que muitos guris, por aí, não vejam escolha senão reproduzir tradições já bem antigas, jamais se desvencilhando da sombra do pai, a qual adquire um ar opressor.

De toda forma, hoje percebo que 30 e poucos anos de convivência com meu pai passaram voando, e que provavelmente não terei muito mais que outros 30 anos com meu amado genitor. Percepção que me coloca, novamente, na pele do guri cantado pelo Gaúcho da Fronteira: cheio de vontade de aprender o que não aprendi, e de ter o que ainda não tenho, para chegar um pouco mais perto de ser como aquele que abdicou de muita coisa para me criar.

(“E o meu medo maior é o espelho se quebrar…”)

5 comentários

  1. Ah..estava curiosa para saber se você colocaria alguma música gauchesca nesse repertório de posts. Até imaginei se a homenagem não seria para “Os Serranos” ou para “Oswaldir e Carlos Magrão”. A escolha foi ótima! Esta música é bem bonita e eu gosto bastante do Gaúcho da Fronteira. Acho interessante a presença tão forte e imponente que ele tem, porém com uma expressão facial muito suave, amigável, diria até de certa doçura.

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    1. De certa forma, trouxemos vários gaúchos para o blog – Adriana Calcanhotto, Elis Regina, Engenheiros do Hawaii, Nei Lisboa – mas realmente faltava um som dito “regional” do pampa.

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  2. Infelizmente não consegui me identificar,eu sempre tive problemas muito sérios com a figura do meu pai… E da minha mãe.

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  3. Há uma pequena diferença entre a letra acima e a letra original. Conheci pessoalmente o sr. João Batista Machado nos idos dos anos 90, que me mostrou a letra e fotos de jornais da época da premiação, a calhandra de ouro na Califórnia da Canção Nativa, festival de grande relevância que ocorria na cidade de Uruguaiana. Em minha ignorância de rapaz da cidade, perguntei-lhe qual o significado de “petiço sogueiro” (e não “soleiro” como escrito na letra acima).

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    1. Muito legal a estória! Que bacana você ter conhecido o Machado. Fiquei curioso pra saber como ele respondeu sua questão.
      Quanto a mim, como digo no post, tenho “Guri” apenas no disco instrumental do Caminha, que não traz letras no encarte. A letra da epígrafe foi buscada na internet e, possivelmente, deve ter mais erros além do “soleiro”. Que fica a impressão de que o próprio Gaúcho canta assim, ah se fica… Mas dá pra acomodar as duas coisas: se o petiço sogueiro é um cavalinho manso, o soleiro é aquele que está sempre disposto a gastar a sola dos cascos!
      Achei também uma matéria do ZH muito bacana, em que os irmãos Machado comentam sua canção. Vem com glossário e tudo:

      Clique para acessar o 17643787.pdf

      Grato pelo comentário.

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