84. Eduardo Gudin: “Mente”

Mente, ainda é uma saida
É uma hipótese de vida
Mente, quando diz que me ama
Mente, espalha essa fama
Me chama de meu amor constantemente
No meio de toda gente a sos entre nós dois
Mente


Sim, São Paulo também faz samba. E é uma pena que nós, paulistas, conheçamos tão pouco do que nossos sambistas produziram e produzem, materiais de excelente qualidade artística e importância histórica.

Voltando ao samba no blog, a canção de hoje é “Mente”, parceria de dois grandes compositores brasileiros, e apaixonados por São Paulo: Eduardo Gudin e o saudoso Paulo Vanzolini.

A canção, presente em Coração marginal (1978), de Gudin, é organizada a partir de uma súplica: “Mente”. Imperativo que percorre praticamente todos os versos, representa o eu-lírico investindo num último possível antídoto (“uma hipótese de vida” – expressão que soa natural, vinda do cientista Vanzolini, um dos mais renomados nomes da zoologia brasileira) para uma relação que se avizinha à dissolução. O pedido representa o esgotamento de todas as forças do sujeito, uma última esperança antes de entregar os pontos: mente que me ama, “Pois na mentira, meu amor, / Crer eu não creio / Só pretendo que de tanto mentir / Repetir que me ama / Você mesmo acabe crendo”.

Sônia Marrach, em Música e universidade na cidade de São Paulo (Unesp, 2011), explica o poder das composições de Vanzolini, que Gudin sabe aproveitar tão bem:

O que singulariza Vanzolini no panorama da música popular brasileira é que seu pensamento musical é organizado pela contradição, como apontou Antonio Candido […]. Parece que, para Vanzolini, o caráter essencial da vida em seus diversos aspectos é o movimento, a mudança, advinda da negação e dos conflitos transformadores das coisas objetivas e subjetivas (p. 59).

Além do fragmento acima, que traz as chaves interpretativas para “Mente” (que, aliás, é tão explícita que as dispensa), reproduzo um outro, que traz o ponto de vista do próprio Gudin sobre o parceiro:

Compondo entre as décadas de 1940 e 1990, Paulo Vanzolini passou pela bossa nova, que foi o divisor de águas da música popular brasileira, revolucionando o canto, a harmonia, a música, a letra, a batida de violão. E passou também por outros movimentos musicais, sem se deixar levar. Manteve-se firme no samba de raiz, samba tradicional, o sambão e o samba-canção, com violão, flauta e cavaquinho, muita vitalidade, humor e ironia. Enquanto a bossa nova privilegia a harmonia e os acordes dissonantes, nas canções de Vanzolini prevalece a melodia, nas quais Eduardo Gudin vê influência de Ataulfo Alves. Porém, concorda que Vanzolini tem uma organização melódica muito própria, sofisticada e simples ao mesmo tempo, de causar inveja em qualquer compositor. […] Seus sambas têm uma movimentação rítmica sincopada com alta dose de energia. Neles prevalecem os acordes básicos combinados com o uso de acordes alterados e novas modulações de meio-tom de uma beleza singular. Tudo isso combinado com larga utilização do baixo, lembrando os bordões do violão de Cartola, além do violão de sete cordas, citando o choro (p. 66).

Todos esses elementos estão presentes na gravação de Gudin, que traz participações luxuosíssimas: Dino 7 Cordas, o também falecido Wilson das Neves na bateria e os sempre precisos vocais do MPB-4.

eduardo-gudin.jpg
Eduardo Gudin: em parceria com Paulo Vanzolini, imortalizou grandes sambas paulistas.

Em seu primeiro DVD, lançado pelo selo Sesc – 3 tempos (2012) –, Eduardo Gudin está acompanhando do conjunto Notícias dum Brasil (reunido em suas diversas formações) e registra um depoimento sobre o processo de composição de “Mente” merecedor de ser ouvido, dispensando maiores comentários de minha parte:


“Mente” reaparece no clássico Guerreira, de Clara Nunes, lançado no mesmo ano da gravação do próprio Gudin. O registro de Clara é mais conhecido, diria até definitivo. Dino 7 Cordas também está aí:

Em 2002, a Biscoito Fino organizou a caixa Acerto de contas, com quatro volumes de CDs que trazem diversos intérpretes dando vida ao cancioneiro de Vanzolini. Quem defende “Mente” é Cristina Buarque, irmã de Chico Buarque. O próprio Eduardo Gudin participa, ao violão, dessa melancólica releitura:

Mais tarde, Leila Pinheiro gravou com Gudin o álbum Pra iluminar – ao vivo (2009). Lá está “Mente”, novamente:

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