85. Alceu Valença: “Solidão”

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão é fera,
É amiga das horas,
É prima-irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração.


Como já disse antes (aqui e aqui), costumava passar algumas madrugadas de 1998 escutando rádio. Foi uma experiência importante para minha formação musical, apesar de extremamente fortuita, graças a uma insônia adolescente, numa época em que sequer sonhávamos com acesso à internet ou a outras distrações eletrônicas que poderiam mitigar o problema.

Nessas audições noturnas, sob o frio da madrugada, vivia me deparando com a canção de hoje, “Solidão”, de Alceu Valença. Sustentou-se, por muitos anos, como a minha favorita do cantor e compositor pernambucano, adquirindo um vigor novo, em meu gosto musical, a partir da experiência de escutá-la ao vivo na semana passada. Que delírio!

“Solidão” é uma das faixas de Mágico, álbum de 1984. No tom de Mi Maior, a canção se desenvolve próxima do modalismo, cedendo a cada fim de verso ao acorde de Fá Sustenido Menor, que traz uma sensação de movimento, mas um movimento pesado, grave, como a pisada de um elefante. O que é complementado pelo ritmo arrastado da faixa, notando-se uma sutil influência do slow-blues. A letra, modalizada pelo /ser/, é quase totalmente descritiva, exceto nos versos “E faz nossos relógios caminharem lentos / Causando um descompasso no meu coração”. É justamente aí que temos um achado harmônico da maior importância: o emprego do Si Menor, no lugar do Fá Sustenido Menor, soando como uma rachadura na armadura harmônica do tom da canção. Com esse acorde, o senso de lentidão e gravidade se aprofunda, provocando a experiência tangível da desaceleração fórica. Se você já assistiu a Alceu cantar “Solidão” ao vivo, sabe do que estou falando: é o momento em que simplesmente a canção desaba sobre nós, exatamente como nos sentimos quando a solidão nos visita.

Acho incrível como Alceu consegue costurar os elementos harmônico-melódicos e líricos usando tão poucos recursos. Destaque também para as guitarras de Paulo Rafael, que criam um clima etéreo e quase sombrio no solo, como se estivessem estendendo o assovio da introdução.

alceu-valenca.jpeg
Alceu Valença: compondo canções que atenuaram a solidão de muita gente.

Em Ao vivo em todos os sentidos (2003), Alceu traz uma bela releitura desse clássico, praticamente como um medley com a também essencial “Na Primeira Manhã”. O tom sobe um pouquinho, para Sol Maior. O público participa ativamente da canção, aqui, menos blues e mais xote:

Na onda de discos acústicos de fins dos anos 1990, Alceu também gravou o seu, mas em estúdio: Sol e chuva (1997). Ali, consta um registro belo e delicado de “Solidão”, sem instrumentos percussivos:

Em 2017, o cantor Gonzaga Leal, também de Pernambuco, gravou o álbum Porcelana, junto da cantora Alaíde Costa. “Solidão” integrou o repertório, com citações ao arranjo original, entre ousadias harmônicas e instrumentais. No disco, ela é cantada apenas por Gonzaga. Que lindo registro! Ouça:

1 comentário

  1. Linda canção,parece que poucas pessoas regravaram.Quanto ao Alceu Valença ao vivo,nunca vi,mas dizem que é muito bom.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s