86. Marina Lima: “Noite E Dia”

Nos lençóis da cama, bela manhã
No jeito de acordar
A pele branca, gata garota
No peito a ronronar
Seu fingir dormindo, lindo
Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você esta me convidando
Menina quer brincar


Os caminhos da feitura da canção popular podem ser tortuosos, imprevisíveis, com bifurcações que fazem uma única ideia se multiplicar ou, pelo contrário, confluências que unem numa mesma obra elementos (acordes, frases melódicas, versos) que jaziam fragmentados em velhos cadernos.

A canção de hoje, “Noite E Dia”, é um típico exemplo do primeiro esquema, o da bifurcação. Composta por Lobão e Júlio Barroso, a canção tem uma origem pitoresca, contada por Ismael Canepelle em A vida louca da MPB (Leya, 2015):

Certo dia, Júlio procura Lobão para dizer que está louco por duas mulheres e que precisa da sua ajuda para fazer uma canção de amor para elas. O amigo revela também estar apaixonado, mas por duas garotas ao mesmo tempo. Júlio, então, pergunta quem são elas, e Lobão conta que uma é a cantora Marina Lima. Júlio ri da coincidência, pois Marina era exatamente a garota que o tirava do sério, mas se surpreende ainda mais com a revelação de que a outra paixão do amigo é Alice Pink Pank, justamente com quem ele mais sonha estar, depois da famosa roqueira. A saia justa poderia acabar em briga, mas, desse enredo real, nasce uma parceria, a belíssima “Noite e dia”, lançada por uma das musas, Marina Lima.

O que não consta nesse depoimento é a origem da melodia de “Noite E Dia”. Entre 2010 e 2013, fui a três shows do Lobão e, num deles (qual?), o cantor contou que a canção aproveitou uma linha melódica composta para o verso “Nem sempre se vê mágica no absurdo”. “Noite E Dia”, com a parceria com Júlio, foi concluída sem a inclusão do verso, que foi a semente para outra canção: “Me Chama”.

marina-lima.jpg
Marina Lima: um timbre único que encantou Lobão e Júlio Barroso.

“Noite E Dia” foi lançada por Marina em 1982, em Desta vida, desta arte…, sendo regravada no disco de estreia da Gang 90 & Absurdettes:

Esse registro traz uma bela introdução, com um riff de guitarra que se tornaria marcante. Na instrumentação, destaco a presença de dois músicos: Guilherme Arantes, nos teclados; e Tavinho Fialho, no baixo (que, anos depois, se tornaria o pai do único filho de Cássia Eller, falecendo tragicamente num acidente de carro, pouco antes do nascimento do garoto).

Em 1986, seria a vez do primeiro registro do próprio Lobão, em O rock errou:

Percebe-se que o arranjo, aí, remete à gravação de Lobão para “Me Chama”. E, ainda em 1986, Marina trataria de unir as duas canções em um medley, na releitura presente em Todas ao vivo:

A interpretação da cantora carioca é, aqui, mais intensa. O andamento também é levemente mais acelerado, tornando mais urgentes (e mais irresistíveis) os convites de uma (“Você está me convidando / Menina quer brincar de amar”) e as súplicas de outra (“Me chama! Me chama! Me chama!”) canção. “Noite E Dia” serve, nesse registro, como uma espécie de prólogo a “Me Chama” – lançada em 1984 por Marina, em Fullgás, e por Lobão em Ronaldo foi pra guerra. Nessa versão de 1986, Marina abandona seu próprio arranjo para “Me Chama” (exceto pela forma como os versos iniciais são encaixados nos compassos melódicos), cantando o refrão da forma como Lobão o registrara.

A partir daí, os caminhos das duas canções estariam para sempre entrelaçados, sendo curioso como, de fato, duas paralelas podem vir a se encontrar. Digo isso porque Lobão, em 2001, novamente registrou as canções como um medley, em 2001: uma odisséia no universo paralelo. Pra mim, é a versão definitiva – e para ambas as canções: 

Mas tenho uma estória pessoal e trágica para contar sobre essa gravação: ela foi a última canção que havia escutado antes de sofrer um grave atropelamento, em 2002, em que quase fui para o beleléu. Por sorte, apenas quebrei a clavícula e ganhei um belo galo, mas minha bicicleta sofreu a famosa “perda total”. Por conta disso, fiquei anos sem conseguir escutar não apenas o medley “Noite E Dia/Me Chama”, mas o álbum inteiro do velho lobo.

Novamente, eis-me fazendo as pazes com a(s) canção(ões).


Não deixe de escutar, também, a bela releitura presente no Acústico MTV (2007) de Lobão:

4 comentários

  1. Spoiler Lobão Alert!

    Nao sabia q tinha reserva de vaga pra direita haha

    Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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    1. Aqui é um blog sem partido! Mas falando mais seriamente, inclusive já travamos essa discussão, e mantenho aquele meu ponto de vista: a obra artística, em geral, transcende o posicionamento político de seu autor, até porque ela mesma é um produto social, quer dizer, sua autoria compreende um conjunto amplo de forças sociais. Polêmicas à parte, o cancioneiro de Lobão tem grande valor e, pessoalmente, sempre me afetou bastante.
      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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  2. É muita coincidência,mas pode ser verdade – Na minha ignorância musical,eu achava que a Marina Lima fosse cantora de MPB.

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