88. Charme Chulo: “Piada Cruel”

Várias coisas me atormentam quando tento entender os dilemas dessa vida
“Bate na porta, anda depressa que o velho não pode descobrir
O que você guardou p’ra mim
O que você guardou p’ra mim”
“Suspira baixinho, me mata meu amor
Nessa cama eu te amo com o meu pequenino coração”
Essa estória é muito velha
Eu acho que nunca vai mudar
Você sabe muito bem onde eu estou
E escute o que lhe falo, por favor
“Não reclame meu filho, poderia ser pior!”


Era dia 11 de outubro de 2009 e eu estava, mais uma vez, presente às apresentações musicais do Festival Contato, em São Carlos (como relatei anteriormente, era um frequentador assíduo de suas atrações). Verdadeiro exercício de abertura e de escuta paciente: apareciam, naqueles palcos, artistas desfilando canções próprias nos mais variados e imprevisíveis gêneros. É lógico que algumas apresentações deixavam a incômoda sensação de “mas o que foi isso?” ou “não entendi direito”, pois os sons ditos alternativos realmente desafiam nossos pré-conceitos.

Por outro lado, apareciam também, entre uma banda indie e outra, conjuntos com grande vocação radiofônica, e capazes de conquistar à primeira audição. Quando penso nesses casos, me vem imediatamente à cabeça o Charme Chulo, que tocou naquele domingo.

A banda curitibana subiu ao palco anunciada como “uma mistura de Tião Carreiro e Legião Urbana”. Assisti ao show inteiro ao lado de meu amigo Bruno Carreira Batista (por onde anda?), um cara que, além de ostentar um dos intelectos mais brilhantes que já conheci, é também todo gentileza e coração – uma espécie de unanimidade em nossa turma de amigos. Brunão riu-se da forma como o conjunto foi apresentado, mirando-me obliquamente de forma cúmplice.

Quando o som começou a tocar percebi, primeiro, que a descrição era bastante precisa e, mais tarde, que também era bem limitada. Na verdade, para além de Legião, com sua vocação folk, o conjunto me remetia principalmente ao The Smiths (a banda de Manchester sempre tratada como a principal influência de Renato Russo que, mesmo admirando Morrissey e companhia, rechaçava as comparações), mas também a outros sons: algo de outras bandas do pós-punk inglês, o Franz Ferdinand e, em alguns momentos, os sons guitarreiros das bandas de Nova Iorque dos anos 2000, como o Interpol e, principalmente, o The Strokes.

O que mais interessou a mim e ao rioclarense Brunão, obviamente, era o teor rural do som, graças à inusitada formação do conjunto: Leandro Delmonico, de forma versátil e orgânica, substituía a guitarra elétrica pela viola caipira – ou as conjugava – em algumas canções. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Além de tudo isso, o vocalista Igor Filus chamava muito a atenção, com danças performáticas que novamente conduziam eu meu amigo a um riso alegre e encantado.

charme-chulo.jpg
Charme Chulo: entre o rock e o caipira, composições originais que poderiam emplacar em qualquer FM.

À época, a banda já trazia na bagagem um EP (Você sabe muito bem onde eu estou, 2004) e dois álbuns, Chame chulo (2007) e o adequadamente intitulado Nova onda caipira (2009). Confesso que foi o primeiro disco aquele que me fisgou, que traz uma versão repaginada para “Piada Cruel”, lançada no EP, e aqui tematizada.

A canção começa com um revezamento de acordes inusitados: G7-G6 e Bm. O tom é um confortável Sol Maior, mas a harmonia guarda algumas surpresas, ao menos no território do rock: Cmaj7, C7/9 e um inesperado Cm no verso “E escute o que eu lhe falo, por favor”. O pulso é acelerado e remete à batida de “This Charming Man” – aliás, me pergunto se o clássico de Morrissey e Marr teria alguma relação com os versos da icônica “Barretos”, que intitula o conjunto (“Sendo charme ou chulo, é sempre charme”), sendo esta também bastante smithiana.

A letra só é compreendida se lida com as devidas aspas, estando integralmente exposta na epígrafe do post. Penso que há pelo menos três personagens envolvidos na piada cruel do título: a voz da canção, a mulher desejada (com a qual a conjunção amorosa só é possível de forma clandestina) e um certo velho, que aconselha o enunciador a não se atormentar tanto diante de seus dilemas.

“Piada Cruel” é toda guitarras, sem os sons de viola de Leandro Delmonico, mas tem caipirice de sobra com o acréscimo de sua gaita de boca e dos vocais em falsete (mais um elemento que remete a Morrissey) da cantora sertaneja paranaense Margareth Makiolke, dando voz à personagem feminina.

Não se engane pelo meu texto: como disse lá atrás, apesar de todas as menções aos Smiths, as influências do Charme Chulo são muitas e seu disco de estreia traz pérolas além de “Piada Cruel”. A batida acelerada (e violada) da faixa de abertura “Mazzaropi Incriminado” será um convite irresistível para que você explore outros sons do álbum, como a complexa “A Caminho Das Luzes Essa Noite”, “Polaca Azeda” (que abre com um pagode à Tião Carreiro & Pardinho), a balada sertaneja “Amor De Boteco”, a pós-punk “Apaixonante Na Tristeza” e a bela “Geada No Seu Coração”. Aliás, você pode baixar a discografia do conjunto aqui.

Confira também a primeira versão de “Piada Cruel”, que abre o EP de 2004:

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