89. João Bosco: “Galos De Briga”

Cristas de incêndio crispadas
Cristas do fogo de espadas
Cristas de luz suicida
Lúcidas de sangue e futuro
Cristas crismadas em rubro
Não rubro rosa assustada
De rosa estufa, canteiro
Mas rubro vinho, maduro


Aprendi com o blog do Leonardo Davino – o 365 Canções, de 2010, que serviu como inspiração ao projeto deste ano – que nem sempre nossas interpretações são suficientes para desvelar o que se esconde numa obra artística. O próprio Davino me alertou para algo que acontecia frequentemente naquele seu espaço virtual: os comentadores sabichões que apareciam, apenas, para desautorizar as leituras do blogueiro, prostrando-se como os donos da verdade. Eu mesmo, comentando alguns dos posts dele, temo ter feito algo nessa direção.

Outro blogueiro amigo, outro Leo também, o Nogueira de O X do Poema, me ensinou uma lição (que só um compositor como ele poderia ensinar) replicando um comentário meu em seu blog, que refletiu sobre as intenções ocultas dos cancionistas:

grande parte das canções, sejam famosas ou não, traz em si uma intenção sobre a qual só saberemos caso o autor (ou alguém ligado a ele) nos informe. Um dos exemplos mais contundentes […] é “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, canção que Roberto compôs (em parceria com Erasmo, não esqueçamos) e gravou e que durante anos escapou da censura por todos acharem tratar-se de mais um tema romântico do Rei, quando na verdade havia sido feita pra Caetano, que só veio a revelar ser seu “muso” anos depois, quando ele próprio a gravou. Canções, em geral, quão mais complexas são mais ganham análises diferentes, algumas contrastantes entre si, e das mais variadas pessoas. E isso também ajuda um pouco no dom de encantar (iludir?) que as canções costumam ter.

Assim sendo, quando ocorrem as convergências interpretativas – isto é, quando nossa própria visão sobre uma obra se coaduna com demais leituras, e mesmo com as intenções do próprio artista, explicitadas em alguma declaração midiática -, trata-se de um evento raro que precisa ser celebrado.


É nesse sentido que proponho o post de hoje, sobre “Galos De Briga”, presente no disco de mesmo nome de João Bosco e composta com o parceiro Aldir Blanc. Pois a canção, para mim, sempre revestida em mistério, subitamente me soou clara e transparente. “Galos De Briga” inicia com os enigmáticos versos: “Cristas de incêndio crispadas / Cristas do fogo de espadas / Cristas de luz suicida / Lúcidas de sangue e futuro”. Conseguir alcançar o sentido proposto por tais aliterações parecia uma realização muito além de minhas capacidades intelectuais. Cheguei a pensar, por muito tempo, que a canção não buscava mesmo “significar”, quer dizer, aliar significantes a significados, sendo um mero exercício de poesia simbolista, com sua predileção por imagens vagas e jogos sonoros.

Porém, basta contextualizar Galos de briga no período em que o disco foi lançado; basta lembrar que Aldir Blanc sempre foi um letrista de veia politizada; por fim, basta observar a chamativa capa do álbum, com sua impressionante colagem de imagens rubras (obra do artista Glauco Rodrigues); enfim, basta ir um pouco além do que a canção, ela mesma, propõe, para se alcançar facilmente suas chaves interpretativas.

galos de briga

Sim senhores, “Galos De Briga” é uma combativa canção militante, subsersiva, literalmente vermelha. O Clyblog traz um excelente texto sobre o álbum, e que assim o descreve, sintetizando minhas palavras acima:

uma obra que é tapa contundente na cara do regime em mensagens inteligentes aos milicos e aos mantenedores do sistema. Com crítica social, combatividade e um posicionamento de esquerda visível, o álbum só podia ter este título, uma vez que, como animais de rinha, eles vão para o enfrentamento com as armas que têm: os sons e a palavra.

Especificamente sobre a canção-título, o mesmo texto faz uma leitura convergente com minha própria – após a epifania de ter decodificado a truncada mensagem dos cancionistas – sobre os versos Não o rubrancor da vergonha / Mas os rubros de ataduras / O rubro das brigas duras / Dos galos de fogo puro / Rubro gengivas de ódio / Antes das manchas do muro”: “Sim, não é coincidência que a imagem das pichações com palavras de ordem contra a ditadura venha à cabeça”. (Não deixe de ler o texto completo, que é magnífico. Recomendo também a leitura de um post num outro blog, A Mil por Hora, sobre o mesmo álbum).

Mas nada como ouvir o próprio cancionista falar… e segue a transcrição de uma incrível entrevista de João Bosco para Charles Gavin no projeto O Som do Vinil:

Vamos falar então no Galos de Briga. Por que que o disco chama Galos de Briga?

O Aldir tinha feito um poema, chamado “Galos de briga”. E era um poema belíssimo. E eu ficava olhando aquele poema e ele falava dos galos, das cristas, crispadas. Falava do rubrancor da vergonha, fala do rubro das ataduras, fala dos galos de fogo puro… E falava das gengivas de ódio antes das manchas no muro. Porque nessa época era uma época difícil. Era a época, nós vivíamos aqui na América do Sul problemas políticos violentos. Então nós tínhamos a ditadura militar aqui no Brasil, mas enfim, toda o nosso continente aqui estava vivendo problemas muito semelhantes. Então eu acho que esse poema, ele pega isso tudo. E fala das pessoas que têm a cor rubra da coragem, sabe como é que é? E esse poema eu ficava olhando. Aí eu acabei musicando esse poema. E quando eu musiquei esse poema, que o Aldir viu esse poema, aí ele descobriu que de repente no disco que a gente estava fazendo ali, compondo as canções, ele achava que esse poema ganhava uma presença muito importante no meio daquele repertório. Como uma ideia, como uma coisa da nossa vontade aguerrida de fazer a música, de batalhar por ela e tudo. Aí ele achou que devia ser Galos de briga. Vem desse poema.

Interessante. Está esclarecida a história, porque muita gente acha que os galos de briga são você e o Aldir. Dois galos de briga!

Pode ser. No fundo eu acho que é isso aí, né? A gente não seria… Não sei seria muito cabotino da minha parte não reconhecer isso. Acho que isso aí tem que ser reconhecido pelos outros. Mas eu acho que é um poema que diz isso.

“Galos De Briga” é tudo isso: uma canção sobre o combate necessário, a coragem de se engalfinhar com o inimigo, seja na busca por cravar os batoques em sua carne, seja na esfera simbólica em que se luta com ideias.

joao-bosco.jpg
João Bosco: o cantor-violonista que deu voz às grandes composições do combativo Aldir Blanc.

Proposta como um fado, a obra se inicia com uma estridente melodia ao violão (emulando bandolins portugueses), como que estabelecendo o cenário em que, primeiro, os gladiadores apenas se encaram e se movimentam pelo ringue, depois, atingindo tons mais dramáticos e tensos, quando o fado parece se converter numa espécie de milonga e os versos são cantados em partes mais elevadas da tessitura.

Não é à toa que a canção intitula o álbum que a contém, que é um dos grandes clássicos da produção musical brasileira. Fruto da sinergia atemporal de João Bosco e Aldir Blanc, merece uma escuta atenciosa (e frequente), pois traz outras faixas imprescindíveis, como “Incompatibilidade De Gênios”, “O Cavaleiro E Os Moinhos” (que já ambicionei trazer ao blog), “O Ronco Da Cuíca” e a espantosa “Rancho Da Goiabada”.

Necessário, mais do que nunca!

4 comentários

  1. Um dos melhores posts,adorei.Bosco e Blanc é minha dupla de compositores favorita,principalmente na voz de Elis Regina.

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