90. Ivan Lins: “Camaleão”

Sou um camaleão
Tô aqui, mas não tô
Do arco-íris furtei a cor
Moro em constelação
Sumo a cada manhã
Da festança que deu Tupã
Dança cauda terçã
Braço de cortesã
Esmeralda e oi que azulou
Tive um amor assim
Juras que só a mim
Mas viu outro e mudou de cor


Os camaleões são répteis da família Chamaeleonidae, ordem Squamata (a que contém lagartos e cobras). São conhecidos por suas características morfológicas altamente especializadas: patas e caudas longas, olhos com movimentos independentes, língua adaptada para a captura a longas distâncias e, principalmente, a habilidade de mudar de cor. Embora algumas espécies se valham desse artifício com fins de camuflagem, o mecanismo é utilizado, principalmente, para a corte.

A canção de hoje é, justamente, “Camaleão”, de Ivan Lins, Vitor Martins e o letrista Aldir Blanc. Escutei-a, pela primeira vez, na versão em que foi lançada, presente no disco epônimo do Batacotô, lançado em 1993. O Batacotô era um conjunto composto por muitos músicos, e se dedicava a explorar os ritmos brasileiros com origem africana, apresentando um som elaborado, classudo, encorpado.

Esse primeiro álbum, Batacotô, saiu pela gravadora Velas, idealizada pelos próprios Ivan Lins e Vitor Martins, mais o produtor Paulinho Albuquerque. O tecladista carioca participa da obra cantando duas canções: a que tematizamos hoje, em dueto com a cantora estadunidense Dionne Warwick; e “Confins”, dos mesmos autores e famosa por ser tema da novela global Renascer (1993).

“camaleão”, ali, aparece numa versão muito bonita, que inicia com vocalises de Ivan, até a entrada do lindo timbre grave de Dionne, cantando em inglês:

A letra, integralmente reproduzida na epigrafe do post, se vale do caráter icônico do camaleão, que serve como metáfora para aquilo que é fugidio, capaz de se ausentar (aparentemente) sem que ninguém perceba. A voz que canta se descreve como essa presença-ausente, para depois confessar que já teve aos braços alguém com os mesmos predicados, que “viu outro e mudou de cor”. Provou do mesmo veneno.

A versão de Ivan Lins, registrada em Anjo de mim (1995), é também bastante elaborada em termos instrumentais, iniciando com uma batida de percussão corporal, explorando sons da boca. As guitarras (e o arranjo) são de Mário Manga, lendário componente do conjunto Premeditando o Breque. Além disso, a faixa possui um luxuosíssimo naipe de metais, o que lhe confere um tom jazzy. Como um camaleão e sua habilidade em furtar a cor (belíssima construção poética de Aldir Blanc!), a canção é praticamente indefinível, em termos de gênero: é bossa? É samba? Xote (note o sutil triângulo que atravessa algumas de suas passagens)?

Sobre a letra, ainda chamo a atenção para as rimas, que também variam como variam as cores do réptil: rimas perfeitas pobres (camaleão/constelação e manhã/Tupã/cortesã, com exceção do adjetivo terçã), rimas assoantes (tô/cor/azulou) e as clássicas assim/mim.

Uma canção simples mas que, com economia de recursos, alegra e emociona.

ivan-lins.jpg
Ivan Lins: as teclas e a voz para grandes obras do cancioneiro nacional.

Existe uma bela versão em italiano, no disco InventaRio encontra Ivan Lins (2014), do grupo InventaRio. Nela, com uma sonoridade ainda mais jazzística que a versão de Anjo de mim, canta não apenas o próprio Ivan, mas também a cantora paulistana Maria Gadú:

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s