91. Vanusa: “Paralelas”

Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor


A cantora paulista Vanusa lançou, em 1975, o álbum Amigos novos e antigos, cuja faixa de abertura é “Paralelas”, de um certo Antônio Carlos Belchior. Rapidamente, a canção se tornaria um dos grandes sucessos da artista, colocando a bela letra do cantor cearense na boca do povo. Portanto, engana-se quem pensa que foi Elis Regina quem pavimentou o caminho do jovem Bel, com Falso brilhante (1976), que trazia os clássicos “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” – lançadas, no mesmo ano, no incrível álbum do próprio compositor, Alucinação.

A interpretação de Vanusa é primorosa. Do começo plácido, seu canto logo se desenvolve para as regiões mais altas da tessitura, atingindo o ápice nos versos “No apartamento, oitavo andar / Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa / Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu”. Curiosamente, “Alucinação”, do disco de 1976, também menciona um apartamento no oitavo andar, dessa vez, de onde cai um corpo.

Penso que a canção reproduz o diálogo entre dois ex-amantes: o primeiro personagem é aquele que dirige a cem por hora, passando por praças e viadutos e, depois, o Corcovado. O segundo personagem observa, do apartamento, a pessoa (des)amada partir: “E as paralelas dos pneus n’água das ruas / São duas estradas nuas / Em que foges do que é teu”.

Uma hipótese interessante – e trágica – é considerar que este segundo sujeito, em sua desesperada atitude de observar a inevitável ruptura, acaba por se atirar do prédio, daí o corpo que cai do oitavo andar em “Alucinação”. Afinal, o personagem já demonstrara um claro sinal de desequilíbrio ao gritar pela janela do apartamento: “Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa / Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu”.

De qualquer forma, a metáfora das paralelas, que se encontram apenas no infinito, é perfeita para ilustrar uma disjunção irreversível – o que, por si só, já é trágico o suficiente. Nesse sentido, canto belíssimo de Vanusa conseguiu captar perfeitamente os estados de resignação desesperada, de um personagem, e de desespero resignado, do outro.

vanusa.jpg
Vanusa: dona da voz que lançou Belchior ao estrelato, com sua interpretação irrepreensível de “Paralelas”.

Um ano depois que Vanusa lançou Amigos novos e antigos, Erasmo Carlos apareceu com o álbum Banda dos contentes. Ali, temos novamente “Paralelas”, com um incrível arranjo bluseiro e uma sonoridade setentista irresistível – embora o desempenho vocal de Vanusa seja infinitamente superior:

Em 1977, Belchior finalmente gravou a própria canção, no álbum Coração selvagem. O arranjo, agora, é minimalista, apoiado numa etérea cama de teclados:

O Tremendão, quando da morte do amigo Belchior, divulgou a informação de que os versos “E as borboletas do que fui pousam demais / Por entre as flores do asfalto em que tu vais” foram compostos exclusivamente para sua gravação – já que, em Coração selvagem, eles são alterados para “Como é perversa a juventude do meu coração / Que só entende o que é cruel, o que é paixão”. Mas a informação não procede, ao menos em parte, já que o registro de Vanusa já trazia os versos sobre as borboletas.

Acredito que a alteração da letra, na versão do próprio Bel, serviu para delimitar de forma mais clara as falas de um e de outro personagem. Quem fala sobre “a juventude do meu coração” ainda é o primeiro sujeito; já quem fala das borboletas é o segundo. Com a alteração, fica claro que o personagem que inicia cantando encerrará sua fala antes da ponte instrumental, que serve como um travessão para autorizar o discurso do personagem observador (no apartamento). Graficamente, teríamos a seguinte situação, usando cores para demarcar as falas de cada herói:

pré-1977 pós-1977
Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor
Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar
No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
E as borboletas do que fui pousam demais
Por entre as flores do asfalto em que tu vais
E as paralelas dos pneus n’água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu
Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor
Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar
No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão

[ponte instrumental]

E as paralelas dos pneus n’água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

Mais tarde, “Paralelas” reapareceria em outros lançamentos de Belchior. A versão definitiva, para mim, é a acústica que aparece em Um concerto bárbaro (1995). Que interpretação intensa! Ouça:


Falemos agora de tributos prestados à obra de Belchior. Encontraremos, nesses discos, duas interpretações de “Paralelas”.

A primeira está em Belchior blues (2012), sendo defendida pela banda Blues Label, com participação vocal do cantor Cláudio Oliveira. De cearenses para cearenses… ouça:

Em 2014, o tributo Ainda somos os mesmos alinhou as faixas de Alucinação em releituras interessantes. Como bônus, o EP Entre o sonho e o som trouxe outros clássicos de Belchior, não presentes no álbum de 1976, mas também merecedores de novas releituras (acesse o tributo e o EP no portal Scream & Yell). “Paralelas” está lá, com uma comovente versão voz-e-violão do guitarrista João Erbetta:

E pra fechar, uma curiosidade: a versão em italiano “Parallèle”, da cantora Gigliola Cinquetti, presente no álbum Pensieri di donna (1978). Até onde sei, foi produzida com a assistência do próprio Belchior, que dominava perfeitamente o italiano (ao ponto de ter desejado traduzir A divina comédia para o português, projeto que infelizmente não teve tempo de concluir). Um registro muito bonito, no mínimo:

4 comentários

  1. A Vanusa nasceu pra cantar ”Paralelas”,e como cantava;pena que a cantora nunca teve o prestígio de uma Elis,Gal e Bethânia,a santíssima-trindade da MPB-setentista.

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