92. Fafá de Belém: “Naturalmente”

Ter nada, nada para ter
Ter cada estrada para andar
Andar em cada para ser
Ter cada é nada para dar
Ser gargalhada para rir
Ser a palavra para dar
Ser serenata para ouvir
Se ser é nada para amar


A língua portuguesa é um objeto complexo, multiforme, com meandros que escondem surpresas e revelam muito sobre o contexto de seus falantes. Caetano Veloso, em “Língua”, já declarara seu amor à última flor do Lácio, em versos sugestivos: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões / Gosto de ser e de estar / E quero me dedicar a criar confusões de prosódias / E uma profusão de paródias / Que encurtem dores / E furtem cores como camaleões”.

No Brasil, o português é realmente essa confusão de prosódias, em que as pronúncias de uma mesma palavra podem variar até o limite de incompreensão, pelas regiões desse país continental. E penso, também, que nossa língua é uma ilustre desconhecida de nós, falantes de suas variantes. Não sei o que especialistas em ensino de português pensam a respeito, mas acho que, num Brasil ideal, o ensino médio abordaria, além de gramática/redação/literatura, também a filologia.

Eu, pelo menos, gostaria muito de conhecer mais a respeito das influências africanas e indígenas, principalmente, em nosso léxico. Até porque – e excluindo-se as questões fonéticas e sintáticas – é no conjunto dessas palavras que reside boa parte das distinções (e incompreensões) entre o português brasileiro e o português de Portugal.

E cá entre nós, são palavras deliciosas de serem pronunciadas, não? Soa muito mais gostoso – diria até caloroso – dizer que os garotos estavam “saracoteando” ou “sassaricando” do que explicar que se remexiam pra lá e pra cá, de forma irrequieta. O “xingo” também tem usos interessantes: de origem banto, pode se referir a uma injúria, mas serve também para as situações de verborragia (“saiu xingando todo mundo!”) e, mais cotidianamente, para se referir às repreensões ou broncas (“ouviu uns xingos do chefe”). E que dizer da “bunda”?

Além desses termos que vieram da África, gosto muito de pronunciar as palavras indígenas – inventando, até, uma espécie de jogo a dois: ganha quem conseguir lembrar mais nomes geográficos com essa origem: Jabaquara (e Tucuruvi, portanto, vem de graça), Catanduva, Araraquara, Ubatuba, Ipiranga, Tupã, Piracicaba, Sorocaba, Cuiabá… O jogo pode ser adaptado para outros conjuntos de palavras, por exemplo, os nomes de peixes. Quem conhece “Canoa, Canoa”, com letra de Fernando Brant e gravada por Milton Nascimento, já larga em vantagem: “Dourado, arraia, grumatá / Piracará, pira-andirá / Jatuarana, taiabucu / Piracanjuba, peixe-mulher”.

Pois o mesmo Caetano, mencionado no início do post, também parece ter sacado a delícia que é pronunciar – e diria mais, criar aliterações – com o vocabulário que, em grande parte, descende do tronco tupinambá. Essa é uma das características da canção de hoje, “Naturalmente”.


Com letra do filho de Dona Canô sobre a batida funkeada de João Donato, “Naturalmente” é uma verdadeira homenagem a Belém do Pará e, por extensão, a todo o Norte do país. O refrão – se é possível falar em refrão, já que a canção é repleta de repetições que, numa cama harmônica quase modal, imerge o ouvinte numa espécie de transe ritual, mântrico – é a parte mais celebrativa e, como disse, astuciosamente composto de forma a rimar elementos culinários e naturais possuidores de nomes indígenas: “Viva Belém do Tucupí / Belém, Belém do Tacacá / Belém, Belém da Açaí / Belém, Belém do Grão Pará”.

A gravação de Fafá de Belém foi registrada num compacto lançado em 1975, aliás, o debut da cantora. A interpretação é intensa e cheia de energia, com Fafá explorando agudos enquanto metralha o jogo silábico dos versos. A canção não poderia ter uma intérprete mais apropriada, por ser expansiva e dionisíaca, como a própria Fafá (cuja imagem midiática foi construída não apenas sobre seu inegável talento artístico, mas também por sua aparência exuberante e sexy). E quem mais, além dela, poderia cantar o verso “Ser gargalhada para rir”?

fafa-de-belem
Fafá de Belém: mostrando ao Brasil as riquezas de seu Norte, tão esquecido e desconhecido nas outras regiões.

O próprio João Donato gravou “Naturalmente”, ainda em 1975, em Lugar comum. O arranjo é bacana e não desagradaria aos fãs de Stevie Wonder, com ótimos sons de flauta e guitarra:

Também em 1975, Miúcha incluiu a canção num compacto duplo. Infelizmente, nessa versão há uma enorme perda de potência, já que a cantora nunca foi uma intérprete tão efusiva quanto Fafá. Mesmo assim, o arranjo é belo, e atira o ouvinte direto para o chão litorâneo de Belém:

Mais recentemente, Lenine e Zélia Duncan registraram a canção no Songbook João Donato (1999). A versão, apesar de acústica, é cheia de balanço, apoiando-se na boa batida ao violão do cantor pernambucano. A percussão é toda vocal! No mínimo, curiosa:

Finalmente, em 2013, a cantora mineira Kika Tristão incluiu a canção num álbum de mesmo nome. Da batida funkeada, vamos agora para a Jamaica, embora o arranjo conserve timbres que remetem ao R&B, marca da gravação original de Donato. A percussão é um show à parte e vale a audição:

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