93. Cazuza: “Só Se For A Dois”

Aos gurus da Índia
Aos judeus da Palestina
Aos índios da América Latina
E aos brancos da África do Sul
O mundo é azul
Qual é a cor do amor?
O meu sangue é negro, branco
Amarelo e vermelho


No post retrasado, falei de mais uma faixa que aparece em Belchior blues. É certo que o cantor cearense manifestara seu apreço pela melancolia “azul” em muitos de seus sons – embora tivesse reconhecido, em “A Palo Seco” que “um tango argentino me cai bem melhor que um blues”.

Assim, um tributo blues a Belchior, de certa forma, faz sentido. Mas me soaria muito mais plausível encontrar, por aí, uma tal homenagem a Cazuza. Não é preciso explorar a discografia do cantor carioca junto com o Barão Vermelho. Embora ali estejam pérolas como “Down Em Mim”, em sua própria carreira solo (e, geralmente, sem a frutífera parceria com Roberto Frejat) já é possível elencar diversos números que mereceriam releituras blueseiras – afinal, o que são “Blues Da Piedade”, “Mal Nenhum”, “Só As Mães São Felizes”, “Vida Fácil”, “O Tempo Não Pára”, “Obrigado (Por Ter Se Mandado)”… senão grandes blues do BRock? Sem contar outros números espalhados por álbuns alheios, como “Incapacidade De Amar” (Heróis Da Resistência), “Blues Do Ano 2000” (Paulinho Moska) e “Malandragem” (Cássia Eller).

Cazuza tinha uma veia afiada para esse gênero, e a canção de hoje, “Só Se For A Dois”, é mais um exemplo. Lançada no álbum de mesmo título de 1987 e composta em parceria com o guitarrista Rogério Meanda, a obra atira para vários lados, ou melhor, para várias escalas. Da mesma forma que o instrumental se desenvolve num crescendo, do simples mas eficiente dedilhado da introdução até o final apoteótico (e “cazuzamente” berrado), a letra também percorre um caminho que se desenvolve do micro para o macro.

“Só Se For A Dois” começa enumerando raças-etnias em seus respectivos contextos, como que dedicando a canção aos diversos povos, mais ou menos vitimados por conflitos raciais: “Aos gurus da Índia / Aos judeus da Palestina / Aos índios da América Latina / E aos brancos da África do Sul”. A partir daí, já se constrói uma primeira verdade: “O meu sangue é negro, branco / Amarelo e vermelho”. Cheira a um hino contra o racismo… mas prossigamos.

A segunda estrofe (e o início da terceira) enumera outras populações, dessa vez, recorrendo aos gentílicos: “Aos pernambucanos / E aos cubanos de Miami / Aos americanos russos / Armando seus planos / Ao povo da China / E ao que a história ensina / Aos jogos, aos dados / Que inventaram a humanidade”. Então não se trata, apenas, do tema racial: do particular, caminhamos para o regional (pernambucanos), o continental (cubanos de Miami) e, enfim, chegamos aos continentes separados geográfica e ideologicamente, mas unidos na figura do duplo-espião (americanos russos). E aparecem as noções mais gerais de “história” e “humanidade”.

Onde Cazuza quer chegar?

Quando a harmonia abandona os repetidos acordes que remontam ainda à introdução, eis o letrista propondo uma ética: “As possibilidades de felicidade / São egoístas, meu amor / Viver a liberdade, amar de verdade / Só se for a dois / (Só dois)”.

Em Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta (São Paulo: Globo, 2001), temos algumas pistas para interpretar a obra, com um depoimento do próprio Cazuza:

Existe uma fantasia romântica de você procurar sua cara-metade, o companheiro ideal. Dá mais certo que o relacionamento entre países ou grupos. A única coisa que deu certo na história da humanidade. Essa coisa do par é muito importante. Sempre achei isso. Minhas letras mais safadas são assim.

Tenho necessidade de um relacionamento careta. E à noite tem aquela coisa de se sentir existindo, vivo. É uma coisa muito criativa e que me inspira porque as pessoas têm uma certa fantasia de que algo vai acontecer. Preparam-se para isso (p. 140).

O final da canção reserva ainda três pedradas: um manifesto contra a desigualdade e a alienação (“Aos filhos de Gandhi / Morrendo de fome / Aos filhos de Cristo / Cada vez mais ricos”); uma cena trágica, em que o alistado precisa abandonar o aconchego do ninho de amor para se atirar à morte vã, reforçando a posição de que só a dois se vive autenticamente (“O beijo do soldado em sua namorada / Seja pra onde for / Depois da grande noite / Vai esconder a cor das flores / E mostrar a dor”); e uma explícita tomada de posição político-ideológica (“Eu digo: o mundo é azul / Qual é a cor do amor? / O meu sangue é negro, branco / Amarelo e vermelho / Vermelho!”).

cazuza.jpg
Cazuza: por trás da vida boêmia e desregrada, a necessidade de uma vida a dois… só dois.

Ainda em 1986, Elba Ramalho regravaria “Só Se For A Dois”, e vale a pena ler o que escreveu Jorge Mautner, no release do álbum Remexer, sobre a faixa:

Canção político-existencial além-protesto. Prova da atualidade e da consciência de um engajamento não-dogmático, não-sectário, não-totalitário, desta dupla de gênios inquietos da nova geração de compositores. Viva a atualidade do Brasil-Universal-Moreno, afirmando sua negritude e condenando a África do Sul. E nota mais do que dez para a afirmação neo-anarquista-pacifista de que a contradição política nacional e mundial se resolve apenas… pelo amor… a dois! Elba aqui reflete sua experiência em ambas as matérias pela sua tradição de teatro político, é uma artista engajada enquanto suas lindas coxas a transformam em comichão sensual permanente de dengosa amorosidade. Só o amor de vênus-afrodite-iemanjá desta magnífica diva da paraíba-universal-pan-sexual é que poderá enfrentar os horrores do apartheid, dos assassinatos políticos e da devastação nuclear.

Mais preciso, impossível.


A versão de Elba é um tremendo de um rock, com guitarras pesadas, um pulso inquieto e ares de big-band. Não transmite a mensagem de forma tão intensa quanto a da gravação do próprio Cazuza, mas colore com novas tonalidades essa canção blue:

Em 1999, Orlando Morais gravou um disco com composições alheias, Sete vidas. (Tá aí um álbum que, de forma insuspeita, logo que me conquistou – roubado da pequena discoteca de minha mãe). Ali há uma releitura muito interessante para “Só Se For A Dois”, guitarreira e pesada na medida certa. Fique com esse número num pedaço do show de Sete vidas:

Após seu repentino desaparecimento, Cássia Eller teve lançada uma coleção de gravações que, finalizadas também postumamente, geraram um repertório suficiente para um álbum todo, Dez de dezembro (2002). “Só Se For A Dois” é a faixa de encerramento, com um arranjo bem diferente de todos os anteriores, apoiado nos teclados e na percussão:

Bem recentemente, o Detonautas Roque Clube armou um espetáculo em homenagem a Cazuza, com uma versão de “Só Se For A Dois” fidelíssima ao arranjo original:

E, pra fechar, a raridade-curiosidade: uma versão ao vivo, de 1987, abrindo os registros de O poeta está vivo (2005), que recuperam a gravação de um show de Cazuza no Teatro Ipanema, a partir de uma fita analógica:

4 comentários

  1. Acho que essa musica tem muito a ver com pessoas que querem viver aventuras com seus parceiros fixos ! Amo essa musica!!! Mas meu CD favorito de Cazuza é o EXAGERADO, gosto desse album porque as letras são sempre tão apaixonadas, tão cheias de piadas internas entre namorados (principalmente medieval II e cúmplice são as melhores )

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