94. Emicida: “Hoje Cedo”

Holofotes fortes, purpurina
O sorriso dessas mina só me lembra cocaína
Em cinco abrem-se as cortinas
Estáticas retinas brilham, garoa fina
Que fita
Meus poema me trouxe
onde eles não habita
A fama irrita, grana dita, cê desacredita
Fantoches, pique Celso Pitta mente
Mortos tipo meu pai, nem eu me sinto presente
É rima que cêsqué? Toma duas, três
Farta pra enfartar cada um de vocês
Num abismo sem volta, de festa, ladainha
Minha alma afunda igual minha família em casa
Sozinha
Entre putas, como um cafetão, coisas que afetam
Sintonia
Como sonhei em tá aqui um dia
Crise, trampo, ideologia, pause
E é aqui, onde nóiz entende a Amy Winehouse


A experiência de escutar ao vivo a canção de hoje, “Hoje Cedo”, do rapper paulista Emicida, é devastadora. Confesso que a composição, do próprio cantor com Felipe Vassão, nunca chamara minha atenção, mas a partir daquela audição no festival Sons da Rua em 2018, tudo seria diferente. A faixa consta em O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui (2013), e conta com a participação vocal da cantora baiana Pitty.

A letra traz um pai de família que se ausenta do lar para refletir: ele, que há dez anos mal tinha onde cair morto, hoje é um artista reconhecido e precisa lidar com todas as contradições advindas da fama repentina. Entre a hipocrisia dos globais que o cercam, mais a indignação de assistir aos playboys beberem fortunas em seus shows, a revolta chega a vacilar: “A sociedade vende Jesus, por que não ia vender rap?” E agora sabemos que o personagem é o próprio Emicida, transplantado para a pele de alguém que, na lida diária com o sucesso, precisa também corresponder às carências afetivas – suas e de outrem – que insistem em interromper suas reflexões, cantadas como o belo e marcante refrão roqueiro de Pitty: “Hoje cedo / Quando eu acordei e não te vi / Eu pensei em tanta coisa / Tive medo / Ah, como eu chorei, eu sofri / Em segredo / Tudo isso / Hoje cedo”.

A canção, ao vivo, e naquele contexto, verdadeiramente me arrebatou. Afinal, estava no Itaquerão, a casa do time de um time do povo, assistindo a um espetáculo em que a cultura de rua, processada e disponibilizada como produto da indústria cultural, era revendida com um alto valor de troca a ela agregado – justamente para a população mais dona, em tese, daquela mesma forma de trabalho objetivado. E lá estava Emicida cantando para nós, que devolvíamos nossa carência por ídolos e por vozes que nos representassem, cantando: “Hoje cedo…”

Linda e contraditoriamente.

emicida-pitty.jpg
Emicida e Pitty, cientes das contradições da indústria cultural, trazendo voz ao povo e aos sons da rua.

Existe uma ótima versão ao vivo, presente em 10 anos de triunfo (2018), com Pitty novamente participando da gravação de Emicida. A versão traz novos versos: “Uns destilam ódio e rancor / Isso é pequeno / Prefiro o avesso do veneno / Outro sabor pra compor / Mesmo que através da dor que seja pleno de amor / Aquele que é extraterreno / Procuro simbiose, nunca o parasitismo / Desprezo a vassalagem e meço a dose / Autonomia, palavra qu’espanta! / Pois fazê-la de mantra é meta até a metamorfose”. Escute: 

3 comentários

    1. Confesso que tive a mesma impressão quando escutei pela primeira vez. Mas depois isso se desfez, pois fui percebendo que a letra enumera muitos fatos da juventude do rapper, reanalisados à luz de suas novas vivências no “mainstream”.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s