95. Edu Lobo e Tom Jobim: “Moto-Contínuo”

Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você


O moto-contínuo, também chamado moto perpétuo, é um dos conceitos mais fascinantes da física: primeiro, por sua promessa enquanto fonte inesgotável de energia; depois, por sua existência ser impossível.

A Segunda Lei da Termodinâmica, que costuma ser enunciada como a tendência do universo à desordem máxima (e digamos que, sob tais termos, está não apenas imprecisa, mas provavelmente errada), garante que, apesar da quantidade de energia existente ser constante (não podendo ser criada, nem destruída, como enuncia a Primeira Lei), essa energia não pode ser eternamente aproveitada para a geração de trabalho. Quer dizer, as contínuas transformações por que a energia passa, no mais das vezes, acabam por degradá-la.

Assim, as turbinas da usina hidrelétrica não apenas convertem a energia potencial da água barrada em energia cinética, por sua vez, convertida na energia elétrica que chega aos nossos lares. O processo é atravessado por toda sorte de interferências que inutilizam parte da energia potencial inicial, sempre maior que a eletricidade que efetivamente usufruímos, pois existem subtrações na forma de agitação molecular caótica: no atrito das turbinas em torno de seus eixos, na dissipação do som da água jorrando e se chocando com as pás, no calor envolvido na resistência das linhas de transmissão.

Portanto, o moto perpétuo pertence a uma curiosa coleção de objetos que jamais poderão adquirir realidade, junto com os monopolos magnéticos, os corpos resfriados abaixo de 273,15 °C, as partículas subatômicas cuja velocidade e posição podem ser precisa e simultaneamente medidos e os pulsos eletromagnéticos viajantes a mais de 300.000 km/s.

Mais curiosos que esses objetos são as tentativas de torná-los concretos, pequenas subversões das leis da física que só as reforçam enquanto tais, já que toda boa regra deve admitir uma exceção.

Observe que tais leis podem ser aplicadas aos objetos naturais, mas falham miseravelmente quando buscam explicar o comportamento humano. Existem corações mais gelados que a partícula mais próxima do zero absoluto. Existem pensamentos tão obtusos que recusam, diante de todas as evidências, a existência de seus contrários, por mais que a dialética o garanta – são verdadeiros monopolos cognitivos, morais, estéticos. Existe, por fim, quem se apresente como defensor deste e, simultaneamente, daquele outro valor que lhe nega: ora, o Princípio da Incerteza de Heisenberg não se aplica ao intelecto dos homens.

Nem as Leis da Termodinâmica têm qualquer tipo de validade no território do que é humano, demasiado humano. Nos corações e nas mentes, não há leis regendo as conservações: uma paixão pode surgir do nada, um antigo afeto pode ser requentado após anos de degradação, um bem-querer, extirpado para sempre de nosso interior, pode ceder espaço ao esquecimento.

O amor, nesse sentido, é o mais subversivo dos sentimentos: viola todos os modelos físicos imagináveis, começando do princípio – falsamente – atribuído a Antoine Lavoisier de que “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ora, o amor é um só, é sempre o mesmo, não se converte em nada além do que já. E, quanto mais se dá, mais se tem!


Chico Buarque, quem escreveu a letra de “Moto-Contínuo” sobre a melodia de Edu Lobo, sabia muito bem de tudo isso. No inteligente poema-canção, o compositor assevera que o “Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você / Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você / E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você”. Para consumar o desejo pela conjunção amorosa, vale tudo, inclusive falsear a estrutura do mundo físico. Certificando o espectador de que o “você”, partícula que encerra praticamente todos os versos da canção, se refere ao objeto do /querer/, a voz que canta garante: “E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê / Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque”.

Mas gosto também – e aí vou desfrutar de minha autonomia interpretativa de ouvinte – de considerar que a canção se refere a um valor mais fundamental que o amor: a liberdade, sendo ela o “você” da canção.

Não sei, talvez eu esteja influenciado pela leitura de Primo Levi, químico-escritor italiano que sobreviveu a Auschwitz para narrar, ao mundo, os horrores do nazismo. Ou talvez esteja comovido pelo próprio contexto brasileiro, que tem atirado mais e mais cabeças pensantes a bolar estratégias de resistência para o terror que se avizinha, ou melhor, no qual já estamos imersos.

Sim, encaro a liberdade como pré-condição para o exercício do amor. Não espere que alguém enjaulado – física e/ou psicologicamente – venha a amar, pois só o ódio encontra, na prisão, solo fértil para florescer.

Mas a liberdade não significa apenas a prerrogativa de agir como bem se quer; há de se defender uma liberdade responsável, uma liberdade profundamente social, em que seja possível encontrar no outro não o obstáculo para nossa realização, mas o motivo para isso: sou livre para ser feliz e para fazer assim também meu semelhante.

E, nessa comunidade de seres irmanados num fim comum, radicalmente solidários, aí sim é que o amor se tornará a fonte inesgotável de energia que moverá o mundo: o verdadeiro moto-contínuo de que fala Chico.


O tema deste post é a primeira gravação de “Moto-Contínuo”, presente no álbum Edu & Tom – Tom & Edu (1981). O disco é uma bela – e tardia – coleção de bossas de dois de nossos maiores cancionistas. “Moto-Contínuo”, primeira parceria de Edu com Chico, traz o compositor de “Ponteio” ao violão, Tom em seu indefectível piano, e ambos nos vocais.

tom-jobim-edu-lobo.jpg
Tom Jobim e Edu Lobo: cantando o moto-contínuo de Chico em 1981.

No mesmo ano, Chico Buarque regravaria a canção no ótimo e conciso Almanaque. Tocada por uma orquestra com mais de três dezenas de músicos, “Moto-Contínuo” ressurge com um arranjo do próprio Edu (e bem semelhante ao de seu registro original), que também toca violão na faixa. Outras participações instrumentais de peso são: o pianista carioca Cristovão Bastos, o baixista pernambucano Novelli e o mineiro Toninho Horta no violão. Ouça:

É muito difícil eleger qual seria minha versão favorita, entre essas de 1981. As duas são perfeitas e, covardemente, me refugiarei no empate.

Em 1996, Ney Matogrosso lançou Um brasileiro, álbum que homenageia o cancioneiro buarquiano. Temos, ali, mais uma belíssima versão para “Moto-Contínuo”. Na bateria, o saudoso Wilson das Neves. Aprecie:

5 comentários

  1. Moto-perpétuo e moto-contínuo me remete a ideia de um Deus,não aquele que fez o mundo em 6 dias,e sim uma energia criadora que continua em ação até hoje.
    Parece que fugi do tema,rs.

    Curtir

  2. Meu Deus, essa resenha sobre a música foi a melhor coisa que eu vi hoje!! E olha que eu só tava pesquisando a letra, que surpresa!!! Obrigado por isso.

    Curtir

    1. Olá, Vitor, grato pelo elogio!
      Confesso que, logo depois de escrever o texto, pensei ter viajado demais. Mas o mantive assim, sem edições. Hoje, a resenha me agrada bem mais, e que bom que você também gostou.
      Fique à vontade para conhecer os outros posts!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s