96. Kleiton & Kledir: “Roda Da Fortuna”

Em pleno século XX
Eu quero mais é viver
Compro a felicidade
E o resto, pago pra ver
Meu coração tem segredos
É um cofre sem solução
E sei cobrar cada beijo
Com juros e correção


Lembro que, em 1997, um anúncio na televisão falava de Kleiton & Kledir, apresentando uma coletânea da dupla de Pelotas. A curta chamada trazia pequenos fragmentos de suas canções, sendo possível reconhecer trechos de “Vira, Virou”, “Deu Pra Ti”, “Fonte Da Saudade” e “Navega Coração”. Tudo isso em 30 segundos, ou menos.

À época, os irmãos gaúchos já não frequentavam as FMs, de modo que me restou, apenas, guardar na mente aqueles poucos versos, que foram se acumulando junto de outras curiosidades musicais ao longo dos anos. Mal poderia saber que, dez anos depois, viraria fã da dupla.

Tudo aconteceu quando encontrei, numa feira de discos, o álbum Clássicos do sul (1999) e a coletânea da série Millenium (1998). Escutei o primeiro durante os meses iniciais de 2007 e, quando fui explorar a coletânea, acabei tragado por uma avalanche de tarefas envolvendo âmbitos acadêmicos e não acadêmicos: pós-graduação, nova graduação, militância política, início de um novo relacionamento, “tudo ao mesmo tempo agora”.

Mas, no ano seguinte, minha sorte mudara, e para melhor, sobrando tempo para desbravar os discos que insistiam em se empilhar na lista “para ouvir”. Escutar hoje aquelas canções de Kleiton & Kledir (como as já mencionadas, além de “Paixão”, “Bailão”, “Lagoa Dos Patos”, “Estrela, Estrela”, “Roda De Chimarrão”, entre outras) me remete ao gostoso 2008, tempo de muita celebração à amizade, novas paixões/experiências e enorme crescimento intelectual.

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Kleiton & Kledir: os irmãos de Pelotas que, com sua gauchice pop, encantaram o Brasil.

Uma das obras que mais embalaram essa maré boa é “Roda Da Fortuna”, presente no homônimo primeiro álbum da dupla, de 1980. A canção é um pop-rock com uma sonoridade quase setentista, baseada em timbres acústicos: violões, o sempre belo violino de Kleiton Ramil, um piano e boas harmonias vocais. Ao contrário de muitas das canções da dupla, nesta não há referências aos ritmos tipicamente sulistas – “Roda Da Fortuna”, no máximo, pode ser enquadrada como mais uma peça da MPG, a Música Popular Gaúcha, de que falei anteriormente.

Tratando especificamente da mercantilização dos relacionamentos na sociedade contemporânea (associando viver, felicidade, coração, beijos e amor com um léxico econômico-financeiro – compro, pago, cofre, juros, correção, descartáveis, poupança), a voz que canta externa seu caráter volúvel, num mundo em que valor e fortuna recebem uma conotação materialista. Ao sabor das circunstâncias, o eu lírico se desloca facilmente de diabo a todo vapor para menino em paz. Para caracterizar essa oposição, o compositor (no caso, Kledir Ramil) se apropria da terminologia da química: diabo/solução ácida; menino/meio alcalino – sem contar a menção ao coração “destilado”, na última estrofe.

A canção chegou a conhecer relativa fama, pois foi tema da novela Cavalo amarelo, na Bandeirantes. Infelizmente, jaz esquecida no repertório de Kleiton & Kledir, que permanecem tocando e emocionando muita gente pelo Brasil afora.

4 comentários

    1. É uma pena não ouvirmos os novos sons deles nas FMs, mas a dupla permanece tocando e compondo, mantendo o excelente nível. Fique atento também ao outro irmão Ramil, Vitor, que tem composto para muita gente boa.

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