97. Zé Ramalho: “Ave De Prata”

É muito mais do que muito
Muito mais do que quantos anos todos piorei
É muito mais do que mata
Muito mais do que morrem todos pela planta do pé
É muito mais do que fera
Mais do que bicho
Quando quer procriar
Uma espécie é sementes da água, mistérios da luz


José Ramalho Neto, o Zé Ramalho da Paraíba ou, simplesmente, Zé Ramalho, é mestre em compor canções arrebatadoras. Embora sua obra seja marcada por sucessos que trazem temas mais ou menos evidentes – como as reflexões freudianas de “Chão De Giz” ou a crítica social em “Admirável Gado Novo” –, é nas canções menos badaladas que se escondem grandes e misteriosos achados. Ali, vamos encontrar objetos de grande predileção por parte do autor, como os poemas bíblicos e o misticismo de forma mais ampla.

“Ave De Prata” está na interseção desses dois assuntos, acumulando imagens carregadas de simbolismo – as sementes da água, o vaga-lume do mar, a indecifrável esfinge e, claro, a própria ave de prata – que se anunciam como arautos do apocalipse. A canção como que nos traga para um sonho, numa paisagem surreal em que os opostos se emaranham: as trevas e a luz, a água e o fogo (e repare que os demais elementos também são convocados, na figura do furacão e nos “gemidos da terra”), o nascimento e a morte, o começo e o fim.

Não bastassem as imagens perturbadoras, que encontram a expressão perfeita na voz cavernosa do intérprete, a harmonia se constitui como o fundo perfeito por onde se desenrola esse enredo onírico: são os sombrios trítonos de uma impensável sucessão de acordes diminutos, que se resolvem num sereno e melancólico Lá Menor. Há também uma sequência que demarca uma espécie de refrão, se valendo de um encadeamento carregado de dramaticidade latina: Am, Am/G, Dm, F e E.

Simplesmente, de arrepiar.

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Zé Ramalho: profeta da Paraíba, veículo de mensagens perturbadoras e, afinal, redentoras.

Antes de aparecer no álbum A terceira lâmina (1981), do próprio Zé, a canção fora gravada por outra intérprete: ninguém menos que sua prima Elba Ramalho, em sua estreia intitulada justamente Ave de prata (1979). O arranjo, concebido por Zé, faz dessa gravação original uma espécie de fado diabólico, com a participação de grandes músicos: Dino 7 Cordas, Geraldo Azevedo na viola e o próprio Zé Ramalho no violão. Confira:

O cantor, compositor e músico Xangai, acompanhado do Quinteto da Paraíba, reapresentou “Ave De Prata” com um arranjo sinfônico, em Um abraço pra ti, pequenina (1998):

Em 2004, Zé Ramalho teve compilada a coletânea Duetos, de título autoexplicativo. Ali, finalmente há um registro dos primos, ele e Elba, cantando “Ave De Prata”, numa versão acústica e definitiva, registrada originalmente em Solar (1999), álbum dela:

O cantor gaúcho Filipe Catto registrou “Ave De Prata” em sua estreia, Fôlego (2011), numa releitura bela e densa, embora não tão assustadora quanto as versões cantadas pelo próprio Zé Ramalho:

Finalmente, no DVD Zeca Baleiro canta Zé Ramalho (2017), o maranhense homenageia o paraibano com uma boa versão para o clássico do dia, que abre o espetáculo em questão:

4 comentários

  1. Tem hora que a gente faz comentário e o computador não registra,depois o comentário aparece por encanto,rs.

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