98. Rogério Skylab: “Matador De Passarinho”

Aqui tem João-de-Barro, Pintassilgo, Pinta-roxo,
Pica-pau e Colibri
Aqui tem Canário-belga, Araponga, Açum-preto,
Curió e Bem-te-vi
Aqui tem tanta Andorinha, Cambaxirra, Quero-quero,
Rouxinol e Juriti
Que servem de tiro ao alvo
Para espantar o tédio
E o vazio do existir


Entre 1975 e 1976, Chico Buarque e Francis Hime compuseram “Passaredo”, depois integrada ao repertório de Meus caros amigos (1976), álbum do compositor de “A Banda”. Como bem reparou Túlio Villaça no Sobre a Canção, trata-se de uma “canção de lista”, em que os versos abrigam uma enumeração de elementos – no caso, espécies de pásssaros. Eis a primeira estrofe da letra: “Ei, pintassilgo / Oi, pintarroxo / Melro, uirapuru / Ai, chega-e-vira / Engole-vento / Saíra, inhambu / Foge, asa-branca / Vai, patativa / Tordo, tuju, tuim / Xô, tié-sanguen/ Xô, tié-fogo / Xô, rouxinol, sem-fim / Some, coleiro / Anda, trigueiro / Te esconde, colibrin / Voa, macuco / Voa, viúva / Utiariti / Bico calado / Toma cuidado / Que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí”.

Há quem interprete a canção como mais uma cifrada crítica à ditadura: os nomes de passarinhos são nada menos que codinomes de guerrilheiros, que precisam manter o “Bico calado”, já que “O homem vem aí”. João Bosco e Aldir Blanc, em Galos de briga (de 1976 e, portanto, na mesma época  da composição de “Passaredo”) também tinham se referido ao homem – ou melhor, “aos hóme” – na canção “Ronco Da Cuíca”, esta, explicitamente militante. A gíria é muito usada, pelo menos aqui no Sudeste, para se referir aos agentes da repressão.

Mas há também as interpretações de “Passaredo” enquanto manifesto ecológico, um grito contra a devastação da natureza pelo homem, ameaçando as espécies animais de nossa rica fauna. Bom, Humberto Werneck, em Chico Buarque letra e música, traz informações esclarecedoras a respeito disso:

Uma letra de música, na verdade, é muitas vezes uma peça de pura ficção. Se assim não fosse, como explicar o decantado talento de Chico para compor no feminino, presente em músicas como “Com açúcar, com afeto (feita a pedido de Nara Leão), “Bárbara”, “Folhetim”, “O meu amor”, “Bastidores” e “Meu namorado”? Não convém, da mesma forma, concluir que Chico Buarque é ecologista só porque fez a letra de “Passaredo”, para música de Francis Hime. Longe disso, a julgar pelo que contou, com graça, num programa de televisão. “Eu não entendo nada de bicho. Pra falar a verdade eu detesto bicho”. E revelou que ao fazer a música, para o filme A Noiva da cidade, de Alex Viany, capturou na enciclopédia todos aqueles nomes de aves. Uma delas, ao que parece, vingou-se da pequena fraude, segundo relato do próprio Chico: “Um dia eu estava no terraço de casa, ouvindo essa música, quando veio um passarinho e fez cocô na minha cabeça.” Em outra ocasião, conta, saboreou ao som de “Passaredo” um nada ecológico assado de capivara num restaurante carioca especializado em caça.

Anos depois, o compositor carioca Rogério Skylab parece ter captado a ironia buarquiana, propondo uma espécie de atualização ou releitura sinistra, na melhor tradição do humor negro – ao qual se filia, aliás, boa parte de seu repertório. Presente no segundo álbum de carreira do cantor, Skylab (1999), a origem da obra foi explicada pelo próprio cancionista em um bate-papo virtual:

 “Matador de Passarinho” nasceu a partir de uma música do Francis Hime e do Chico Buarque, “Passaredo”, cuja letra eu perverti. É um trabalho de perversão, que está ligado ao travesti. A idéia de arte contemporânea é essa: acabou a natureza, acabou a idéia original, tudo é manipulado, tudo é pervertido.

A faixa intercala um pastiche de choro-canção dos anos 1930 com um refrão roqueiro: “Matador de passarinho!”. Os passarinhos, no caso, são todos aqueles enumerados nas estrofes, alguns coincidindo com as espécies coligidas na canção de Chico: joão-de-barro, pintassilgo, pintarroxo, pica-pau, colibri, juriti, etc.

A escolha pelo choro, de forma a ressaltar o humor dos versos, não é um acaso. Waldir Azevedo, famoso intérprete de “Tico-Tico No Fubá” (de Zequinha de Abreu), também compusera um choro passarinheiro, “Colibri”. Mais antigamente, Ernesto Nazareth fez “Beija-Flor”, que pode ser considerado o mesmo passarinho. Pixinguinha também contribuiu, mas indo além da ordem dos passeriformes, com “Avião Calçudo”, “Marreco Quer Água” e “Urubu Malandro”.

Passeriformes…? Conversa mole! Rogério Skylab quer mesmo é sair à caça do “Tico-Tico No Fubá”, sem desprezar a poesia e um linguajar rebuscado, o que reforça ainda mais a comicidade de seu canto: “Tico-tico quando voas, / Tico-tico tu pareces um teco-teco no ar / Tico-tico quando cantas / Me lembro da minha infância, / Feriado em Paquetá / Tico-tico tão arisco, tico-tico tu beliscas / Uns grãozinhos de fubá / Tico-tico me perdoa mas me vem um vontade, / Não posso me segurar”. Genial!

Que injustiça um artista como esse ser considerado um maldito, um bizarro, uma excrescência. Skylab tem talento de sobra e é um personagem necessário: o que seria da luz sem as sombras?

rogerio-skylab.jpg
Rogério Skylab: turvando a paisagem alva da canção brasileira com humor negro e escatologia, mas sem desprezar a poesia.

4 comentários

    1. Achei mais um comentário seu que tinha ficado sem resposta! No meu caso, “Passaredo” conheci depois que “Matador De Passarinho” – que tive o prazer de curtir ao vivo, em 2006, quando era estudante em São Carlos e o Rogério Skylab fez um show incrível no centro acadêmico.
      Pra você que gosta de “twittar”, este post acabou vindo ao conhecimento do próprio Rogério, que o divulgou nas redes sociais dele (https://twitter.com/rogerioskylab). Muito bacana! E sou grato a você por ter feito o mesmo durante 2019.
      Abraço!

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