99. Tarja Preta: “Cidade Do Rock”

Para a velha cidade do rock não volto mais
Para a cidade velha, o velho rock não volta mais
Faz mais de 30 anos, o rock n’ roll ainda persiste
Só meus longos cabelos já não existem mais
Sexo, drops e rock n’ roll
Esses velhos fantasmas que vivem a me assombrar
Jimi Hendrix, Keith Moon, Os Quem?
Ídolos que se foram e já não volta mais


Antes que o blog completasse heróicos 100 posts (modéstia à parte), o conjunto de canções aqui tematizadas não estaria completo sem a presença de um som da minha terra.

São Carlos é uma cidade no interior de São Paulo, quase no centro geométrico do estado. Nela, vivem cerca de 250.000 habitantes, dos quais aproximadamente 10% fazem parte da população universitária, dividida entre algumas escolas privadas e duas intituições públicas, ostentadas com orgulho: a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal de São Carlos.

Nesse caldo efervescente de cultura e juventude, a música popular encontrou um público fiel de apreciadores. Em minha adolescência, o gênero em franco crescimento criativo, sem dúvidas, era o rock n’ roll. Floresceu, entre o fim dos anos 1990 e meados dos anos 2000, um grande rol de conjuntos que se revezavam pelos palcos da cidade, tanto nas universidades quanto em outros espaços mais tradicionais, como o Sesc, o Teatro Municipal, a Estação Cultura e as praças do Centro sãocarlense. (Costumo brincar que todas essas bandas eram, na verdade, tocadas pelas combinações possíveis entre apenas 10 músicos, já que, na história dos conjuntos da cidade, todo mundo já tocou com todo mundo).

Acredito que a Tarja Preta foi a banda mais bem-sucedida, entre todas as que animavam esses palcos. Trata-se de um som que me marcou muito, e por um motivo muito simples: foi meu primeiro show de rock.

Tudo começou em 1999, quando a Oficina Cultural havia oferecido um curso de violão gratuito. Com muita luta, meu pai encarou uma fila gigantesca e conseguiu me matricular. Ganhei um singelo violão DiGiorgio, “estudante nº 18”, e logo estava passando duas tardes por semana na companhia daqueles colegas que sumiram no mundo. Nossa professora, Eunice Nery, iniciou o curso com um competente apanhado de teoria musical, introduzindo-nos na leitura de pautas, sendo que passamos a explorar o instrumento já bem tardiamente, depois de mais da metade do currículo.

Àquela altura, eu e meu amigo Carlos Rafael (por onde anda?) já tínhamos nos entrosado com os demais estudantes. Apresentei ao Carlos o Alexandre, que treinava karatê comigo e, na verdade, tinha interesse mesmo é no cavaquinho; logo, se acercara de nós o Lucas Baltieri, hoje um famoso músico na cidade; e fomos nos aproximando de outros companheiros que vinham de vários bairros – lembro de alguns nomes: Karin, Débora, Adalberto, Valdirene – para, em dezembro, já como um grupo unido e invencível, apresentarmos uma composição própria na mostra de trabalhos da Oficina Cultural. Uma pena que ninguém gravou!

Um dos alunos era o Marcus, que trabalhava (acredito que ainda trabalhe) no Sesc. Certo dia, ele apareceu na aula com um bolo enorme de convites para um show, embrião de um projeto do Sesc que animaria bastante a cidade nos anos de 2000 e 2001, Nas Bandas de Cá (sempre com um conjunto sãocarlense, cuja apresentação era aberta por uma banda de alguma outra cidade do interior paulista). Naquela apresentação experimental, três bandas dividiram o palco, sendo descritas pelo Marcus como “uma de pop-rock, uma de punk e uma de blues”.

Conseguimos reunir uma boa turma para o evento. E o que posso dizer, daquela noite, é que ela foi inesquecível e muito significativa para minha formação musical. Afinal, pela primeira vez eu estava próximo de um som vibrante, alto, rebelde, sentindo o cheiro do gelo seco e o sacolejar do meu coração junto com o som do bumbo na bateria.

A banda que encerrou a apresentação foi justamente a Tarja Preta. É verdade que, àquela altura, já estávamos bem cansados de tanto pular nos shows anteriores. Mas acho também que a Tarja segurou muito bem a onda e nos conquistou, com seu repertório praticamente todo autoral. Aliás, era um tempo de grande generosidade: é lógico que uma cover conhecida é sempre uma surpresa agradável, mas as canções próprias exerciam muito fascínio em nós. Tanto que não demoravam muito para estarem “na boca do povo”.

A canção de hoje, “Cidade Do Rock”, é uma dessas obras que conquistou uma notoriedade rápida e impressionante, sendo hoje um clássico do rock sãocarlense. Talvez a melhor canção roqueira ali composta, abre o primeiro álbum do conjunto, Targovétuo de trevoriol (2001) que, aliás, tem um encarte que é um show à parte, emulando a bula de um medicamento controlado. Com ótimos timbres de guitarra, incríveis viradas de bateria, baixo competente e bons vocais, “Cidade Do Rock” é um clássico instantâneo. Mesmo os clichês do rock são bem aproveitados e não parecem gratuitos – refiro-me, aqui, especificamente à seção do solo, com modulação na harmonia e o indefectível cowbell acompanhando o pulso.

A letra fala sobre certo desencanto com o rock, elemento de um passado romantizado que não volta. Hendrix morreu, o The Who se desintegrou e o Woodstock foi um sonho passageiro: uma “cidade fantasma” que “não ressuscita mais”.

Mas, nos tempos em que fui fiel frequentador das apresentações da Tarja, a Cidade do Rock, para mim, era a própria São Carlos.

tarja-preta.jpg
Tarja Preta: quando a cidade do rock era a própria São Carlos.

8 comentários

  1. Conheço uma música com o nome de Tarja-Preta,da banda não me lembro,e por falar em tarja-preta,remédio controlado é um perigo,eu me descontrolava totalmente quando tomava,rs.

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