102. Beth Carvalho: “Morrendo De Saudade”

Estou morrendo de saudade
De um tempo feliz que passou e eu não vi
Gosto de manhã, de sapoti
Carícias no ar, um colibri
Samambaias na varanda
Tudo isso passou, perdi
Quando o manto da noite cai sobre a cidade, que saudade
E quando a passarada anuncia a alvorada, que saudade
Arde tanto o coração que me causa impressão
Que eu tenho o peito em chamas
A saudade é um punhal
Cravado até o final, no peito de quem ama.


Wilson Moreira e Nei Lopes formaram uma das maiores duplas de compositores do samba. Até estranho que os nomes de ambos não tenham aparecido mais vezes aqui no blog. Wilson, infelizmente, nos deixou há pouco tempo.

A canção de hoje, “Morrendo De Saudade”, composição de ambos e lançada pela sempre magnífica Beth Carvalho no álbum Na fonte (1981), é uma das pérolas da dupla. Um samba passional com melodia flutuante, alcançando alturas elevadas na tessitura, de forma a ressaltar o estado disjuntivo: a voz que canta sente saudade… No entanto, não se queixa da falta de uma pessoa, e sim de um “tempo feliz que passou”; e então percebemos que a questão não é propriamente temporal, mas espaço-temporal, pois a saudade se remete, na verdade, a um lugar desse passado.

Já me identifiquei bastante com a letra, que parecia se encaixar perfeitamente no momento em que troquei o interior pela cidade grande. Beth cantava as minhas próprias saudades das samambaias na varanda da(s) minha(s) avó(s), do gosto úmido das manhãs na proximidade de um “corguinho”, da passarada anunciando a alvorada – pardais, andorinhas, bem-te-vis, joões-de-barro, maritacas e suas gritarias…

beth-carvalho.jpg
Beth Carvalho: um intérprete fantástica para as saudades de Nei Lopes e Wilson Moreira.

Hoje essa saudade não arde mais como um punhal em meu peito, mas serve como uma lembrança de que sempre fui e sempre serei um caipira, com muito orgulho, feliz por ter vivido entre o relevo acidentado e verdejante de meu bairro, pescado nas represinhas com meu pai e meus avós, soltado pipa descalço no campinho de terra, sido mordido por bicho, roubado cana, pegado tatu pelo rabo e achado agradável o cheiro de estrume (ainda acho, na verdade).

Quanto à parte instrumental da canção, vale destacar o bando de músicos importantíssimos e geniais que garantem a batucada perfeita para a Beth soltar sua voz: o imprescindível Dino 7 Cordas, Ubirany Nascimento no repique, Wilson das Neves na bateria, Joel Nascimento no bandolim, Jorge Aragão no violão, mais um coro formado  por gente do quilate de Almir Guineto e Luiz Carlos da Vila.

Não tem pra ninguém!


Não deixe de ouvir uma (fiel) versão ao vivo registrada em Pagode de mesa 2 (2000). Aqui, temos a participação de Arlindo Cruz no banjo. Confira:

4 comentários

  1. Nunca aceitei minha condição de caipira,deve ser porque eu nunca consegui realizar meu sonho de morar em São Paulo.

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