103. Quarteto em Cy: “Pedro Pedreiro”

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficanto pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem


“Pedro Pedreiro” é um dos grandes clássicos de Chico Buarque. Presente na estreia do cantor em LP, com Chico Buarque (1966), a canção é uma das várias, no repertório buarquiano, que apresenta e descreve um personagem. O Pedro Pedreiro – e observe como a profissão é incorporada à própria identidade do sujeito – levanta cedo e espera o trem para ir trabalhar. (Como fazem, todos os dias, milhares de pessoas aqui pertinho de casa, nas estações da Linha Turquesa da CPTM…) E sua vida é resumida à espera, à falsa esperança: o aumento prometido, mas nunca concedido; o prêmio da loteria, à revelia das probabilidades; a expectativa de um novo filho na barriga da mulher, que significa, antes de tudo, uma boca a mais para alimentar; a possibilidade de um retorno ao Nordeste (aqui, chamado de “Norte”, como em “Fotografia 3×4” de Belchior), já que a vida no Sudeste não é nenhum mar de rosas; e por fim, a própria morte, equiparada a um evento festivo, única possibilidade de encerrar o ciclo de eternas esperas – a disjunção final e derradeira que, contraditoriamente, parece ser a única redenção possível.

Preso à armadilha da rotina, Pedro Pedreiro se parece com outros protagonistas de Chico, por exemplo, os trabalhadores retratados em Construção (1971), especialmente na devastadora trilogia “Deus Lhe Pague”, “Construção” e “Cotidiano”. Por exemplo, Pedro, apesar de capturado na rotina, percebe – ainda que inconscientemente – o absurdo que o aprisiona: “Pedro não sabe, mas talvez no fundo / Espere alguma coisa mais linda que o mundo / Maior do que o mar / Mas pra que sonhar / Se dá o desespero de esperar demais”. Ora, o personagem de “Cotidiano” faz o mesmo, numa breve interrupção (logo vencida pela resignação) da repetição diária casa-trabalho-casa: “Todo dia eu só penso em poder parar / Meio-dia eu só penso em dizer não / Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão”.

A canção também traz outro elemento que aparece em outras canções de Chico: a aceleração do pulso na coda. Em “Pedro Pedreiro”, cria-se a sensação de que a espera do personagem é eternizada no “já vem”, que nunca virá, emulando, ao mesmo tempo, um trem deixando a plataforma. O mesmo recurso aparece em “Roda Viva”, atirando o ouvinte na vertigem rotativa do refrão; em “Meu Caro Amigo”, no espetáculo de choro protagonizado pela flauta de Altamiro Carrilho; e na festa de “Tanto Mar”, comemorando a Revolução dos Cravos.

Enfim, a letra e o arranjo se completam e destaco, ainda, a riqueza de assonâncias (com a vogal “e”) e aliterações na poesia de Chico. Vale a pena conferir, também, um depoimento do próprio cancionista sobre essa obra, concedido a Carlos Calado, para a revista Marie Claire em 1999:

MC – Você já sofreu a chamada angústia da influência? Precisou superar a influência de alguém que marcou sua música?

Chico – Não. Eu comecei a fazer música sob a influência da bossa nova e fazia imitações escrachadas da bossa nova. Como eu não tinha nenhuma veleidade de compositor, naquele época, eu queria ser um sub-João Gilberto, fazendo música como um sub-Tom Jobim. Eu me assumia como um imitador de João Gilberto e não queria ser melhor do que isso. Na minha ingenuidade de amador, eu achava que conseguia fazer uma música parecida com a bossa nova e achava que isso já estava bom. Quando comecei a escrever, também tentei ser várias coisas: fui Céline, quis ser Zola por um tempo e, mais tarde, queria ser Guimarães Rosa. Na ingenuidade dos 18 ou 19 anos, eu achava que já estava escrevendo quase tão bem quanto o Guimarães Rosa (risos). Mas não era nada, apenas cacoetes e neologismos. Tem até um resquício disso, que aparece na canção “Pedro Pedreiro” o verso “Pedro pedreiro penseiro” ainda era aquela coisa de achar que eu podia ser Guimarães Rosa. Foi preciso um tempo, alguns anos para a música, e décadas para a literatura, para que eu pudesse me reconhecer como um autor com uma linguagem pessoal. Hoje, tenho consciência de que o que escrevo é meu. E a música que faço também é minha. Devo a outros autores, com certeza, mas tenho a minha marca pessoal. Nunca passei por esse tipo de angústia.

Ouça a versão original de Chico:

O Quarteto em Cy gravou “Pedro Pedreiro”, em estúdio, em duas ocasiões. A primeira foi lançando a canção em LP, no Quarteto em Cy (1966). É a gravação que abre o post, com um arranjo sambista, mas um pezinho na bossa. À época, a canção era um dos grandes números do repertório ao vivo do quarteto vocal. O produtor e pesquisador/historiador musical Marcelo Fróes tem buscado recuperar algumas dessas apresentações, que integram os discos da caixa Box Quarteto em Cy anos 60 e 70 (2018). Confira a versão, por exemplo, do disco O “Y” no samba:

Mais tarde, o Quarteto regravaria “Pedro Pedreiro” no disco-tributo Chico em Cy (1991), com um novo arranjo. Prefiro a original, mas gosto é gosto (e vice-versa):

Uma versão muito boa, ainda do Quarteto, é a registrada no show Falando de amor para Vinícius, de 1981. Veja que o arranjo, dessa vez, é minimalista e tende mais para um samba tradicional. O grande destaque é o contraponto de Franklin da Flauta:

Entre essas versões para a canção do Chico, qual a sua preferida?

quarteto-em-cy.jpg
Quarteto em Cy em sua primeira formação: vozes para narrar a saga de Pedro Pedreiro.

Mas não para por aí.

Em 2018, foi relançado o compacto Pedro pedreiro/Sonho de um carnaval (1965), com Chico cantando sozinho ao violão, num show:

Uma outra gravação que merece destaque é a de Nara Leão, essa bem bossa-novista e ainda mais minimalista que a do show do Quarteto em Cy em 1981. Foi lançada em Nara pede passagem (1966):

Há uma versão da cantora jovem-guardista Elizabeth, em A canção que chegou (1967), com arranjo muito parecido com aqueles dos registros originais de Chico e do Quarteto em Cy. No ano seguinte, a cantora Zelia Barbosa a gravou em Brésil – sertão & favelas, álbum que, aparentemente, nunca foi lançado no Brasil. Outras versões que você encontra na rede são a de Geraldo Vianna e João Araújo, em Trem (2012), álbum todo de canções “ferroviárias”; e a do conjunto italino Adjá, viciado em música brasileira, no projeto A noite do Chico (2017), tocando Chico Buarque com mais competência e amor que muito músico tupiniquim por aí.

E por falar na terra do Coliseu, Chico fez uma versão em italiano para “Pedro Pedreiro”, no disco de exílio Chico na Itália (1969):

De todas as versões, a mais inventiva é certamente a de Chico César, no Chico Buarque songbook Vol. 7 (1999). O paraibano acrescenta uma ginga toda africana à canção, perfazendo um arranjo que aproxima o samba da black music. Curiosamente, a coda é marcada não pela aceleração, mas ao contrário, pelo retardamento do tempo – o que fecha “Pedro Pedreiro” de forma trágica, conduzindo o ouvinte à ideia de que Pedro (que provavelmente é negro, detalhe nada desprezível que nenhum arranjo anterior conseguira evidenciar) morreu… esperando. Aprecie:

9 comentários

    1. Pois é, tenho a mesma impressão! A obra dele, apesar de multifacetada (e apesar da enorme quantidade de máscaras que ele já vestiu), é coerente do início ao fim.

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  1. Nossa amo essa musica de um jeito que nem sei expressar !!! Nunca tinha ouvido essa versão que é tão dançante !!!!
    “Que já vem, que já vem , que já vem , que já vem” (no que seria um ritmo de trem )

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