104. Autoramas: “Fale Mal De Mim”

Você fica irritado comigo só porque você me acha mais bonito que você
Você já fica todo nervoso
Quando te dizem que eu sou mais talentoso que você
Sua vida anda mesmo sem graça
Pois a única saída que você acha é me difamar
Isso até que veio bem a calhar
Eu estava precisando de alguém para me divulgar


Dia desses, comentei sobre meu primeiro show de rock. Era novembro de 1999 e o Sesc São Carlos experimentava organizar um encontro de bandas, com entrada franca, de forma a valorizar os sons próprios da cidade.

A ideia foi um sucesso estupendo e, no ano seguinte, o Sesc inaugurou o projeto Nas Bandas de Cá. A cada mês, uma banda da cidade faria uma apresentação gratuita no mesmo palco (a Convivência 2, hoje conhecida como Galpão, dentro do prório Sesc), com abertura de algum conjunto da região.

Posso estar enganado, mas o primeiro Nas Bandas de Cá ocorreu em abril de 2000, com a Banda Tao (do guitarrista Rodrigo Lanceloti, para nós simplesmente “Digão”, que depois tocaria com ninguém menos que Nasi, em seu projeto solo Egbé, de 2015), cuja apresentação foi aberta por um trio que, excepcionalmente, viria do Rio de Janeiro, já que a ideia era divulgar sons de cidades mais próximas. Eram uns tais de Autoramas, dos quais eu já ouvira falar por meio de uma reportagem na Showbizz, intitulada “Autoramas do sucesso” (sim, eu gostei do trocadilho).

A reportagem falava sobre o disco que banda acabara de lançar, seu primeiro: Stress, depressão e síndrome do pânico. Era um título, no mínimo, curioso, e bastante anti-mercadológico. Quem compraria um disco cujo nome é pura bad?

A verdade é que não haveria designção mais apropriada para o álbum, um vigoroso apanhado de canções (e alguns números instrumentais) que alinhavam três influências: a jovem-guarda, a surf music e o punk. Genelogicamente, era uma mistura bastante coerente, pois tudo isso remonta, de alguma forma, aos primórdios do rock, com seus rockabillys e rhythm n’ blues. As letras, todas em português, falavam sobre temas pouco comuns no contexto da época (o esgotamento dos anos 1990 e a aurora dos anos 2000): autoestima, inveja, psicopatias.

E foi isso o que escutamos em mais de uma hora de sonzeira na “zoreia”, naquele primeiro show dos Autoramas em São Carlos. O conjunto era (e ainda é) liderado pelo guitarrista e cantor Gabriel Thomaz, egresso da banda brasiliense Little Quail and the Mad Birds, conhecido por compor para os Raimundos – “I Saw You Saying”, talvez o maior sucesso dos candangos, tem sua assinatura, e a banda ainda gravaria “Aquela”, do Little Quail, em Só no forevis (1999). Completavam a formação clássica do conjunto a baixista Simone Dash (hoje, Simone do Vale), que quebrava tudo com um pedal de distorção; e a mão pesada do baterista Bacalhau (que vinha do Planet Hemp).

Naquela noite, ninguém conseguiu ficar parado. Muitas canções me conquistaram à primeira audição, como a jovem-guardista “Carinha Triste”, “Agora Minha Sorte Mudou” (cantada de forma sombria por Simone) e a pesada “Autodestruição”. E, nos meses seguintes, persegui as aparições da banda nos programas da TV Cultura, gravando esses números em suas apresentações no saudoso Musikaos e na não menos saudosa Turma da cultura.

Mas o principal hit dos Autoramas, talvez até hoje, seja “Fale Mal De Mim”, que chegou a tocar bastante em algumas rádios rock. O andamento é mais cadenciado que em outras faixas de Stress, depressão e síndrome do pânico e a harmonia é alegre, solar, cheia de acordes maiores. A letra, por sua vez, é uma celebração àquela figura que nos acompanha em cada ambiente profissional por que passamos: o bom e velho antagonista, aquele ser abjeto, que nos faz tomar outro corredor pra não cruzarmos com ele, que nos irrita, nos incomoda e torna nossos dias menos alegres – e mais propensos às mazelas psicológicas mencionadas no título do disco dos Autoramas.

A letra, no entanto, não fica nas lamúrias: torna a presença dessa pessoa algo produtivo. Se você fala mal de mim, que continue falando: “Mas, por favor, não deixe que em nenhum momento / Eu deixe de estar no seu pensamento”, dizem os versos que antecedem o refrão. Em outro momento, a provocação: “Eu estava precisando de alguém para me divulgar”. Fale bem, fale mal, mas fale de mim: pois as palavras que você profere dizem mais a respeito de você mesmo, do que de seu objeto de maledicência. O que me lembra também um ensinamento budista que recebi, há algum tempo atrás: o que as pessoas dizem sobre você é problema delas, não seu.

Stress, depressão e síndrome do pânico é mesmo um tremendo remédio para toda sorte de aflição. Talvez o primeiro álbum de auto-ajuda do rock nacional. E isso é um elogio: quem sou eu pra falar mal?

autoramas
Simone, Gabriel e Bacalhau: um power trio tocando porradas sonoras de auto-ajuda.

Existe uma versão mais nova para “Fale Mal De Mim”, gravada para a coletânea RRRRRRRROCK (2005), com a baixista Selma Vieira no lugar de Simone. É bem parecida com a original, mas há algumas sutilezas:

Bem recentemente, Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) e Débora Cassolatto (Debbie Records) organizaram o tributo A 300 km por hora (2018), que traz uma versão (mais) barulhenta para a canção, defendida pelos paraibanos do Emerald Hill. Confira:

6 comentários

  1. Sensacional, Rafa! Mandou super bem na caracterização, contexto e nas influências que essa música e banda exalam. Sem dúvida, Autoramas proporciona uma experiência musical ímpar com toda essa melancolia aliada a um som pesado e distorcido; na adolescência isso me pegou de jeito, também virei um alucinado atrás das outras músicas e clipes. Na época, por meio do Kazaa e Emule. rs. Abraços velhinho. Mande notícias!

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    1. Grande Michel! Adorei seu comentário. Haverá outros posts sobre essas bandas que nós curtimos (e conhecemos na juventude!)… fique ligado! Falei pra Lu que em breve combinamos um almoço e depois um karaokê. Abração!

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  2. Stress,depressão e Síndrome do pânico,já tive tudo isso e outras coisitas mais,e continuo firme,rs.

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