105. Tião Carreiro e Pardinho: “Travessia Do Araguaia”

Naquele estradão deserto, uma boiada descia
Pras bandas do Araguaia pra fazer a travessia
O capataz era um velho de muita sabedoria
As ordens eram severas, e a peonada obedecia
O ponteiro, moço novo
Muito desembaraçado
Mas era a primeira viagem que fazia nesses lados
Não conhecia os tormentos do Araguaia afamado
Não sabia que as piranhas eram um perigo danado


Quando sou obrigado a ouvir o que toca nas rádios atualmente (nas grandes FMs, é preciso ressaltar, àquelas sujeitas à perniciosa prática do “jabá”), chego a me entristecer. É claro e transparente que a programação reflete apenas interesses mercadológicos, quer dizer, a prática artística serve, antes de tudo, ao capital. Ou seja, não há um propósito nobre para a criação cancional: visa a reprodução das estruturas e, no máximo, é útil para divertir, animar. Música ligeira, para consumo em festividades, descartável.

E aí lembro que o Brasil já se mostrou capaz de articular uma finalidade para a arte, que também não coincide com a própria prática artística (arte pela arte), mas mesmo assim é nobre: a transmissão de algum valor.

A música caipira é rica em narrativas que aproximam a canção dos gêneros propriamente literários, como o conto, a crônica e a fábula – esta, notável por finalizar com uma moral. Moral que não precisa ser entendida no sentido “moralista”; como eu disse, se trata de lançar um convite para a reflexão, numa atividade praticamente educativa. Não se busca transformar a consciência do ouvinte mantendo-o passivo, mas o instigando a estabelecer relações entre as imagens representadas na obra artística e fatos que ele próprio vivencia.

A canção de hoje, “Travessia do Araguaia”, da dupla Tião Carreiro e Pardinho, é um bom exemplo desse tipo de canção “literária”. Presente no LP Disco de ouro (1979), a moda foi composta por Dino Franco e Décio dos Santos e regravada por muita gente.

A letra narra a condução de uma boiada, até o momento em que os peões precisam cruzar o Rio Araguaia, no Centro-Oeste do país. De cara, são apresentados os personagens: os obedientes peões de boiadeiro; o jovem e inexperiente ponteiro, conduzindo a boiada; e o velho capataz, comandando a comitiva. O conflito surge quando se nota que o rio está tomado de piranhas, o que transformaria a travessia numa carnificina. É o capataz quem propõe a solução: o boi de piranha, o animal que é sacrificado de forma a atrair os peixes ávidos por sangue, possibilitando a travessia segura dos demais.

O ponteiro se revolta com a solução proposta, pois se compadece pelo boi velho (“já roído pelos anos”) que será lançado ao rio. Sem apontar uma alternativa, o jovem questiona o capataz: “Sacrificar um boi velho, pra que esta crueldade?”. E a resposta não poderia ser melhor: “Respondeu o boiadeiro / Aprenda esta verdade / Que Jesus também morreu pra salvar a humanidade”.

O barato do enredo proposto é que, aparentemente, a narrativa é estruturada de forma a fazer com que nos identifiquemos com o ponteiro – “moço novo, muito desembaraçado” – e compreendamos perfeitamente sua revolta diante do sacrifício sugerido. Assim, quando é rebatido pelo capataz, não apenas o personagem recebe uma lição, mas nós próprios: eis o poder catártico da moral.

Retomando o que afirmei no início do post, Tião Carreiro, mineiro de Montes Claros, e Pardinho, sãocarlense como eu, dando voz a uma arte tão rica em propósitos, são um patrimônio da canção popular brasileira.

tiao-carreiro-e-pardinho
Tião Carreiro e Pardinho: a dupla que cantou narrativas sobre a vida no campo, com lições valiosas para o homem urbano.

Como disse, muita gente já regravou “Travessia Do Araguaia”, geralmente com o mesmo arranjo do registro em Disco de ouro (que é bom lembrar, traz outras pérolas como “A Vaca Já Foi Pro Brejo”, “Rio De Lágrimas”, “Menino Da Porteira”, “Rei Do Gado” e “Boi Soberano”). Destaco a gravação de Daniel, em Meu reino encantado II (2003), que transformou a moda em uma acelerada guarânia:

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