106. Elba Ramalho: “Ciranda Da Rosa Vermelha”

Teu beijo doce
Tem sabor do mel da cana
Sou tua ama, tua escrava
Meu amor
Sou tua cana, teu engenho, teu moinho
Tu és feito um passarinho
Que se chama beija-flor


Entre as tradições brasileiras, a ciranda é uma das expressões mais fascinantes. Aprendemos a dançá-la ainda na infância (“Ciranda, cirandinha…”), mas é na vida adulta que essa prática passa a ter mais significado. Dança circular sagrada – como outras que aparecem nas muitas culturas ao redor do mundo –, é a encenação dos ciclos, da vida, do movimento dos opostos. Como se não bastasse, é também um convite na forma de dança ritual: a roda começa pequena e vai crescendo, pois é difícil resistir a participar.

Alceu Valença, pernambucano como a própria ciranda, teve o mérito de colocar a dança na boca do povo, sob a forma de canção. É dele “Ciranda Da Rosa Vermelha”, lançada por Elba Ramalho em Baioque (1997) e popularizada por ser o tema dos personagens Emanuel e Grampola na novela global A indomada.

A letra traz algumas assinaturas de Alceu, como a presença de elementos das paisagens de Recife (o engenho, o moinho) e a sensualidade associada à natureza, nos versos “Teu beijo doce / Tem sabor do mel da cana” – o que nos remete às sugestivas imagens de “Tropicana”, um de seus maiores sucessos (“Da manga rosa quero o gosto e o sumo / Melão maduro sapoti juá / Jabuticaba teu olhar noturno / Beijo travoso de umbu-cajá”).

Há também a presença do beija-flor, que serve à metáfora do encontro passageiro, beirando à promiscuidade, já que o passarinho passa por muitas flores em seu voo, sem se fixar em nenhuma. Um verdadeiro suplício para a voz que canta: “Quando tu voas / Pra beijar as outras flores / Eu sinto dores / Um ciúme e um calor / Que toma o peito, o meu corpo / E invade a alma / Só meu beija-flor acalma / Tua escrava, meu senhor”. (Essa passagem me lembra outra joia do repertório de Elba, “Ai Que Saudade Docê”, de Vital Farias, que também traz o beija-flor: “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir / A porta da tua casa / Te der um beijo e partir”). O suplício é reforçado pela interpretação, tingida por certa languidez, de Elba.

Que bela canção!

elba-ramalho.jpg
Elba Ramalho, cantando beija-flores e seus (des)amores.

Em Sol e chuva (1997), o próprio Alceu incluiu o refrão da “Ciranda Da Rosa Vermelha” como uma citação incidental na vinheta “Um Buquê Para Uma Rosa”:

Em 2008, o cantor lançou Ciranda mourisca, uma compilação de canções com sonoridades influenciadas pelo Oriente Médio – região cuja musicalidade permeia boa parte da cultura musical nordestina, com raízes longínquas na Península Ibérica. O álbum traz arranjos praticamente acústicos e seu atrativo é a presença de “Ciranda Da Rosa Vermelha” interpretada pelo autor, pela primeira vez (em Sol e chuva, é um coro que canta o refrão). O arranjo ressalta o clima oriental da melodia, que já fora captado pela própria interpretação de Elba e referenciado em seu videoclipe (em que a cantora aparece trajada como uma dançarina do ventre). Ainda, a letra vem modificada, surgindo como o ponto de vista masculino da versão de Elba: “A rosa vermelha é do bem querer / A rosa vermelha e branca hei de amar até morrer”. Confira:

Finalmente, os dois cantores, Elba e Alceu, dividiram a interpretação da ciranda em O Grande Encontro: 20 anos (2017), numa bela e definitiva performance:

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