107. Plebe Rude: “Pressão Social”

Há uma espada sobre a minha cabeça
É uma pressão social que não quer que
Eu me esqueça
Que tenho que estudar
Que eu tenho que trabalhar
Que tenho que ser alguém
Não posso ser ninguém


Era 1993 e a Plebe Rude, a menos badalada do trio de bandas de Brasília que se tornou conhecido no Brasil (junto com o Capital Inicial e a Legião Urbana), estava reduzida a um duo: restavam os membros fundadores Philippe Seabra (guitarra e voz) e André X (baixo), após a debandada de Jander Bilaphra (guitarra e voz) e Gutje Woortman (bateria).

Mesmo assim, o ex-quarteto produziu um disco, Mais raiva do que medo, que acabou se tornando um fracasso comercial e a obra mais obscura de toda a história da banda (apenas a balada “Este Ano” se tornaria mais conhecida, permanecendo no repertório da banda até hoje). Ali, incluíram a primeira composição da Plebe, “Pressão Social”, fechando o álbum. Para concluí-la, duas participações especiais foram convocadas: os legionários Dado Villa-Lobos e Renato Russo.

Reza a lenda que Renato chegou ao estúdio alterado, se recusando a cantar a letra por inteiro. No microfone, berrou frases desconexas, cantou apenas alguns versos da canção a ser gravada, fez vocalises e ensaiou até “Lithium”, do Nirvana (do então sucesso Nevermind, de 1991). Parte dessa estória é narrada por Carlos Marcelo em Renato russo: o filho da revolução (São Paulo: Planeta, 2016), mas me lembro de ter lido algo a respeito no antigo site da Plebe, no começo dos anos 2000, intitulado Unidade Plebe Rude Oficial.

A postura punk do líder da Legião Urbana rendeu apenas dor-de-cabeça para a produção e mixagem, que se esforçou para, entre um berro e outro, entre um verso aproveitável e compreensível e algum urro, conseguir criar, como um quebra-cabeça, o dueto vocal com Philippe Seabra.

O resultado ficou aceitável artística e afetivamente. Afinal, Renato costumava dizer, em entrevistas, que a banda de Philippe e André era a melhor do Brasil, e vestiu uma camiseta do conjunto na primeira aparição da Legião na TV brasileira (no programa Chico e Caetano, da Rede Globo, em 1985). Se a performance do poeta, na gravação, beira a iconoclastia – e Renato chegou mesmo a questionar alguns versos da canção, como “Que a minha vitória é a derrota de alguém / Que o meu lucro é a perda de alguém”, sem notar que se tratava de uma crítica irônica e premonitória aos efeitos do Consenso de Washington -, a atuação do diabético guitarrista Dado Villa-Lobos é mais discreta, entre riffs aqui e ali e algumas microfonias.

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Philippe Seabra e André X, os rudes plebeus à época de Mais raiva do que medo.

A banda encerrou suas atividades em meados dos anos 1990, após o fracasso de Mais raiva do que medo. No entanto, ensaiou um breve retorno em 2000, com sua formação original. A volta aos palcos gerou um disco ao vivo cujo título entrega a provisoriedade da reunião, ao citar um verso da canção “Johhnny Vai À Guerra (Outra Vez)”: Enquanto a trégua não vem. Ali, consta “Pressão Social” com arranjo e letras originais, sem a intervenção dos legionários:

Em 1998, vários artistas do BRock se reuniram para uma grande jam session no Morro da Urca. Dias depois, Dado Villa-Lobos, que à época comandava a gravadora Rock It! com André X, convidou o time para registrar algumas canções em estúdio. Com algumas covers internacionais (“Sheena Is A Punk Rocker”, “China Girl”, “I Will Follow”, “Lost In The Supermarket”), o repertório foi calcado mesmo nos anos 1980. A Plebe foi lembrada com três clássicos: “Até Quando Esperar”, “Sexo & Karatê” e a própria “Pressão Social”. Apesar de João Barone, dos Paralamas do Sucesso, ter pilotado oficialmente as baquetas na reunião, foi Marcelo Bonfá, da Legião Urbana, quem tocou esta última canção da Plebe. Curiosamente, Bonfá quase participara da gravação original em Mais raiva do que medo. Por outro lado, quem a defendeu desta vez, nos vocais, foi o saudoso Redson, do Cólera. Bom, parte do repertório da Jam foi lançado como brinde num volume da revista Showbizz em 1998, contendo apenas 10 faixas (e corri São Carlos inteira até conseguir comprar uma cópia usada dessa raridade, mais tarde, devorada por meu pai), com o título Jam 80. “Pressão Social” não estava lá, mas foi incluída numa reedição de 2001. O conjunto que tocou a jam foi intitulado Combate Rock (em alusão ao álbum clássico do Clash) e o disco recebeu o inacreditável título O grande encontro do rock. Ao menos, dessa vez pudemos conferir Redson cantando a primeira composição da Plebe, numa vigorosa versão:

Reformulada com a inclusão de Clemente Nascimento, o lendário líder dos Inocentes, a Plebe lançou um bom álbum em 2006 (R ao contrário) e, em 2011, produziu um ótimo DVD ao vivo, Rachando concreto: ao vivo em Brasília. É Clemente quem conduz a faixa, dessa vez:

Finalmente, em 2018 a banda se reuniu para cantar canções nunca antes lançadas, esquecidas no baú de suas origens candangas. O registrou gerou o ao vivo Primórdios – 1981-1983. Novamente, temos um registro com boa veia punk e tocado com muita vontade:

2 comentários

  1. No Brasil não só a plebe é rude,as pessoas ditas finas também são rudes,Brasília que o diga.

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