111. Bebeto Alves: “Milonga Orientao”

Só depois de muito chão
De galho em galho
De grão em grão
Degrau retalho
Quando larguei de mão
Qualquer atalho
Só então
Cheguei aqui e descobri
Que sempre estive aqui


Bebeto Alves, nascido Luís Alberto, veio de Uruguaiana e participou de importantes momentos da música popular sulista – por exemplo, o disco coletivo Paralelo 30 (1978), hoje raridade disputada a tapa.

Mais recentemente, tornou-se conhecido de um público não-gaúcho por conta de suas parcerias com Humberto Gessinger. A primeira que foi registrada na discografia do ex-Engenheiros do Hawaii foi “A Ponte Para O Dia”, uma balada com harmonia e letra solares, iluminando o ótimo Insular (2013).

No ano seguinte, os fãs conheceram “Milonga Orientao”, que traz um trocadilho em seu título, em referência ao conceito chinês de Tao (道), que permeia sistemas filosóficos como o taoísmo, o confuncionismo e o próprio zen-budismo japonês.

Os mais atentos sacaram que, ainda nos anos 1980, Gessinger já fazia referências mais ou menos veladas ao pensamento oriental e sua dialética envolvendo os pares yinyang. Diversas das letras dos Engenheiros do Hawaii brincam com paradoxos e oximoros, bem ao feitio dos enigmas e koans zen. Em O papa é pop (1990), álbum mais bem-sucedido comercialmente da banda gaúcha, o vocalista-baixista posa com uma blusa que mescla a já clássica engrenagem (que permeia toda a iconografia da banda) com o taijitu, o diagrama que costumamos chamar de yin-yang.

Lembro ainda de uma canção como “Mapas Do Acaso” (no último álbum da formação clássica dos Engenheiros, o ao vivo Filmes de guerra, canções de amor, de 1993), que é toda fluidez, movimento e deixar-se levar pelas águas (plácidas ou revoltas), o que nos remete ao wu-wei taoísta (“não-ação” ou, mais propriamente, “ação não premeditada”).

Ou então “Ilex Paraguaiensis”, em Simples de coração (1995), que descreve uma disciplina quase de monastério zen: “Hoje eu acordei mais cedo / Tomei sozinho o chimarrão / Procurei a noite na memória / Procurei em vão”. Não à toa, em sua autobiografia (123 Variações sobre um mesmo tema, Caxias do Sul: Belas Letras, 2009), Gessinger trata esse ato de levantar cedo e beber o mate como “quase ioga”.

Tem também “A Força Do Silêncio”, parceria com Duca Leindecker do Cidadão Quem – e gravada primeiro no álbum 7 (2007) da banda, depois em Ao vivo em Porto Alegre (2010), DVD do Pouca Vogal, o “power duo” de Gessinger com Leindecker. Ali, o eu-lírico observa uma realidade contraditória, em que tudo são berrantes estímulos sensoriais (que não apaziguam os ânimos desejantes de ninguém), e busca se refugiar no silêncio interior (“A fé que me faz / Aceitar o tempo / Muito além dos jornais / E assim mergulhar no escuro / Pular o muro / Pra onda passar”).

Outro exemplo, mais recente, é “Alexandria”, gravada primeiro pelo parceiro Tiago Iorc em Troco likes (2015), depois apresentada no EP solo de Gessinger Desde aquela noite (2017). Perseguindo o refúgio introspectivo diante de um mundo com “Gente de mais / Com tempo de mais / Falando de mais / Alto de mais”, o eu-lírico convida: “Vamos atrás de um pouco de paz”.

Enfim, os sinais sempre estiveram no ar, por isso, a primeira aparição de “Milonga Orientao” (no disco de mesmo título de Bebeto Alves, lançado em 2014) não deveria causar surpresa.

A canção tem características interessantes do ponto de vista instrumental: primeiro, como o próprio título denuncia, trata-se de uma milonga, fincando o som de Bebeto em suas raízes sulistas; porém, é uma milonga com sabor oriental, brincando com timbres e escalas, se não do Extremo Oriente, ao menos do Grande Oriente Médio. Aqui, o mérito é todo do cantor de Uruguaiana, ao trazer à canção a beleza do saz baglama, um instrumento de corda com antigas raízes persas e utilizado na música folclórica árabe. Tudo isso se junta a um vigoroso e distorcido som roqueiro – cortesia do conjunto Los Blackbagualnegovéio, que acompanha Bebeto no álbum.

Já a letra é puro zen, narrando a jornada do encontrar(-se) que, na verdade, dispensa qualquer jornada: “Só depois de muito chão / De galho em galho / De grão em grão / Degrau retalho / Quando larguei de mão / Qualquer atalho / Só então / Cheguei aqui e descobri / Que sempre estive aqui”. Esses versos iniciais me remetem, imediatamente, à velha parábola zen do pastor que vai em busca do boi. Faz mil tentativas para domar o bovino (representação dos instintos vis e dos condicionamentos mundanos), até lograr sucesso para, logo depois, perceber que não era preciso fazê-lo. Então, desapega-se até do objeto de busca. Numa versão mais sucinta, é a narrativa de buscar o boi… montado sobre o boi.

Nos versos seguintes, temas comuns a letras passadas (“A Força Do Silêncio”) e futuras (“Alexandria”) de Gessinger: “Só depois de muito mais / Que o necessário / O silêncio faz o necessário / Depois de muito som / De luz e sombra / Só então descobri / Que sempre estive aqui”. Temos aí a superação de todas as dualidades (consubstanciadas na overdose de impulsos, nos excessos do mundo pós-moderno e seus contrastes, na perda das sutilezas) em direção ao único caminho (Tao) para o apaziguamento, a pacificação dos desejos, o desapego.

Quantas lições!

bebeto-alves-humberto-gessinger.jpg
Bebeto Alves e Humberto Gessinger: parceiros unindo o Sul com o Oriente.

Também em 2014, o próprio Humberto Gessinger incluiu “Milonga Orientao” num lançamento seu, o DVD Insular ao vivo. Ali, a canção recebe tratamento acústico, com Humberto na viola caipira, e tem a participação do próprio Bebeto Alves cantando tocando saz:

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