112. Baby Consuelo: “Lá Vem O Brasil Descendo A Ladeira”

Quem desce do morro
Não morre no asfalto
Lá vem o Brasil,
Descendo a ladeira
Na bola, no samba,
Na sola, no salto
Lá vem o Brasil,
Descendo a ladeira
Da sua escola é passista
De primeira
Lá vem o Brasil,
Descendo a ladeira
No equilíbrio da lata
Não é brincadeira
Lá vem o Brasil,
Descendo a ladeira


O documentário Filhos de João: o admirável mundo novo baiano (Henrique Dantas, 2009) procura explicitar a importância da figura de João Gilberto para a construção da sonoridade e do repertório dos Novos Baianos. Em certo momento, Pepeu Gomes (ou Moraes Moreira, não lembro) entrega que, não fosse o inventor da bossa-nova, a banda teria se forjado por caminhos mais identificados com o rock, talvez até progressivos. Foi João quem os incentivou a se aprofundarem em suas raízes brasileiras, explorando nossos ritmos e instrumentos. Conclusão óbvia: ah, se não fosse João! Certamente, uma das cinco figuras mais importantes da música popular brasileira.

Era 1979 e os Baianos já estavam, de certa forma, consolidados. Não havia esgotamento criativo, pelo contrário. Tanto que as carreiras individuais de Paulinho Boca de Cantor, Pepeu e Baby já começavam a gerar seus primeiros álbuns. Parte desse novo repertório, sem dúvidas, apresenta o jeitão novo baiano de compor e executar canções, sem solução de continuidade em relação à discografia do conjunto/comunidade/time de futebol.

Tomo “Lá Vem O Brasil Descendo A Ladeira”, o tema de hoje, como um exemplo claro de que os baianos construíram projetos individuais que, em boa medida, são ramificações (e não rupturas) das ideias iluminadas pelo padrinho João Gilberto.

A canção, de Pepeu e Moraes, foi apresentada no segundo disco de Baby (ainda Consuelo), Pra enlouquecer! (1979). Samba sincopado com ares de gafieira, trata uma temática social com leveza. Sua origem é narrada por Moraes durante a gravação de seu Acústico MTV (1995):

Mais uma vez João Gilberto presente na minha vida. E a gente tava no Rio de Janeiro, numa madrugada – porque João adora a noite, né? – e, numa daquelas ladeiras maravilhosas do Rio, João viu uma mulata descendo de manhã com toda energia, com todo o seu suingue, já partindo pra vida, né, sem se queixar de nada… e ele olhou e disse assim: “Olha lá! Olha o Brasil descendo a ladeira!”

Assim, a letra dispõe, em sua primeira parte, todos os elementos que compõem o cenário em que a mulher trabalhadora, personificação do Brasil, desfila aos olhos atentos de João: o morro (que deságua no asfalto), as práticas que o imaginário associam à brasilidade (o futebol e a escola de samba) e o suingue, o jogo de cintura, a habilidade de se adaptar a qualquer situação sem perder a ginga (“na sola, no salto”). Já na segunda parte, a cena é descarnada em sua banalidade: não, não é um evento qualquer, é algo a ser celebrado! Daí que, numa milagrosa comunhão de /fazeres/, eis que toda a paisagem se dedica a festejar a descida da ladeira: “E toda a cidade / Que andava quieta / Naquela madrugada / Acordou mais cedo / Arriscando um verso / Gritou o poeta / Respondeu o povo / Num samba sem medo / E enquanto a mulata / Em pleno movimento / Com tanta cadência / Descia a ladeira / A todos mostrava / Naquele momento / A força que tem / A mulher brasileira”.

Adornada por uma batucada de prima, a canção é cantada de forma alegre pela voz gostosa de Baby, que arrisca alguns agudos e brincadeiras com a melodia (justamente no verso “Não é brincadeira”!). Versão clássica e dificilmente superável.

baby-consuelo.jpg
Baby Consuelo, a “força que tem a mulher brasileira” representada no som dos Novos Baianos.

Em Baby Sucessos – A menina ainda dança (2015), Baby reinterpreta a canção. O ouvinte menos atento poderia até pensar que a gravação é da mesma época do registro original: a voz de Baby permanece a mesmíssima. Curta a animação e a pegada de Baby e companhia (contando com Pedro Baby, o molequinho ao colo da cantora na capa de Pra enlouquecer!, na guitarra e nos vocais):

Moraes também gravou a canção no mesmo ano que Baby, e no álbum justamente intitulado Lá vem o Brasil descendo a ladeira. A versão é boa, mas não alcança a potência do registro de sua colega de banda. A versão do Acústico MTV, de que falei no post, é mais animada e descamba de vez para a gafieira, graças ao excelente trombone de Vittor Santos:

Mais pelo valor histórico – e para escutarmos a voz de Pepeu, que também é bonita -, trago a versão do disco Moraes e Pepeu no Japão (1990), que começa calma, mas se converte num bom partido alto lá pelas tantas:

Por fim, tem a versão suingada e moderninha do Samba Um, na coletânea de vários artistas Brazilian summer (2013). Se a interpretação não traz a potência dos demais registros, por conta do andamento mais tranquilo, ao menos tem o mérito de levar “Lá Vem O Brasil Descendo A Ladeira” para as pistas de samba-rock:

1 comentário

  1. Grande cantora a Baby,que não fosse suas esquisitices teria construído uma carreira mais sólida,eu acho.

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