113. Aline Calixto: “Oxóssi”

Oxóssi, filho de Iemanjá
Divindade do clã de Ogum
É Ibualama, é Inlé
Que Oxum levou no rio
E nasceu Logunedé!
Sua natureza é da lua
Na lua Oxóssi é Odé, Odé-Odé, Odé-Odé
Rei de Ketu, Caboclo da mata, Odé-Odé.
Quinta-feira é seu ossé
Axoxó, feijão preto, camarão e amendoim
Azul e verde, suas cores
Calça branca rendada
Saia curta estampada
Ojá e couraça prateada
Na mão ofá, iluquerê
Okê okê, okê arô, okê .
A jurema é a árvore sagrada
Okê arô, Oxóssi, okê okê
Na Bahia é São Jorge
No Rio, São Sebastião
Oxóssi é quem manda
Nas bandas do meu coração


Vinha de 2011, um ano marcado por uma espécie de imersão na cultura afrobrasileira, tanto quanto fosse possível para um nipodescendente ainda envolvido com a pesquisa sobre antepassados japoneses – que rendeu minha primeira aventura literária, o singelo O caminho das artes marciais em São Carlos. Curiosamente, foi o envolvimento com as lutas japonesas (presentes em minha vida desde os sete anos de idade) que me atirou ao estudo e à prática da legítima “arte marcial brasileira”, quando frequentei as aulas de Fundamentos da Capoeira, na Universidade Federal de São Carlos.

O professor, hoje meu amigo Luiz Gonçalves Junior, iniciava as aulas – no antigo ginasinho da UFSCar, espaço para as aulas práticas do curso de Educação Física – sempre com a discussão de algum texto sobre a capoeira, fosse em seus aspectos históricos, conceituais ou motores. Quando a coluna estava doendo por sentarmos ao chão, era sinal de que havia chegado a hora da prática. Assim, começamos com a ginga, depois conhecemos defesas e ataques, aprendemos a tocar os instrumentos, a entoar as canções, e finalmente fomos praticar na roda. Transversais a essas vivências, conhecemos muitos aspectos da cultura afrobrasileira: pudemos ter uma mínima noção do que foi o cruel processo de escravização dos africanos em nosso território, discutimos a formação social da nação brasileira e pudemos compreender como o racismo estava (e ainda está) presente em nossa mentalidade colonizada/colonizadora.

Enquanto as aulas aconteciam no primeiro semestre de 2011, envolvi-me com a escuta atenciosa de um álbum do Batacotô, como já contei ao falar de “Camaleão”, faixa de Ivan Lins e Vitor Martins ali presente. O disco era pura africanidade transladada para a linguagem da canção brasileira e isso, misteriosamente, me chamou o interesse de uma forma que nunca experimentara.

Ao final do ano, aconteceu um congresso na Unicamp e precisei de uma hospedagem solidária. A sempre querida Nicéa entrou em contato com uma amiga sua, Mariana Cestari, que gentilmente me acolheu na casa em que morava sozinha, em Barão Geraldo, a meia hora do campus a pé. Mari era, então, mestranda em linguística e, provavelmente mais nova que eu, despertou em mim imediata admiração, por parecer muito mais adulta, sábia e senhora de si.

O quarto onde fiquei alojado era um escritório com uma biblioteca invejável, o que me instigou a querer conversar por horas com a garota sobre todos aqueles autores – embora nossas agendas, a dela do mestrado, e a minha do congresso, inviabilizassem um contato íntimo a esse ponto. Mas me interessava, sobretudo, o envolvimento de Mari com a cultura afrobrasileira: frequentava o jongo, praticava capoeira (Angola, ainda por cima – eu já me afinizava mais com a Regional) e conhecera Nicéa por intermédio de seu pai, o lendário Mestre Lumumba (aqui, entrevistado por Mariana Nassif).

Minha primeira noite naquele quarto-escritório-biblioteca foi esquisitíssima. Apesar de acostumado com experiências noturnas como sonhos lúcidos e projeções astrais, percebi-me, durante o sono, envolto por uma energia diferente, muito forte, direta, espantosa. Sonhei com cabanas e povos distantes e senti presenças quase tangíveis ao meu redor.

Ao acordar, qual não foi minha surpresa ao ser recebido por Mari com um “Bom dia!”, seguido da assustadora pergunta: “Você conseguiu dormir direito?”. Explicou-me que as pessoas que já dormiram ali sempre relatavam essas estranhas experiências noturnas.

Com a chegada de 2012 e a redescoberta da discografia do Rappa (como contei aqui), e também à luz desse conjunto de vivências de 2011, foi inevitável que eu me aproximasse das religiões de matriz afrobrasileira. Elas já estavam em meu passado remoto – minha mãe chegara a conhecer a umbanda, antes de se envolver com o espiritismo -, mas agora, sentia-me irreversivelmente comprometido: precisava atender a esses chamados, como condição sine qua non para um mínimo de paz espiritual.

Então, atirei-me a leituras que, pouco a pouco, me esclareceram diversos aspectos daqueles sistemas religiosos, coisas que já intuía meramente por ser brasileiro, mas que careciam de teorização e de arcabouço histórico-conceitual. A leitura de O que é candomblé, de João Clodomiro do Carmo (São Paulo: Brasiliense, 2006), foi um passo inicial nessa jornada. E lembro perfeitamente do dia em que, chegando ao capítulo sobre os orixás, prestei atenção às descrições dos diversos deuses e deusas, concentrando-me nas características arquetípicas de seus filhos. Segundo o autor, o panteão do candomblé poderia ser resumido à figura de 16 divindades principais, variando pouco de terreiro a terreiro, mais suas diferentes qualidades.

A verdade é que, ao ler sobre os primeiros orixás ali comentados – Exu, Xangô, Ogum, Iansã, Oxum, Iemanjá – já começava a ficar incomodado com o fato de não me identificar com nenhum deles. Porém, cheguei a Oxóssi e o arrebatamento foi imediato. A identificação foi completa, o que me assombrou por alguns instantes. E lembro que, naquele sábado, num cochilo ao final da tarde, tive mais uma estupenda experiência onírica, adjetivável, mas indescritível.

Dali em diante, minha fascinação pelo orixá só cresceria, até que me deparei com a canção de hoje, “Oxóssi”, composta pelo baiano Roque Ferreira. No caso, tratava-se da versão gravada pela então iniciante cantora Aline Calixto, criada em Minas Gerais, uma deslumbrante figura herdeira da presença e do timbre de Clara Nunes. A canção está no disco de estreia da artista, Aline Calixto (2009).

“Oxóssi” começa com um assovio que, embalado pelas dissonâncias da harmonia, dão um toque de mistério à introdução, como se de fato estivéssemos adentrando no imperscrutável território do orixá das matas. Então, o pulso se desenvolve num envolvente ijexá, a letra se dedicando a narrar o /ser/ de Oxóssi. Orixá que, como disse, vive na floresta, age como o caçador silencioso – daí a introspecção de seus filhos -, estando associado à cor verde, aos caboclos e a uma natureza lunar. A letra ainda fala sobre os alimentos que devem ser oferecidos a ele, sobre suas relações com outros orixás (entre eles, a sempre presente companheira Oxum, com quem deu origem ao filho Logun Edé) e sobre o sincretismo com os santos do catolicismo – no refrão, “Na Bahia é São Jorge / No Rio, São Sebastião / Oxóssi é quem manda / Nas bandas do meu coração”.

Hoje é Dia de São Jorge e, portanto, na tradição baiana, é também dia desse orixá da nação Ketu. Okê arô!

aline-calixto.jpg
Aline Calixto: como diz “Gemada Carioca”, por ela gravada: mimosa, faceira, dengosa, maneira, sambista e calangueira… cidadã brasileira e voz de uma nova e promissora geração de bambas.

A versão original da canção está no álbum Tem samba no mar (2004), do próprio Roque Ferreira. O andamento é mais cadenciado e o canto é mais sofrido. Belo registro, com Luciana Rabello no cavaquinho e Pretinho da Serrinha percussão. Ouça:

A lindíssima cantora brasiliense Renata Jambeiro também gravou “Oxóssi”, antes de Aline Calixto (que, aliás, poderia ser tomada como sua irmã, tamanha a semelhança física, embora seus timbres sejam muito distintos), em seu álbum Jambeiro (2008). É a versão mais alegre, transbordando africanidade:

O grande bamba mineiro Toninho Geraes gravou “Oxóssi” em Preceito (2009), um disco do qual quero trazer alguma canção para o blog, em breve. O arranjo, aqui, está prontinho para ser reproduzido em qualquer boa roda de samba – como, aliás, já vi muita gente fazer:

Finalmente, há a incrível versão da também belíssima Mariene de Castro, em Colheita (2014). O registro tem dois diferenciais em relação às demais gravações: o violoncelo de Jacques Morelenbaum, trazendo sutis ares sinfônicos que caem, incrivelmente, muito bem à versão; e a introdução a partir do conhecido ponto “Eu vi chover, eu vi relampear / Mas mesmo assim o céu estava azul / Samborê, pemba, folha de jurema / Oxóssi reina de norte a sul”. O vozeirão de Mariene é irresistível… confira:

6 comentários

  1. Não sabia que ”Eu vi chover,eu vi relampear” fosse um ponto,ouvi muito quando era criança,achava que fosse um samba da época.

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