115. Garotos Podres: “Rock De Subúrbio”

Em meio à fumaça das chaminés
Ecoam gritos de uma geração
Gritos que são porta-vozes
De uma juventude amordaçada
Ô ô ô, rock de subúrbio


O punk apareceu em minha vida quando tinha de 13 para 14 anos e li, numa revistaria em Ribeirão Preto – durante uma viagem maluca, não sei com que fins, que fiz com meu pai e um grande amigo dele, o Cesinha – uma reportagem sobre as bandas de Brasília. Até então, a imagem mental que a palavra “punk” me despertava estava resumida a vandalismo, roupas rasgadas, cabelos arrepiados. Gente do mal! Mas não que o punk não fosse (também e um pouco de) tudo isso…

Aos poucos, porém, fui conhecendo novos sons roqueiros e compreendendo que diversas canções de minha predileção, sobretudo no BRock, estavam relacionadas aos paradigmas, se não estéticos, ao menos políticos do punk. Em resumo, o punk estava em todo lugar – ao menos em minha singela discoteca.

Por volta dos 15, decididamente disposto a imergir nesse universo, entrei em contato com a obra dos Garotos Podres, meio que por acaso. É certo que, desde o ano anterior, eu já estava ideologicamente mais próximo desse movimento. Um de meus amigos à época, o Caio Souza (por onde anda?), gostava bastante de Sex Pistols e, sobretudo, dos Ramones. (Numa atitude tipicamente, digamos, “punk”, soltou uma enorme gargalhada quando lhe transmiti a notícia de que Joey Ramone havia morrido). Por conta dele, aproximei-me (pouco, é verdade) da produção de algumas bandas estrangeiras, de Bad Religion a Rancid, Blink 182 e NOFX. Na mesma época, a Showbizz encartara num de seus volumes um CD com umas 20 faixas que traziam amostras do punk/hardcore estadunidense de então.

Bom, os Garotos Podres não eram nada disso. Nada. Era apenas uma banda punk do ABC paulista – ou melhor, do Grande ABC, pois provinham de Mauá, cidade ao lado de Santo André. O som era tosco, tosquíssimo, especialmente em seu disco de estreia, Mais podres do que nunca (1985) – que, reza a lenda, foi gravado em apenas um dia. Contudo, as canções eram cativantes. Como não se identificar, aos 15 anos, com um hino como “Papai Noel, Velho Batuta” – que cuspia, com seus três acordes, num dos maiores símbolos do imperialismo opressor? “Anarquia, Oi!” era outra faixa de fácil identificação adolescente – tanto que Caio a expusera na descrição de seu perfil no saudoso ICQ: “Um dia você vai descobrir que todos te odeiam e te querem morto / Pois você representa perigo ao poder! / Anarquia oi, oi! / Eles não querem que você viva / Destrua o sistema antes que ele o destrua / Não acredites em falsos líderes / Pois todos eles vão os trair / Anarquia oi, oi!”. Tirando os erros crassos de conjugação verbal e colocação pronomial, um rock rápido desses – e mais complexo que “Papai Noel…”, pois trazia quatro (!) acordes e até um solo de gaita (!!!) – captava imediatamente a atenção de meus instintos esquerdistas, à época, já timidamente assumidos para a família e os amigos.

Porém, os Garotos sobreviveram a um segundo lançamento – Pior que antes (1988), que trazia letras mais elaboradas, como em “Proletários” e “Subúrbio Operário”, além da impagável “Batman” – e editaram, em 1993, Canções para ninar. A produção era notavelmente melhor que a dos registros anteriores e o álbum trazia ao menos uma excelente canção: “Rock De Subúrbio”, tema de hoje.

Um rock acelerado que se desenvolve numa envolvente sequência de apenas quatro acordes, a canção gerou o primeiro videoclipe da banda e tem ares épicos – ou tão épicos quanto possível, no contexto punk. Meio manifesto, meio chamado à ação artístico-política, fala sobre “gritos de uma geração” e uma “juventude amordaçada”, cuja liberdade é defendida pelo “rock de subúrbio”. A segunda estrofe foi a que me fisgou, pelo vocabulário explícito e, quem diria, rebuscado: “Quero ver cada garagem da periferia / Pulsar o ritmo da revolta / Queremos subverter a ordem burguesa / Que existe na música e na arte”.

É verdade que, espremendo Canções para ninar, não se aproveita tudo: o lado-A é ok com o hardcore de abertura “Oi, Tudo Bem?”, o deboche sobre o ex-presidente Collor em “Fernandinho Veadinho”, o hard-rock anti-imperialista “Saddam Hussein Is Rock N’ Roll” e a então anacrônica “Censura Idiota”; no lado-B, salvam-se apenas a canção de hoje e a comovente “Aos Fuzilados da C.S.N.”. Já faixas como “Surfista De Pinico”, “Verme” e “Mordomia” são quase constrangedoras – mas, e daí?

A banda ainda amadureceria um pouco mais – ao menos instrumentalmente – no próximo disco de estúdio, Com a corda toda (1997), assumindo uma posição política mais clara (e mais comprometida com o socialismo científico, abandonando o sincretismo de outrora, que atirava num liquidificador trostkismo, anarquismo e um perigoso flerte com o oi!, adotado por hooligans skinheads).

Mas Canções para ninar foi um passo essencial para consolidar os Garotos Podres – e, sobretudo, para incluir a figura de seu carismático vocalista Dr. Mao (então Mau, hoje professor universitário) no panteão dos personagens mais curiosos da música brasileira.

garotos-podres
Garotos Podres, com Mau à frente: o som do punk rock, com ideais esquerdistas, bagunçando o rock nacional.

“Rock De Subúrbio” – composta por Mau e pelo guitarrista Mauro – se tornou um clássico instantâneo, vindo a intitular o primeiro registro ao vivo da banda, Rock de subúrbio – Live! (1995). A apresentação, precaríssima, rendeu esse disco simplesmente bizarro, que sequer edita os silêncios entre uma canção e outra. Difícil ser mais punk que isso! No entanto, a obra não flagra nem uma fração da energia mobilizada numa apresentação ao vivo da banda – e posso falar com a autoridade de quem assistiu a dois shows dos Garotos. Mais legal é o registro no segundo álbum ao vivo, Live in Rio (2001), que você escuta indo direto para os 8’21”:

Em 2002, a Rotten Records lançou 20 anos de podridão, um merecido tributo à banda. A curiosidade fica por conta da presença do Ultraje a Rigor, defendendo “Saddam Hussein Is Rock N’ Roll” – o que é irônico, considerando a posição política liberal do vocalista Roger Rocha Moreira (que, mais ironicamente ainda, foi o produtor de Canções para ninar!). “Rock De Subúrbio” aparece, ali, numa incompreensível versão ska dos alogoanos do 88 Não:

O resultado é melhor no caso da regravação dos paulistas do Asteróides Trio, no quase EP Punkabilly – tributo rockabilly ao punk nacional (2013). Nunca havia imaginado uma roupagem anos 50 para “Rock De Subúrbio”… mas ficou legal:

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