116. Alexandra Nicolas: “Coco”

Peguei no taco,
Com o taco bati no coco
Que o coco deu um pipoco
Por pouco o coco não cai.
Galo, no oco
Do toco, que ronda o choco,
O galo tá no sufoco
Dá soco que o galo sai.


Em 2012, a escuta de Santo e orixá (2007), de Gloria Bomfim, me atirou à obra do compositor Paulo César Pinheiro, o que já relatei no post dedicado a uma faixa desse álbum, “Sultão Do Mato”. Para continuar em contato com esse que é, provavelmente, o maior cancionista nascido em solo brasileiro, adquiri seu Capoeira de Besouro (2011) – que encerra com um samba de roda reverente à “Lapinha”, também já tematizada aqui.

Mas era pouco. As canções de Paulinho davam um sentido especial àqueles dias e, em 2013 – quando já reunia uns bambas para ensaios abertos na USP às sextas, tocando várias canções de sua lavra -, prossegui na busca por títulos que coligissem suas composições, deparando-me com um lançamento especialíssimo: o álbum Festejos (2012), então, ainda recente. A obra, da cantora maranhense Alexandra Nicolas, traz 13 faixas compostas por Paulinho (algumas, com coautores), homenageando as mulheres e as tradições e ritmos típicos do Brasil, especialmente do Nordeste.

No encarte, um texto do compositor expõe de forma sucinta os intentos do projeto:

Alexandra queria fazer um disco louvando as mulheres brasileiras, trabalhadoras e festeiras, do sertão e do litoral, da roça e do subúrbio, da capital e do interior. Ofereci os meus guardados, onde ela mergulhou por um bom tempo. De lá ela trouxe as morenas artesãs do porto de Cabedelo na Paraíba, as iaiás do samba da região da cana do Estado do Rio e Pernambuco, as dançadeiras soberanas dos ritos de caboclo, as avós e bisavós ancestrais de todos os ritmos índios e negros país afora, as lavadeiras dos cantos de lagoas e rios do Oiapoque ao Xuí, as dançarinas do boi-bumbá de sua terra, as feiticeiras da Casa de Mina mirongando ao som do pé-no-barro do tambor de crioula, as arrumadoras da bandeira do Divino, as passistas dos terreiros das escolas de samba, todas rodando as suas sete saias nas rodas de coco e curima do Brasil mestiço.

Acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou.

A maior parte do repertório de Festejos é composta de sambas, mas há outros ritmos, como o baião e o coco. Este último está representado em duas faixas: “Coco Da Canoa” e a própria “Coco”, tema de hoje.

“Coco” não apenas traz uma amostra do que é afinal o coco, parte da cultura brasileira que, infelizmente, muitos de nós aqui no Sudeste desconhecemos. A canção tem uma letra que, de início, parece simplesmente impossível de ser cantada. Confira no encarte, de preferência, escutando a faixa:

coco.jpg

Em entrevista para Pedro Sobrinho, Alexandra conta que sempre cantou, mas que sua carreira musical foi irregular, tendo se profissionalizado mesmo como fonoaudiológa. Então está explicado! Só uma especialista em fonoaudiologia conseguiria manter a dicção perfeita nesse verdadeiro trava-línguas. Ou não? É Alexandra quem responde, ao fazer um faixa-a-faixa de Festejos, na mesma entrevista:

O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana [Rabello, a famosa cavaquinista e esposa de Paulinho, diretora musical de Festejos] me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… é lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

Na entrevista, a cantora se refere ao espetáculo Senhora das candeias (2009), que deu origem a Festejos. Em seu canal no YouTube, é possível assistir a uma gravação do show, no momento didático: quando Alexandra irá ensinar o público a cantar o “Coco” (vá até os 7’47” do vídeo abaixo… e divirta-se!):

E, no próximo vídeo, a inacreditável performance ao vivo de “Coco”, sem cola ou teleprompter – e observe que Senhora das candeiras é um senhor espetáculo, mesclando música com balé:

Em tempo: se você quiser assistir à gravação completa do espetáculo (que inclusive tem como convidada Gloria Bomfim cantando “Encanteria”, que foi tema do blog na versão de Maria Bethania, também fazendo parte de Santo e orixá), clique aqui.

alexandra_nicolas.jpg
Alexandra Nicolas: dando voz aos festejos brasileiros de Paulo César Pinheiro.

2 comentários

    1. Sim, de fato parece. Paulinho tem um enorme conhecimento sobre cultura popular e, provavelmente, compôs o “Coco” pensando nessas tradições já arraigadas e decantadas.

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