117. Roberto Ribeiro: “Coisas Da Vida”

E o sol já não brilha
As flores sem perfume
Natureza ausente
Numa vigília a fora, oi
Numa vigília a fora


Roberto Ribeiro, nascido em Campos dos Goytacazes, foi um dos grandes bambas que o Rio de Janeiro legou ao Brasil. Morto prematuramente em 1996, aos 55 anos, seu nome é lembrado em toda boa roda de samba, graças a pérolas como “Propagas” e “Acreditar” – esta, composta por Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, está na boca do povo, tendo sido gravada por Diogo Nogueira e Vanessa da Mata, entre outros.

Em 1979, Ribeiro lançou o LP Coisas da vida, sempre lembrado por faixas como “Vazio” e “Partilha”. No entanto, considero a faixa-título, que encerra o disco, sua verdadeira joia.

De Jorge Marcelo e Zelito, a canção traz um contorno melódico passional, de forma a ressaltar o estado disjuntivo exposto na letra – que, a partir do tema do saudosismo, clichê do samba, discorre sobre uma realidade degradada, caótica, infértil.

O brilho e o sol, elementos que aparecem exaltados em diversos sambas, aqui já são negados logo na primeira estrofe, que funciona também como uma espécie de refrão: “E o sol já não brilha”. O andamento, aqui, é acelerado, o que traz a sensação de que a desolação é perene, já naturalizada pela voz da canção – que, confirmando essa impressão, não enfatiza o estado passional, restringindo o canto à parte mais grave da tessitura.

Em verdade, a passionalização só se desenvolve plenamente na segunda (e última) estrofe, que traça um quadro mais concreto, em que a desordem no plano macro se reflete nas pequenas coisas do cotidiano. O andamento é, então, desacelerado, e a voz passa a explorar notas mais altas: “Um pandeiro calado / Um cavaco quebrado / Um apito entupido / Um surdo sem marcação / Uma sandália esquecida / Num terreiro vazio / Uma vela se apaga / Num pires cheio de pó / Uma mosca enjoa / Há mal cheiro na vala / Pano sujo na mesa / Toalha que limpa a cara / E se falar a verdade / Das coisas tristes da vida / No peito tristeza é que dói / Assim eu levo meu canto / Sangrando em desencanto / E se me alerto pra vida / É obra de puro espanto”.

Contextualizemos Coisas da vida: o disco foi lançado em pleno ano de anistia (“ampla, geral e irrestrita”), quando a ditadura civil-militar ensaiava iniciar a abertura política, no mandato de João Figueiredo. Note que as imagens traçadas nessa estrofe passional, sem que precisemos forçar a barra, trazem diversas referências às violências do regime político: desde a censura (materializada no pandeiro calado, no cavaco quebrado e na impossibilidade de que os demais instrumentos possam fazer soar música) até os desaparecimentos políticos (a sandália esquecida de quem foi capturado à força, as velas e orações dos parentes, culminando no cadáver lançado numa vala clandestina), tudo isso embalado por um léxico que é pura disforia (mosca, enjoa, mal cheiro, tristeza, dói, sagrando, desencanto, espanto).

E após o expurgo (ou seria confissão?) das agonias, o retorno, se não à normalidade, ao menos à dor engulida a seco: “E o sol já não brilha”…

Coisas da vida.

roberto-ribeiro.jpg
Roberto Ribeiro: uma voz potente cantando as coisas da vida (mas não apenas elas) em plena ditadura.

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