118. Maria Rita: “Cara Valente”

Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir
Foi escolher o mau-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar com o coração


Maria Rita se tornou conhecida em todo o Brasil em 2003, ano em que lançou seu álbum de estreia, intitulado simplesmente Maria Rita. O disco trazia arranjos sóbrios e de ótimo gosto, além de um hit instantâneo: a releitura de “Encontros E Despedidas” (clássico de Milton Nascimento e Fernando Brant), tema de abertura da novela global Senhora do destino – a última que acompanhei, trazendo a vilã Nazaré Tedesco (interpretada por Renata Sorrah), que povoa o imaginário brasileiro até hoje, por sua índole ao mesmo tempo asquerosa e fascinante.

Maria Rita não apenas apresentava ao público uma artista promissora se esforçando para construir um caminho próprio (considerando o peso da figura materna sobre a intérprete, filha de ninguém menos que a maior cantora que o Brasil conheceu, Elis Regina), mas trazia (mais) luzes para cancionistas que, dali em diante, representariam uma nova e prolífica geração de compositores da MPB – como Vitor Ramil, Lenine e Marcelo Camelo. Este, por sinal, se fazia ouvir em Maria Rita em nada menos que três faixas: “Veja Bem, Meu Bem” (do repertório de seu grupo Los Hermanos, apresentada no magnífico Bloco do eu sozinho, de 2001), “Santa Chuva” e a canção de hoje, “Cara Valente”.

É interessante observar que, no mesmo ano, o Los Hermanos lançara Ventura (cabeça-a-cabeça com Bloco do eu sozinho), cuja música de trabalho era “Cara Estranho”:


Quem são esses dois “caras” de Marcelo Camelo? Haveria alguma relação entre o “Cara Valente” e o “Cara Estranho”?

Ora, vejam-se as respectivas letras.

“Cara Estranho” descreve um personagem que, desde o início, está deslocado: “Parece não achar lugar / No corpo em que Deus lhe encarnou”. Apesar de alguns versos sugerirem apenas um tipo desengonçado – “Tropeça a cada quarteirão / Não mede a força que já tem” –, o que se segue ajuda a delinear com mais precisão o caráter desse sujeito. Aparece, então, a incapacidade de demonstrar o afeto (“Exibe à frente o coração / Que não divide com ninguém”) e o velho expediente da máscara (“Talhando feito um artesão / A imagem de um rapaz de bem”).

E liguemos os pontos: trata-se de um indivíduo derrotado, triste, mesquinho, amargurado, mas que se abriga numa imagem artificialmente construída (e me lembro, então, daquele cidadão/rapaz de bem, posando de moralista com a indefectível arminha na cintura). Os próximos versos não mentem: o perfil do sociopata se completa com doses cavalares de carência e exibicionismo (“Olha ali quem está pedindo aprovação”), temperadas com um profundo ceticismo niilista (“Não sabe nem pra onde ir / Se alguém não aponta a direção / Periga nunca se encontrar”), sobre uma espessa camada de ressentimento e medo (“Será que ele vai perceber / Que foge sempre do lugar / Deixando o ódio se esconder” – e a relação entre esses dois sentimentos seria brilhante e didaticamente exposta, quase 15 anos depois, por Chico Buarque em “As Caravanas”: “Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”).

(Parêntesis. No mesmo Ventura, há “O Vencedor”, também de Camelo. Segundo o compositor, a canção foi composta após uma eliminação no Big Brother, quando o concorrente eliminado fora chamado, no auditório, de “um vencedor”. A letra, que coloca essa fobia da derrota como um indesejável predicado, é certeira ao traçar o perfil de um sujeito que poderia ser aquele mesmo protagonista de “Cara Estranho”: “Olha lá, quem vem do lado oposto / Vem sem gosto de viver / Olha lá, que os bravos são / Escravos sãos e salvos de sofrer / Olha lá, quem acha que perder / É ser menor na vida / Olha lá, quem sempre quer vitória / E perde a glória de chorar / Eu que já não quero mais ser um vencedor / Levo a vida devagar pra não faltar amor”. A pilha de troféus, fruto da barganha entre a paz de espírito e a imagem de uma inabalável fortaleza, apenas acoberta um poço de desgosto e frustração.)

E quem é o “Cara Valente”? É esse mesmo sujeito: apesar da imagem inquebrantável (“Não, ele não vai mais dobrar / Pode até se acostumar / Ele vai viver sozinho”), é mesquinho (“Desaprendeu a dividir”), acomodado em sua ignorância (“Foi escolher o mau-me-quer / Entre o amor de uma mulher / E as certezas do caminho”) e desamado (“Não pôde se entregar / E agora vai ter de pagar com o coração”); em resumo, um miserável (“Olha lá, ele não é feliz”). Tudo isso sob um máscara de valentia e masculinidade inabalável (“Sempre diz que é do tipo cara valente / Mas, veja só, a gente sabe / Esse humor é coisa de um rapaz / Que sem ter proteção / Foi se esconder atrás / Da cara de vilão”) que, afinal, só deixa patente sua insegurança – talvez por conta de uma sexualidade racalcada?

Mas esse refúgio na persona do macho-pegador-garanhão-cara-de-mau-músculos-à-mostra não engana ninguém. Todos sabem que é apenas uma forma de acobertar um caráter vacilante e uma auto-estima pra lá baixa. E como o sujeito é o cara valente que não se dobra, não fala de sentimentos ou de amor nem morrrrrta, jamais se deitaria num divã ou aceitaria conselhos (ainda mais de uma mulher, que é a dona da voz na canção), só nos resta é rir de alguém tão infeliz, cuja embalagem não convence ninguém: “Então, não faz assim, rapaz / Não bota esse cartaz / A gente não cai, não / Ê! ê! Ele não é de nada / Oiá!!! Essa cara amarrada / É só um jeito de viver na pior / Ê! ê! Ele não é de nada / Oiá!!! Essa cara amarrada / É só um jeito de viver nesse mundo de mágoas”.

Curiosamente, tal interpretação sobre as canções já fora proposta no blog Acheronta Movembo!, ao tratar da presença de temas psicanalíticos na obra dos Los Hermanos:

[…] Cara estranho. Não há retrato mais digno da castração do que nessa composição que narra uma pessoa desalojada em seu ser, desassossegada em seu corpo-carne à mercê do gozo alheio. Cara estranho é sujeito castrado, e Miller concordaria com isso (Vale dizer que também o tal “Cara valente” é tão castrado quanto, mas talvez, por encenar tão bem possuir o falo, possa parecer um homem mais viril, na verdade, o cara valente é o mesmo cara estranho).

Irretorquível!

maria-rita
Maria Rita: indo além da herança genética de Elis.

Ouça também a versão do próprio autor, em Ao vivo no Theatro São Pedro (2013):

2 comentários

  1. Muito bom o texto.Quanto à Maria Rita,eu só posso dizer que não me convenceu como cantora até hoje.

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    1. Eu também tenho minhas reservas à Maria Rita, mas fui me convencendo, aos poucos, do enorme talento da moça. O problema é que as comparações com a Elis são inevitáveis – e, afinal, injustas.
      Grato pelo comentário.

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