119. Toninho Geraes: “Preceito”

Malungo, olha lá o barra-vento
Que o som do aguerê vai te levar
Malungo, respeita fundamento
Que o santo mandou respeitar
Falei, não deu valor
A força do preceito lhe pegou
Falei, você se embaraçou
Se é da mironga, tem que ser conhecedor


Toninho Geraes nasceu em Belo Horizonte mas se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde ganhou notoriedade como compositor de sambas. Diversos deles foram gravados por gente do quilate de Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Beth Carvalho.

Geraes também tem se arriscado como intérprete de suas obras, e o disco Preceito (2009) traz uma boa amostra de como sua voz (com um timbre meio rasgado que, em sambas vibrantes, se ajusta muito bem) e seu jeito meio malandro podem render excelentes materiais, que nada devem aos grandes nomes que mencionei no parágrafo anterior.

A própria “Preceito” é uma amostra do enorme talento de Geraes como cantor e compositor. Feita em parceria com Roque Ferreira, a canção traça uma espécie de crítica à banalização dos ritos afrobrasileiros. A voz que canta, pertencente a alguém com a autoridade (possivelmente, um babalorixá) para chamar a atenção do “malungo” a quem se dirige, explica que a “A comida que é de santo / É pra quem sabe preparar”. A disciplicência de quem não se atentou aos preceitos do candomblé – frequentemente tido como uma religião “inculta”, desprovida de escrituras e, por isso, sem requerer dotes intelectuais de seus praticantes, acusados de primitivos – há de ter consequências: “Sem saber mexer na coisa / Deu dendê pra Oxalá / E botou comida branca / No peji de Beira-Mar / Hoje em dia tá pagando / Que é pra nunca mais errar”.

Recomendo também uma audição atenta de outras faixas de Preceito: a abertura, com “São Longuinho”, traz uma abordagem bem humorada de outros rituais, dessa vez, do catolicismo popular; “Comida Mineira” reconecta o sambista com suas origens mineiras, por meio de sua maravilhosa culinária; “Pago Pra Ver” e “Seu Balancê” são suas versões para obras gravadas por Zeca Pagodinho; “Partido Remendado (O Rato Roeu)” é um partido espertísssimo com uma divertida letra repleta de trava-línguas; “Oxóssi” é a bela homenagem ao orixá, de que já falamos aqui; “Desacerto” é o ponto mais melancólico do álbum, um samba que também seria regravado por Zeca (em Vida da minha vida, de 2010); e como faixa-bônus, a ótima “Alma Boêmia” (que Diogo Nogueira incorporaria a seu repertório em 2016), que brinca com os nomes dos morros cariocas: “Morros dos prazeres / Que você me dá / Quando eu não sair de marola / Eu vou te levar / Você dorme cedo / Eu só vou deitar / Quando dou o tom na viola / Pro galo cantar”.

Toninho Geraes é a prova de que o samba continua vivíssimo. Vida longa a esse incrível bamba.

toninho-geraes
Toninho Geraes, incluindo Minas como no mapa dos grandes berços do samba.

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