120. CPM 22: “Anteontem”

Estava tão triste
Quando você me disse
Que havia algo errado entre nós
Meu mundo girava e o seu controlava
O que havia de errado no meu
Eu descia as escadas, as velhas escadas
Sem medo de olhar o que eu deixei pra trás
Eu continuo do mesmo lado
E não vou mudar minha opinião


Eis que me vi, há algumas horas, em uma situação imprevista e inusitada. Descobrira, ao fim da tarde de ontem, que à noite haveria um show do CPM 22 na Praça do Mercado, aqui em São Carlos – onde passo minhas ligeiras férias. O show, na verdade, deveria ter ocorrido no domingo, mas foi adiado por conta de um baita toró que chegou a alagar algumas de nossas baixadas.

De fato, ouvira falar sobre um show no domingo mas, nada disposto a sair, sequer tive a curiosidade de me informar sobre quem tocaria de graça para nós, espectadores da tradicionalíssima Festa do Clima (a propósito, a dileta plateia do blog tinha ciência de que São Carlos ostenta o simpático – e profundamente falso – título de Cidade do Clima?).

Pois bem, tirei disposição não-sei-de-onde e fui. E o que imaginei como uma experiência enfadonha, dado meu atual desinteresse pelo som da banda paulista, se revelou como uma agradável e nostálgica noite de clima ameno.

Minha única – e mais desejada – profecia se cumprira perfeitamente: reencontrei alguns velhos conhecidos, cuja permanência em minha cidade natal é sempre sinônimo de, primeiramente, espanto: você ainda mora aqui? E passada a surpresa, vem a alegria de receber um beijo ou um abraço, um sorriso aberto e algumas rápidas novidades – sempre degustadas com muita atenção, já que não disponho de redes sociais para manter o contato e as informações atualizadas.

Foi assim, por exemplo, que trombei Rita, presença constante em alguns rolês musicais mais ou menos à época em que estive de mudança para Santo André. O mesmo impacto que tive em revê-la (pois já não nos encontrávamos há alguns anos – mas menos do que eu contabilizo, segundo ela) me acomete ao perceber que fomos colegas de pós-graduação por muito tempo, sem sequer trocarmos um único cumprimento pelos corredores do Instituto de Química de São Carlos. Foi a frequência constante ao saudoso St. Patrick’s Pub – que animava algumas de minhas noites, desde 2007 – o que nos aproximou e criou uma amizade natural, como se sempre fôssemos próximos.

Outro encontro que me alegrou foi com a Gabi, aluna de minhas últimas aulas no ensino médio, na então Escola Estadual Jardim dos Coqueiros, hoje Escola Estadual Aduar Dibo. É verdade que havia outras alunas daquela mesma época por ali – Stefany, Jady, Denise -, mas Gabi foi a única que se interessou em chamar minha atenção, talvez por desembaraço ou franca admiração, se surpreendendo por eu lembrar seu nome. Disse a ela (citando meu chapa Bolão, ao lembrar dos bordões de alguns docentes-carrascos que encontramos na universidade) que um professor nunca esquece dos bons e dos maus alunos. Ela deu risada, tendo a certeza de que a considerava não apenas uma ótima aluna, mas uma estudante especial, sempre dedicada e atenciosa, aquela bailarina com sonhos de se tornar jornalista (como bem me recordo de uma redação que ela escreveu, a título de sondagem dos interesses profissionais de nossos pupilos).

Gabizinha nasceu em 1998, época de minhas primeiras imersões no universo do rock n’ roll, universo este que fascina todo bom adolescente com tendências a se rebelar – com ou sem causa. (No meu caso, sem causa, sem dúvidas). Como contei aqui, a partir dessa época, não tardaria a que eu me identificasse mais e mais com o punk, que notei como uma constante em meio a tantas canções que ia (re)conhecendo dia após dia.

Em 2001, esse envolvimento juvenil com o rock me levou a conhecer o Danilo Pinheiro, um chapa com uma expressão séria (e algo inerte) que camuflava um temperamento expansivo e muito bem-humorado, com suas imitações de Silvio Santos que tanto nos entretiam. Quem nos apresentou foi o Alberto Lanzoni (por onde anda?), à época, meu amigo mais próximo (e maior rival) nos treinos de karate. Como eu e o Al começávamos a arranhar violões e guitarras, a ideia de montar uma banda soava natural – e imperativa. Danilo se tornou o vocalista, com sua voz grave, e esse núcleo – eu no violão, na guitarra e, em momentos temerosamente cruciais, no baixo; Alberto na guitarra; e Danilo nos vocais, embora já tomasse suas primeiras lições de baixo elétrico – resistiu até meados de 2003, atravessando várias formações de nosso conjunto sem nome.

Nunca recebemos nenhum tostão furado para tocar onde quer que fosse. Em geral, era contrário: pagávamos para participar de churrascos e oferecíamos nossos (limitados) dotes musicais para animar as festas. Os organizadores quase sempre aceitavam. Numa dessas ocasiões, fomos a uma chácara e fizemos uma apresentação elétrica, mas sem bateria. Lembro que toquei o baixo Fender de cor creme do Danilo, naquela tarde agradável em meio a um pessoal mais ou menos conhecido – os dois estudavam no mesmo colégio, de onde provinham a maior parte dos convites para os churrascos, e eu era apenas um intruso (mas logo, convidado honorário) nos encontros daquela turma.

Algum de nossos pais nos levou ao local do evento, mas não tínhamos pensado em como iríamos voltar. Milagrosamente, um dos convidados já era maior de idade (éramos todos pirralhos de 16, no máximo 17 anos) e nos assegurou três lugares de honra em seu carro, como recompensa por nosso esforço (ou consolação pela vergonha passada) em proporcionar o fundo musical. Então estávamos na estrada de terra, que conduzia da chácara à rodovia e à zona urbana, quando percebi que os auto-falantes tocavam um som interessante e inédito aos meus ouvidos. Antes de perguntar do que se tratava, prestei atenção: era um hardcore muito bem tocado, com vocais juvenis (como nós dentro do carro) e, quem diria, letras em português.

Acho que ainda não havia nome para isso que logo se tornaria moda. Talvez já circulasse o termo emocore por aí, mas éramos alheios. De toda forma, gostei muito do som, que me remetia vagamente a algumas canções dos paulistanos do 365 – banda elogiadíssima pelo meu pai, que vivia cantarolando o refrão de “São Paulo”, da qual tomei conhecimento durante as reprises de 1999 do programa Fábrica do som da TV Cultura, apresentado por Tadeu Jungle. (A propósito, demorou para tematizarmos um 365 nesse 365 Canções Brasileiras, hein?).

Já ciente do nome do conjunto – CPM 22 -, fui correndo tentar escutar mais daquele som quando cheguei em casa. Acabei ouvindo o próprio disco que tocou em nossa generosa carona, uma espécie de álbum independente chamado A alguns quilômetros de lugar nenhum (2000) – hoje, raridade vendida a preço de ouro (e reza a lenda que nem os membros do CPM 22 possuem dele sequer uma cópia). Com uma produção surpreendentemente esmerada (destaque para os timbres de guitarra), o disco era um compilado de boas composições – era o que eu pensava na época – e muitas delas tocaram bastante em minhas playlists: “Regina, Let’s Go!”, “O Mundo Dá Voltas”, “Mais Um Dia”, “Peter”, “Vai Mudar?”. Mas a favorita era um punk acelerado com o curioso título “Anteontem”.

Nunca tinha pensado na possibilidade de uma canção tematizar o anteontem. O ontem, sim – como, aliás, o CPM 22 faria com a própria “Ontem”, no álbum Chegou a hora de recomeçar (2002), a propósito, com um título um tanto precoce, dado ser apenas o terceiro lançamento da banda (que atualmente já soma dez obras oficiais, afora as coletâneas). Afinal, ontem pode ser uma designação poética para o passado, de forma geral. Mas e o anteontem? Será que o compositor, o guitarrista Wally, gostaria de ressaltar que a canção tem como tema um passado nem tão imediato quanto o ontem (= dia anterior), mas nem tão remoto e geral quanto o outro ontem (= passado)? De fato, prestando atenção à letra, fica a sensação de que o eu lírico recebeu o impacto de uma decepção amorosa num passado recente (anteontem) mas, já com as ideias no devido lugar após um dia de reflexão (ontem), decide tocar adiante, armado de nova atitude: “Sobre os meus próprios passos / Vou caminhar / Sobre os meus próprios passos / Nunca mais vou errar”.

Se era esperado que a banda tocasse, por exemplo, “Regina, Let’s Go!”, a presença de “Anteontem” no repertório desse inesperado show – de ontem – foi uma grata surpresa, que me levou de volta ao sabor daquela época em que ouvir um punk mais acelerado, dentro de um automóvel e junto com sua própria banda, era um importante capítulo de nosso amadurecimento, inocentemente compreendido também como pequeno ato de rebeldia.

Tenho certeza que o show também foi nostálgico para Rita… e espero que, para a Gabi, tenha sido uma experiência também significativa para sua (ainda abundante) juventude – como ouvir “Anteontem”, pela primeira vez, o foi para mim.

cpm-22.jpg
CPM 22, nos tempos de A alguns quilômetros de lugar nenhum: barulho de qualidade para embalar rebeldias (e corações) adolescentes.

A versão de “Anteontem” que abre post foi extraída do álbum CPM 22 (2001), a estreia a banda em uma grande gravadora, após a experiência independente de A alguns quilômetros de lugar nenhum. As versões são muito parecidas, exceto pela timbragem, principalmente da bateria (mais encorpada no registro de 2001). Há também a versão – com um pouco mais de punch – do MTV ao vivo (2006).

Fiquemos com a segunda gravação ao vivo da canção, do Ao vivo no Rock In Rio (2016)Impressionante como Badauí mantém aqueles mesmos vocais juvenis de 2000! Confira no volume máximo:

4 comentários

  1. Aquela banda que nos transporta para lembranças da adolecencia. Na verdade no meu caso acredito que era inicio da vida adulta, mas não vou entrar neste detalhe..rsrs. Apesar de “anteontem” ser o tema do post, confesso que na minha história o passado mais imediato (“ontem”) teve mais presença. Parabéns pelo post!

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