123. Alcione: “Um Ser De Luz”

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar


Há dois dias, perdemos uma das grandes vozes do samba e da própria canção popular brasileira: Beth Carvalho.

Tive o prazer de já homenageá-la em vida, neste blog (clique aqui). Nem por isso me consolo: a partida da Madrinha do Samba deixa um espaço que dificilmente será ocupado, pois se vai não apenas uma incrível voz ou uma grande intérprete, mas um ser humano magnífico.

O legítimo ABC das cantoras de samba dos anos 1970 sofre, assim, mais uma perda irreparável: sem Beth e sem Clara, nos resta apenas Alcione. Falemos hoje justamente sobre a homenagem desta última a Clara Nunes, por intermédio do samba “Um Ser De Luz”, composição de João Nogueira, Mauro Duarte e o viúvo Paulo César Pinheiro.


Em 1992, no programa Ensaio, João se orgulha de já ter saudado Clara com “Mineira” (no LP Vem que tem, de 1975), sem imaginar que a amiga partiria menos de uma década depois, o que iria requerer um novo tributo. Você pode assistir à gravação do programa abaixo, e ir direto para os depoimentos sobre Clara no instante 37’15”:

Para facilitar, vou transcrever o depoimento de João sobre a história de “Um Ser De Luz”:

A morte da Clara foi talvez um dos momentos de emoção mais forte e de tristeza que, não só eu, mas todos nós tivemos, porque ela teve uma morte lenta. Existia, entre todos nós, o Brasil inteiro… existia uma esperança de que ela pudesse se recuperar, ficar entre nós.

Fizemos de tudo… tudo o que você puder imaginar: procuramos todos os amigos, os maiores médicos, os maiores cirurgiões, os maiores macumbeiros, os maiores esoteristas, enfim, tudo o que a gente podia fazer a gente tentou. Foram 20 dias de muita angústia… sempre com uma esperança, mas muita angústia, de não se poder nem dormir. Fizemos de tudo mas, infelizmente, não deu; a voz do Senhor falou mais… mais alto.

E três dias depois da Clara ter morrido, apareceu uma música no [programa] Fantástico [em homenagem a ela], uma música que já tinham ou fizeram, e aquilo me deu muita tristeza. Alcione tinha falado pra mim: João… (depois de algum tempo, né, depois de uns 20 dias)… falou: João, eu li uma frase do… do – [tenta lembrar]… como é o nome, rapá? – do Artur da Távola que chamava a Clara de “um ser de luz”. E fomos a uma missa da Clara, uma missa ecumênica, que foi lá na Portela, com todas as religiões e tal. E, ao sairmos de lá (todos fomos de branco), fomos a um restaurante jantar, ali em Jacarepaguá, e o (saudoso também) Mauro Duarte tava cantarolando um negócio assim [e cantarola a melodia do refrão de “Um Ser De Luz”]. E aí, eu já tinha começado a fazer um samba: “Um dia, um ser de luz nasceu…” E aquilo que ele cantarolou ali, me deu essa impressão de que o que eu tava fazendo, se juntasse ali, ia… era o mesmo samba que nós estaríamos fazendo sem termos nos falado. Daí falei com ele, ele achou que sim também, e nós fomos procurar o Paulinho Pinheiro pra fazer a letra da música junto conosco.

Ele tava super abatido, sangrando e… “Não, não”. E aí eu o convenci, falei: “Paulinho, três dias depois que a Clara morreu, já tinha um samba dela no Fantástico. Tinha muita gente fazendo samba pra ela já quando ela tava no leito. E nós que somos autores que mais gravamos com ela, temos a obrigação de fazer um samba que seja definitivo, pra que nenhum outro… pra que nenhum outro nem se atreva”. E aí fizemos “Um Ser De Luz”, eu, o Mauro Duarte e o Paulinho Pinheiro.

Choramos muito pra fazer… era, cada vez que a gente se encontrava, era um derramar de lágrimas. E saiu lá, a Alcione gravou e, graças a Deus, foi sucesso.

Dessa dolorosa estória nasceu um dos sambas mais requisitados em toda boa roda, até hoje. Ninguém melhor que Alcione para gravá-lo pela primeira vez, em Almas & corações (1983): a potência vocal da Marrom garante que os versos de Paulinho e companhia verdadeiramente ecoem pelo ar, como diz a letra.

Lindo também é o coro que entoa os versos finais – com gente como os compositores João e Mauro, Luiz Carlos da Vila, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara e a própria Beth, maior rival de Clara, aqui num momento de nobreza – dando corpo à despedida propriamente dita, com a cantora eternizada em espírito (o sabiá cantor): “Sabiá / Que falta faz tua alegria / Sem você, meu canto agora é só / Melancolia / Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá / Adeus, meu sabiá, até um dia”.

Uma homenagem justíssima e à altura da grande personalidade de Clara.

Só nos resta torcer que Beth (que também gravou um samba belíssimo intitulado “Clara”) receba os devidos tributos.

alcione.jpg
Alcione: com “Um Ser De Luz”, a necessária homenagem à amiga Clara Nunes.

Existem muitas e muitas regravações de “Um Ser De Luz” (inclusive da própria Alcione, sendo que a abertura do post não é a gravação original, mas uma releitura de 1998, extraída do álbum Celebração).

Como é de praxe nesses casos, vou postar apenas minha favorita, referente à interpretação da belíssima Mariene de Castro no Sambabook João Nogueira (2012). Que voz! Confira: 

4 comentários

  1. Me lembro bem da Alcione cantando essa música em alguns programas televisivos da época,e que voz tinha Alcione!

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