124. Djalma Dias: “Capitão De Indústria”

Eu
Às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu
Às vezes penso em fugir
E quero até desistir
Deixando tudo pra trás
É
É que eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu
Não sei da vida, da estrada, do amor e das coisas
Livres, coloridas
Nada poluídas


“Capitão De Indústria” foi composta pelos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle para a novela global Selva de pedra. A canção foi lançada em sua trilha sonora, de 1972, na voz do cantor mineiro Djalma Dias.

O andamento é o de um balançado soul, emulando o ritmo frenético de trabalho que perpassa a vida do narrador. Este, se queixa do cansaço e da ausência de tempo: “Não tenho tempo de ter / Um tempo livre de ter / Ou nada ter que fazer”. Afinal, tudo o que faz de sua vida é direcionado ao trabalho – “Acordo pra trabalhar / Eu durmo pra trabalhar / Eu corro pra trabalhar”, que é a forma mais poética e detalhada de dizer “vivo pra trabalhar”, quando o ideal seria “trabalho para viver”.

É interessante pensar nesses versos à luz das considerações teóricas sobre o trabalho, desde os primeiros ensaios do materialismo histórico. Marx e Engels, ao pensarem uma crítica ao modo de produção capitalista, anteviram a possibilidade de novas relações de produção (socialistas), engendradas a partir das próprias estruturas do capitalismo. Nesse novo mundo, que iniciaria a verdadeira história da humanidade (pois o mundo do capital representaria, ainda, um estágio de nossa pré-história, pois tolhe o desenvolvimento onilateral dos indivíduos), o homem poderia até mesmo vir a se libertar da necessidade de dispender tempo: primeiro, porque essas novas relações não visariam a elaboração contínua de produtos a partir da invenção de sempre novas demandas, pelo contrário, se ajustariam ao atendimento das necessidades já existentes, o que dispensa a preocupação com a redução dos tempos de produção de mercadorias com vistas ao acúmulo de capital pelo industriário; segundo, porque o elevadíssimo grau de desenvolvimento dos próprios instrumentos de produção capitalista já poderiam libertar o homem da maior parte das tarefas mecânicas, não apenas industriárias, mas também as cotidianas.

Com relação a esse segundo fator, note-se que, em que pese o tempo livre que determinados instrumentos tecnológicos nos proporcionam (o exemplo mais claro é a máquina de lavar roupas), essas horas economizadas raramente são revertidas em “tempo livre de ter” ou “de nada ter que fazer”, como propõe a canção. Na sociedade capitalista, que inculca a ideologia de que tempo = dinheiro, acabamos por barganhar essa liberdade (proporcionada pelas máquinas) por novas formas de acumular riqueza ou, o que é o mesmo, de aumentarmos nossa produtividade. Esse tempo livre não é convertido em lazer ou em aprimoramento cultural, é mobilizado para continuarmos movendo a roda do acordo/durmo/corro pra trabalhar.

A voz que canta “Capitão De Indústria”, apesar de vacilar em direção ao escapismo (“Eu / Às vezes fico a pensar / Em outra vida ou lugar […] / Eu / Às vezes penso em fugir / E quero até desistir”), acaba por se resignar, não sem antes perceber sua própria alienação. Ainda utilizando o jargão marx-engelsiano, podemos observar esse termo, na canção, sob duas maneiras: como o fato de o trabalhador, explorado pelo industriário, não se reconhecer no produto que ele próprio produziu (“É / É que eu me encontro perdido / Nas coisas que eu criei / E eu não sei”); e como impossibilidade de conhecer um outro mundo que não a prisão fábrica/trabalho, emsimesmando-o (“Eu / Não sei da vida, da estrada, do amor e das coisas / Livres, coloridas / Nada poluídas”). O que sobra a esse trabalhador, para o qual tudo é degradação, poluição e, numa palavra, negação (“Eu /  Não vejo além da fumaça que passa / E polui o ar / Eu nada sei”), é apenas o título que ostenta diante de operários ainda mais desumanizados: “Eu / Só sei que tenho esse nome honroso, pomposo / Capitão de indústria / Capitão de indústria”.

Uma verdadeira aula de economia (política) e de história.

djalma-dias
Djalma Dias: a voz que encarnou a exploração capitalista no balanço de “Capitão De Indústria”.

“Capitão De Indústria” ficou conhecida pelo público por conta de Selva de pedra, e retornaria à mídia de massa com a deliciosa regravação, no meio termo entre o reggae e o ska, que os Paralamas do Sucesso apresentaram em Nove luas (1996).

É interessante observar a posição da faixa no álbum: é como se a obra dos irmãos Valle inaugurasse uma pequena suíte de quatro canções com o mesmo tema, a desumanização pelo trabalho e a busca pela humanidade perdida.

Assim, temos “Capitão De Indústria”, que enfoca a reflexão de um trabalhador a partir da realidade concreta de sua atuação fabril.

A seguir, “Caminho Pisado”, um rock de guitarras pesadas que se inicia com a constatação de que os dias úteis (de trabalho) são seguidos dos inúteis (pois o descanso é também desperdiçado em uma rotina satrianamente absurda): “Da cama pro banho, do banho pra sala / O sono persiste, o sol já não tarda / A vida insiste em servir um velho ritual / Que sempre serve a tantos outros / O mesmo pão servido aos poucos / Se senta e abre o jornal / Tudo parece normal / Um dia a menos, um crime a mais / No fundo, no fundo, no fundo, tanto faz”.

A doce “Busca Vida” aponta a solução provisória para esse estado de coisas, esbarrando perigosamente na estratégia escapista do início de “Capitão De Indústria”, mas apostando na contemplação idealista como única possibilidade para suportar a rotina, deixando “toda a dor pra trás”. Aqui, o explorador capitalista é tomado, algo ingenuamente, como anti-exemplo: “Ele ganhou dinheiro / Ele assinou contratos / E comprou um terno / Trocou o carro / E desaprendeu a caminhar no céu / E foi o princípio do fim”.

Por fim, “O Caroço Da Cabeça” (composta com os titãs Nando Reis e Marcelo Fromer) coloca novamente todo o raciocínio então construído sob suspeita; de que vale pensar tanto, se o cérebro é apenas o caroço da cabeça? Novamente, eis o trabalhador autoconsciente de sua condição alienada, mas resignado, o que nos conduz de volta ao personagem de humanidade atrofiada em “Capitão De Indústria”: “Pra ver / Os olhos vão de bicicleta até enxergar / Pra ouvir / As orelhas dão os talheres de escutar / Prá dizer / Os lábios são duas almofadas de falar / Pra sentir / As narinas não viram chaminés sem respirar / Pra ir / As pernas estão no automóvel sem andar / E os ossos serão nossas sementes / Sob o chão / E dos ossos as novas sementes / Que virão”.

Ouça a paralâmica versão de “Capitão De Indústria”:

A regravação possui uma versão com letra em espanhol, que você pode escutar aqui.


Há mais duas gravações a serem destacadas.

No Songbook Marcos Valle – vol. 2, Erasmo Carlos continua a sequência de registros que remontam à musicalidade africana (primeiro o soul na versão original de Djalma Dias, depois os ritmos jamaicanos no som dos Paralamas), levando “Capitão De Indústria” para um balanço funk. Em Nove luas, Herbert e companhia limaram ou adaptaram certas passagens da letra original; essa é a letra que o Tremendão canta (com exceção da inclusão de um pequeno refrão: “capitão de indústria!”). Além disso, destaco a participação de dois pianistas: o sempre craque Cristovão Bastos e o próprio Marcos Valle. Confira:

Em 2008, a coleção Um barzinho, um violão lançou um volume dedicado às novelas do anos 1970. Coube a Herbert Vianna, sozinho ao violão, defender “Capitão De Indústria”, adaptando o arranjo de sua gravação com os Paralamas. Versão gostosa para uma canção que, à época, estava ausente do repertório ao vivo da banda de Brasília/Rio (agora, felizmente reincluída em suas apresentações):

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