126. Cássia Eller: “Mal Nenhum”

Nunca viram ninguém triste?
Por que não me deixam em paz?
As guerras são tão tristes
E não tem nada demais
Me deixem, bicho acuado
Por um inimigo imaginário
Correndo atrás dos carros
Como um cachorro otário


Cazuza e Lobão, nos anos 1980, eram dois sujeitos parecidos (tenho minhas dúvidas se, ainda hoje, o seriam). Àquela época, as afinidades lítero-musicais se somavam às personalidades impulsivas de ambos, sendo natural que surgissem, dessas aproximações e da admiração mútua, algumas parcerias.

Uma das mais conhecidas é “Mal Nenhum”. Raphael Vidigal, do Esquina Musical, explica a gênese da canção:

Em 1985, ambos expulsos de seus respectivos grupos, Barão Vermelho e Os Ronaldos, encontraram-se no Baixo Leblon e, por sugestão de Cazuza, iniciaram parceria musical. A música “Mal nenhum”, lançada por Cazuza em seu primeiro disco solo, Exagerado, de 1985, foi apresentada pelo cantor pela primeira vez durante o Rock In Rio daquele ano, ainda na companhia do grupo Barão Vermelho. Antes de cantá-la Cazuza faz uma defesa, a seus modos, de Lobão. O autor da letra afirma que o texto diz respeito a “uma fase em que nem eu me aguentava. Andava meio agressivo e o Lobão estava parecido comigo”. Já Lobão, responsável pela melodia diz que “apesar de parecer simples, foi bastante trabalhada”. O que emerge deste conjunto é uma música visceral, lírica, recado de uma geração para seus afetos e opressores.

O sujeito da canção é uma espécie de pária da sociedade – e faz todo sentido ouvi-la na voz do mesmo Cazuza que se queixaria, em 1989, na incrível “O Tempo Não Pára”: “Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro”. Enquanto os olhares alheios o condenam – retirando as crianças da sala quando sua imagem é transmitida na televisão, criminalizando suas atitudes, estigmatizando-o enquanto desajustado ou doente mental –, o personagem só deseja permanecer em conjunção com seu próprio ser, ironizando quem fiscaliza seus modos “Correndo atrás dos carros / Como um cachorro otário”.

Os versos mais impressionantes, para mim, são aqueles que mencionam os instintos destrutivos e autodestrutivos do herói da canção, “Me deixem amolar e esmurrar / A faca cega, cega da paixão / E dar tiros a esmo e ferir / O mesmo cego coração”, para desaguar no refrão “Eu não posso causar mal nenhum / A não ser a mim mesmo”. Versos que caíram como uma luva também para Lobão e, de forma mais impressionante, para a intérprete definitiva da canção, Cássia Eller.

Em 1997, a cantora brasiliense gravou Veneno antimonotonia, dando novo frescor a 14 composições de Cazuza. “Mal Nenhum”, a penúltima faixa do álbum, colhe o melhor dos dois arranjos originais:

Da versão de Cazuza, o ar deprimido e melancólico do blues…

…e da de Lobão (também lançada em 1985, ainda com os Ronaldos, num compacto que trazia também “Décadence avec élégance”), a explosão final, com o andamento acelerado e a letra sendo bradada como um desabafo.

Assim, a versão de Cássia – que reunia todos os predicados para também se passar por uma maldita da canção popular, como o foram, de certa forma, Lobão e, em menor grau, Cazuza – emerge como uma espécie de síntese: é a mais elaborada, mais bem executada, mais pesada. Ninguém, senão Cássia, conseguiria extrair tanta pungência da letra de Cazuza, que parece ter sido feita para essa brilhante intérprete cantar.

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Cássia Eller: uma grande voz que crescia, ainda mais, interpretando os versos do poeta Cazuza.

No Som Brasil Cazuza (1995), tributo que gerou um disco de mesmo nome, Lobão reaparece para cantar “Mal Nenhum” numa versão mais pesada de seu próprio arranjo, e que parece ter inspirado a gravação de Cássia dois anos depois (um detalhe comum é o toque do chimbal da bateria com o emprego de fusas):

Lobão tornaria a interpretar a canção na turnê de divulgação do DVD Lino, sexy e brutal (2012), de forma acústica, acompanhado apenas de seu violão de 12 cordas (como chegou a fazer em 1999, vindo inclusive tocar esta e outras canções para nós caipiras de São Carlos – e esses foram shows inesquecíveis!):

Por fim, como curiosidade histórica, tem a primeira apresentação de “Mal Nenhum” em um grande show, na performance do Barão Vermelho no primeiro Rock in Rio (lançada como disco em 1992 e relançada em 2007). Note que a canção ainda estava se encontrando… e o arranjo, que começa parecido com a versão de Lobão, em breve se encontraria no blues que Cazuza gravou em “Exagerado”. Ouça:

4 comentários

  1. Não conhecia nenhuma das gravações – Quanto à similitude entre Cazuza e Lobão,pois é,eu acho que o primeiro não ia conseguir involuir tanto quanto o segundo.

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