127. Ilcéi Mirian: “Mineira Guerreira”

Mineira
Essa mulher é Guerreira
O samba que corre nas veias
No canto de um sabiá
Filha de Ogum chegou
Ela é de jeje e nago
É Clara, Clara Nunes, a festeira
Uma chama que incendeia
Foi Ogum que abençoou, até o mar serenou


Dois dias atrás, pude reviver uma experiência que, até há cinco anos mais ou menos, integrava uma espécie de ritual: apreciar um bom samba no projeto Sons da Tarde, nos domingos do Sesc São Carlos. Aliás, já fazia bastante tempo que eu não conseguia comparecer em dia de samba, pois o projeto reveza ritmos ao longo do mês.

Cheguei praticamente junto com o início do espetáculo, sem prestar muita atenção ao palco. Uma canção de abertura de trabalhos era entoada enquanto eu comprava minhas fichas de suco integral (e hoje agradeço à Lei Seca por me obrigar a não beber cerveja nesse tipo de ocasião), até que a cantora, ao centro do palco, deu as boas vindas ao público e antecipou o próximo número: “Pelo Telefone”, a primeira canção brasileira a ser oficialmente registrada.

“Pelo Telefone” veio unida com “Yaô”, do Pixinguinha, o que me fez acender as luzes de alerta. E após 10 minutos de espetáculo, eu já fitava a cantora Ilcéi Mirian com admiração, definitivamente conquistado por sua simpatia e presença de palco, pelo belo timbre de sua voz e pela beleza de sua figura.

Foi uma tarde não apenas nostálgica, por me conectar com outras tardes que passara naquele espaço enquanto ainda morava em São Carlos, mas também vibrante, alegre, inesquecível. Passo tão pouco tempo em minha terra que, diante de tais situações, me esforço para desejar não estar em nenhum outro lugar: um presente festivo assim me basta.

Isso porque o repertório foi generoso e cobriu muitas décadas de produção cancional no contexto sambista. É certo que minha intuição, misteriosa e infalivelmente, me alertara sobre a presença de “Maracangalha” (composição de Dorival Caymmi que raras vezes ouvi ao vivo), numa suíte de homenagem à música baiana, contando também com “O Samba Da Minha Terra”.

Mas os outros números não foram tão previsíveis, embora não menos acertados, focando em alguns de nossos maiores sambistas: de Noel Rosa, não apenas a imprescindível “Com Que Roupa?”, mas também “Fita Amarela”; Paulinho da Viola com “Argumento”; uma emocionante releitura de “Preciso Me Encontrar”, de Candeia, famosa na voz de Cartola que, aliás, foi representado por “O Sol Nascerá”; “Na Cadência Do Samba”, de Ataulfo Alves; e “Tiro Ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa, representando o samba paulista.

Gostei muito também da farta presença de obras eternizadas por nossas intérpretes: “Alguém Me Avisou”, de Dona Ivone Lara; “Isso É Fundo De Quintal”, de Leci Brandão, canção que em si mesma já encerra uma homenagem a muita gente; e, claro, Beth Carvalho, deixada para o final apoteótico, com “Coisinha Do Pai” e “Vou Festejar”, esta no bis. Mas emocionei mesmo com a bela surpresa que foi ouvir “A Deusa Dos Orixás”, a primeira canção de Clara Nunes que me fisgou.

Gostei tanto do show que, ao final, fui cumprimentar pessoalmente a Ilcéi e, lógico, fazer uma propaganda do blog, um pouco envergonhado de tamanha ousadia, mas já convicto de que poderia tematizar aqui alguma das canções originais que ela nos apresentou (a envolvente “Samba De Roda” era uma séria candidata). Comprei seu álbum Minha identidade (2010), que estava à venda ali mesmo, e passei ontem e hoje escutando as 14 canções com atenção.

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Ilcéi Mirian, intérprete que mantém acesa a chama do samba, no interior de São Paulo e em outros terreiros.

O disco traz um bom apanhado da produção dos sambistas paulistas contemporâneos, e privilegia temas que são assinaturas dos sambas das antigas (ou dos sambas que, saudosamente, celebram tempos passados): como já disse, o samba de roda, os candeeiros que iluminavam os barracões até meados do século passado, os sinhôs e sinhás, as festas nos terreiros, os santos protetores (“São Jorge Guerreiro” é um partido delicioso) e a vida na favela (tema representado por duas faixas, “Força Da Comunidade” e “Favela”, de que gostei mais, com a participação do rapper Douglas, do grupo Realidade Cruel).

Ilcéi, que além de cantora e cavaquinista, é licenciada em História, também canta sobre a formação social do Brasil (“Inventor Do Brasil”) e sobre quem mantém vivas as tradições negras brasileiras (“Tributo À Velha Guarda”).

Acabei escolhendo, para trazer ao blog, justamente a última canção do disco – coincidentemente (considerando um de nossos últimos posts, além do momento que mais me emocionou no show a que assisti no Sesc), uma homenagem a Clara Nunes.

Intitulada “Mineira Guerreira”, a faixa (composta por Ideval Anselmo e Henrique Pimentel, e trazendo a participação da cantora Bernadete) é um samba acelerado, como as duas canções que seu título homenageia (“Mineira”, cantada por João Nogueira, e “Guerreira”, da própria Clara).

Foi muito curioso, aliás, observar que “Mineira Guerreira” consta na epígrafe de um trabalho acadêmico de análise das canções de Clara. A autora, Monique F. C. Vargas (Nos enredos do banho de manjericão: uma análise das práticas mágico-religiosas de matrizes africanas na produção audiovisual de Clara Nunes nos anos de 1970/80. In: Anais do III Seminário Internacional História do Tempo Presente, 2017, Florianópolis), justifica a referência afirmando que seus versos traduzem o interesse em se investigar cientificamente a obra da cantora.

A letra é cheia de alusões a outros títulos da discografia da sambista: lá estão menções a “O Mar Serenou”, “Lama”, “Tristeza Pé No Chão”, “Ijexá”, “Menino Deus” e “Na Linha Do Mar”. Também é citado o tributo póstumo “Um Ser De Luz”, culminando no lamento: “Chora Madureira, todo Brasil chorou / Fecham-se as cortinas, triste sina / Porque o show acabou”.

Mas sabemos que o show nunca vai acabar, o samba nunca irá morrer, o violão nunca calará – e isso graças a cantoras como Ilcéi Mirian, uma bela surpresa de Campinas, que vim a conhecer anteontem.

(E quem duvidar, consulte meu amigo Gilmar, o renomado Siri da Capoeira Sankofa, cuja companhia, naquela tarde, referendou o ar nostálgico da situação – e me deu uma saudade danada do tempo de nossas rodas de samba às sextas-feiras… né não, Mestre?).

3 comentários

    1. Que bom que gostou! É sempre uma alegria quando um som mais novo consegue sensibilizar os visitantes, mostrando que a canção popular brasileira continua viva. Grato pelo comentário.

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