128. Lula Côrtes e Zé Ramalho: “Nas Paredes Da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé”

Quando as tiras do véu do pensamento
Desenrolam-se dentro de um espaço
Adquirem poderes quando eu passo
Pela terra solar dos cariris
Há uma pedra estranha que me diz
Que o vento se esconde num sopé
Que o fogo é escravo de um pajé
E que a água há de ser cristalizada
Nas paredes da pedra encantada
Os segredos talhados por Sumé


Foi em 2001 que ouvi falar sobre Paêbirú: caminho da montanha do sol (1975), primeiro lançamento comercial do paraibano Zé Ramalho, acompanhado do pernambucano Lula Côrtes. O disco era mencionado na revista Showbizz numa lista de 10 grandes obras da psicodelia brasileira. Eu, que à época já começava a conhecer melhor as canções de Zé, fiquei intrigado com o álbum, sem vislubrar que pudesse escutá-lo algum dia.

Isso aconteceria em 2007, graças à boa e velha internet, pois o disco era (e ainda é) raríssimo. Contam-se diversas lendas para explicar a exiguidade de exemplares de Paêbirú. A mais conhecida, certamente, é que diz ter ocorrido uma enchente que destruiu 1.000 das 1.300 (?) cópias originalmente prensadas, além das próprias fitas master. O fato é que, hoje, um exemplar do LP de 1975 custa em torno de 5.000 mangos – apesar de circularem algumas cópias, por aí, lançadas pelo selo Mr. Bongo. (E o crítico Mauro Ferreira informou, há pouco, que a raridade voltou a ser editada pela série Clássicos do Vinil, mediante parceria da Polysom com a Rozenblit, gravadora original do álbum).

O folclore que envolve o disco, apesar de interessante, não é nada comparado ao seu próprio conteúdo. As faixas estão divididas nos quatro lados (do LP duplo) intitulados de acordo com os quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Assim, trata-se de uma obra conceitual e, acima de tudo, coletiva. Participaram da concepção de Paêbirú não apenas Lula e Zé Ramalho, mas também outros amigos que, mais tarde, ganhariam maior notoriedade, Alceu Valença e Geraldo Azevedo – além de músicos inquestionáveis como Ivson Wanderley, Zé da Flauta, Paulo Rafael e Jarbas Mariz.

O disco representa uma imersão no misticismo, na mitologia e nas estórias que envolvem o sítio arqueológico paraibano da Pedra do Ingá. Tudo gira ao redor da entidade conhecida pelos indígenas da região como Sumé, aludida em suas narrativas orais e nos desenhos rupestres ali encontrados. Há quem diga que Sumé foi um ser humano comum, vindo de algum outro continente (já ouvi a história de que se trata do próprio São Tomé!); mas as lendas também o descrevem como um extraterrestre que desembarcou no Ingá a partir do ar, e há quem considere se tratar do próprio Ashtar Sheran, entidade que lideraria um conselho galáctico do qual Jesus Cristo faz parte, como responsável/representante da Terra. (Enfim, na mística envolvendo Sumé, cabe todo tipo de maluquice).

Assim, Paêbirú tem momentos tão loucos e incompreensíveis como as estórias acima (por exemplo, na suíte de abertura que engloba todo o lado “terra”, “Trilha De Sumé”, “Culto À Terra” e “Bailado Das Muscarias”), mas também traz faixas de elevada delicadeza, como as instrumentais “Harpa Dos Ares” e “Beira Mar”.

Na faceta louca/inclassificável/descontrolada, o grande destaque é a canção tematizada hoje, com o longo título “Nas Paredes Da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé” e pertencente ao incendiário lado “fogo”.

À época em que conheci o álbum, li em algum lugar que a faixa poderia ser definida como o que seria dos The Doors se eles tivessem nascido no Nordeste. Perfeito! “Nas Paredes…” é exatamente isso: um complexo e intrincado improviso que envolve baixo, bateria, guitarras, sopros e teclados, muitos teclados. É como se o “Roadhouse Blues” fizesse uma viagem de ácido no sertão, trombando cangaceiros e tupinambás. (Prefiro considerar que talvez seja a primeira incursão brasileira no que hoje se chama de jazz fusion).

A letra é formada por quatro estrofes com dez versos decassílabos, utilizando a forma conhecida como martelo agalopado, sempre concluindo com o mote: “Nas paredes da pedra encantada / Os segredos talhados por Sumé”.

A melodia, por fim, é provavelmente o que mais chama a atenção (além da viajante letra que narra a importância e descreve as façanhas atribuídas a Sumé). Indefinível… mas talvez eu possa arriscar dizendo que ela mistura a inquietude de um repente cordelista com a ludicidade de uma cantiga infantil.

Bom, só ouvindo mesmo.

lula-cortes-ze-ramalho.jpg
Zé Ramalho e Lula Côrtes, com a Pedra do Ingá ao fundo: arautos da psicodelia na canção popular brasileira.

Duas canções de Paêbirú reapareceriam na discografia solo de Zé Ramalho: “Não Existe Molhado Igual Ao Pranto”, do lado “ar”, que seria gravada com o título levemente alterado para “Não Existe Molhado Como O Pranto” no álbum Cidades e lendas (1996); e a própria “Nas Paredes…”, agora intitulada simplesmente “Os Segredos De Sumé”, no clássico (e também relativamente psicodélico)  A força verde (1982), completamente rearranjada como um arrasta-pé de Caruaru. Prefiro a viagem da versão original, mas confesso que também escutei muito essa versão: 

Embora Paêbirú tenha sua “Beira Mar”, a faixa não se relaciona diretamente com a saga desenvolvida por Zé em três canções de álbuns distintos, baseadas em suas investidas na literatura de cordel: “Beira-Mar” (A peleja do Diabo com o Dono do Céu, 1979), “Beira-Mar – Capítulo II” (A força verde, 1982) e “Beira-Mar – Capítulo Final” (Eu sou todos nós, 1998). Fiz um compilado dessas quatro diferentes faixas numa lista no YouTube, que você pode acessar aqui.


“Nas Paredes…” foi redescoberta décadas depois de Paêbirú por diversos intérpretes.

A regravação que mais gosto é a de Roberta de Recife (filha do lendário guitarrista e produtor Robertinho de Recife), lançada em Nordestina (2000). A versão transforma a psicodelia original da canção num agreste baião, cheio de rabecas, contando ainda com a participação do próprio Zé Ramalho – que é o grande atrativo do registro, por cantar, agora, já com sua característica voz recitada e cavernosa (considerando que seu timbre era ainda bem juvenil no disco de 1975). A faixa foi incorporada também à coletânea Duetos (2004), título da discografia do Zé. Confira:

Alguns anos antes, o próprio Zé Ramalho cantou na regravação da banda recifense Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis, no disco epônimo de 1995. Aqui, “Nas Paredes…” conserva alguns riffs do arranjo original, mas foi transformada mesmo num acelerado rock que se equilibra entre o ska e o hard. Os vocais de Zé, nesse registro, estão mais próximos dos de Paêbirú: 

Em 2016, foi lançada a coletânea No abismo da alma – um tributo ao Movimento Udigrudi, organizada pelo jornalista Leonardo Paladino (leia mais aqui no Tramp). Coube aos cariocas do Supercordas defender “Nas Paredes…”, tratada com admirável reverência ao arranjo original, ainda que com um acento indie. Vale a pena escutar… e viajar: 

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