129. Gilberto Gil: “Aquele Abraço”

O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março
Alô, alô, Realengo
Aquele abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele abraço


Em fins dos anos 1990, a rede de farmácias Droga Raia organizou quatro coletâneas, na forma de CDs, que eram entregues como brindes aos clientes que alcançavam um determinado valor em compras.

Minha avó, iniciando sua jornada de aposentada entre mais e mais medicamentos, acabou ganhando a coletânea referente aos “anos 70” (cada uma das quatro cobria uma década, dos 50 aos 80). Como a Dona Nilde não possuía aparelho para escutar as então moderníssimas bolachinhas, o CD acabou vindo parar nas minhas mãos – proporcionando uma riquíssima iniciação à MPB, ao menos para um garoto de 11 anos que não tinha outros recursos, para ouvir boa música, senão o dial das FMs.

droga-raia.jpg
Mais tarde, consegui os volumes dos anos 50 e 60. Faltam os 80 para completar a coleção.

A faixa de encerramento era um samba com uma ginga malandra, e bastante animado: “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil. À época, achava que não haveria forma melhor para concluir aquele pequeno passeio por 14 números do melhor da música brasileira do período. Mesmo assim, dentre todos os artistas representados na coletânea, penso que Gil foi o que menos acabei escutando nos anos seguintes. Esses dias mesmo me flagrei assistindo ao seu Acústico MTV (1994) e pensando: “por que nunca dei tanta atenção a esse gênio?”

Ao mesmo tempo, a leitura da edição comemorativa de 20 anos de Verdade tropical (3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017), o aclamado livro de Caetano Veloso, tornara patente o quão incômoda era a ausência de Gil neste blog. E quando li as palavras de Caê sobre “Aquele Abraço”, achei que seria uma boa ideia tematizá-la aqui, somando-se ao fato de a canção, como disse, estar presente em minha vida desde o fim da infância.

Para além de tudo isso, há um fato acontecido ontem, também relacionado ao Verdade tropical. No capítulo “Narciso em férias”, em que Caetano narra os dias que passou preso arbitrariamente pelo regime de exceção, o cantor baiano descreve o inacreditável e intrigante sistema divinatório (análogo ao I-Ching ou ao jogo de búzios) que acabou por elaborar em suas últimas semanas de cárcere:

Eu tinha desenvolvido um sistema de sinais e de gestos mágicos cada vez mais complicado. E uma monstruosa sensibilidade para interpretar os sinais, aliada a uma não menos monstruosa imaginação para criar os gestos. Como naquele dia em que, na PE [Polícia do Exército], me levaram para cortar o cabelo, e eu, a partir de detalhes mínimos, pude me aproximar da definição do que ia acontecer (chegando a antecipar a adjetivação do ato iminente sem alcançar-lhe o substantivo), eu agora percebia que um esquema de números, imagens e perguntas era capaz de me dar acesso ao conhecimento do que estava por vir, se lido com perícia. Uma bem maior excitação mental – consequência da melhoria das condições materiais – contribuía para que o sistema se sofisticasse. E, enquanto na Barão de Mesquita eu apenas temia que “Súplica” [sucesso na voz de Orlando Silva] e baratas fossem de mau agouro, aqui no PQD [quartel dos Paraquedistas do Exército, última unidade prisional que frequentou] comecei a distribuir significados a todas as canções que eu cantasse ou que ouvisse. E a efetuar contas matemáticas com o número de vezes que via baratas ou que uma canção era ouvida ou cantada. Primeiro isso se deu com um repertório parco: eu cantava ou assoviava alguma canção; um soldado o fazia; às vezes um sargento parava ali perto com um rádio. Quando eu próprio consegui um radinho de pilha (que um sargento me emprestou e que eu escondia sob o travesseiro toda vez que me avisavam da aproximação do oficial de dia), várias canções – cujo valor divinatório eu ia testando à medida que elas se repetiam – entraram no jogo e cheguei, no fim, a advinhar com absoluta exatidão o dia, a hora e o local onde me encontraria para receber a notícia da liberação (p. 384-385).

Pois bem, ontem, antes de sair para almoçar, atualizei a lista de canções que planejei para os próximos dias. Ao recopiar, numa folha de papel mais nova, parte das canções que estavam na lista anterior toda riscada, parei e ponderei muito antes de reescrever “Aquele Abraço”. Ora, se o post sobre o Caetano fora sobre uma canção sua recente e relativamente obscura, não deveria fazer o mesmo com Gil? (Uma séria candidata, nesse sentido, era “Parabolicamará” – que nem é mais tão recente, nem mesmo obscura, pois constava na trilha da novela global Renascer, que foi, merecidamente, um sucesso estrondoso em 1993). E saí de bicicleta pensando um pouco nessa questão. Quando terminei minha refeição no restaurante Mama Jambo, tendo pela primeira vez superado a timidez e exposto a ideia deste blog para as duas garotas que sempre me atendem quando lá vou (Amora e Bianca), percebi que uma trilha fazia fundo ao som do trânsito daquela Rua Carlos Botelho. O fluxo de veículos estava algo congestionado, não havendo muito espaço nem para minha pequena presença ciclística, o que proporcionou tempo para prestar mais atenção àquela música ambiente (e tenho me atentado para tais canções aleatórias, sempre pensando em possíveis temas para o blog).

Pois era justamente “Aquele Abraço”.

Ali, decretava-se a canção-tema de hoje – na esperança de que minha intuição não tenha falhado e que este post, de fato, sensibilize algum dos visitantes.

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Gilberto Gil: gênio do canto e do violão que, com Caetano, fez do Brasil o lar de muitas verdades tropicais.

Sincronicidades à parte, e já que estou com Verdade tropical em mãos, vamos ao mencionado comentário de Caetano sobre a canção, que foi apresentada pela primeira vez no show que ele e Gil fizeram em Salvador tão logo foram libertados (1969), de forma a conseguirem o dinheiro capaz de bancar suas passagens para fora do país (já que as autoridades tinham “gentilmente sugerido” que os cantores se ausentassem do Brasil para evitar novas prisões):

Muito mais vivo em minha memória está o momento em que Gil me mostrou “Aquele Abraço”, canção que ele cantaria pela primeira vez em público naquele show. Estávamos na sala da casinha da Pituba e o samba me fez chorar. O brilho e a fluência das frases, a evidência de que se tratava de uma canção popular de sucesso inevitável, o sentimento de amor e perdão impondo-se sobre a mágoa, e sobretudo o dirigir-se diretamente ao Rio de Janeiro, cidade que sinto tão intimamente minha por causa da estada de um ano entre os treze e os catorze – e tão minha em outro nível também, por ser, como diz João Gilberto, “a cidade dos brasileiros” –, tudo isso me abalava fortemente e eu soluçava de modo convulsivo. No show, a plateia também foi tomada pela música, e cantou-a com Gil como se já a conhecesse de muito tempo. O lugar onde a ironia se punha nessa canção – que parecia ser um canto de despedida do Brasil (representado pelo Rio, como é tradição) sem sombra de rancor – fazia a gente se sentir à altura das dificuldades que enfrentava. “Aquele Abraço” era, nesse sentido, o oposto de meu estado de espírito, e eu entendia comovido, do fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom “bola pra frente” sem forçar nenhuma barra (p. 410).

O único comentário necessário. O resto é com a Wikipedia.


“Aquele Abraço” é mais uma daquelas canções extensamente regravadas. Mesmo a discografia de Gil traz diversos registros: a versão que abre este post, lançada num compacto de 1969, é apenas a edição de uma performance mais longa, havendo cortes mais generosos tanto no álbum Gilberto Gil (1969), quanto em suas reedições.

Fiquemos com a versão do mencionado Acústico MTV:

5 comentários

  1. Ouvi muito a canção de Gil em um vinil lançado em uma coleção da Abril.Até rimou,de repente eu faço outro samba.

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  2. Já que o post falou em Caetano,eu gostaria de acrescentar algo.Eu sempre achei que a obra do compositor e algumas narrativas de ”Verdade Tropical” são pinceladas por um certo misticismo,há sempre uma ”força estranha” por trás de um simples ”acaso” em suas histórias,ele é com certeza o ateu mais místico que eu conheço.

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    1. Palavras de Caetano no mesmo Verdade Tropical (p. 407): “No começo dos anos 90, quando foi escolhido por Collor para o Ministério da Cultura, o diplomata e ensaísta Sergio Paulo Rouanet veio à minha casa no Rio para inteirar-me de suas intenções e pedir apoio. Eu tinha justo lido seu livro ‘Razão cativa’ e, no fim da nossa conversa, disse-lhe: ‘Sou um irracionalista apaixonado pela razão’. E ele me disse que com ele era o simétrico inverso.”

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