130. Graforréia Xilarmônica: “Nunca Diga”

Querida, nunca diga que eu tenho mau gosto
E saiba que o belo da vida ainda está pra nascer
Fui lhe mostrar um disco que eu comprei
De um cantor que eu sempre gostei
Mas você não me deu atenção
E voltarei pra casa pelo mesmo caminho
E escutarei o meu disco sozinho
Dentro do meu quarto na escuridão


Por alguns anos, tive uma excelente interlocutora sobre o rock sulista: minha amiga porto-alegrense Aline Tavares (por onde anda?). Fã de todas as bandas gaúchas que conheci (algumas, inclusive, por influência dela), Aline jurava já ter trombado muita gente importante pelas ruas de Porto Alegre, além de ter participado das gravações ao vivo de vários álbuns – e nunca duvidei de nada disso.

No entanto, nessa época em que convivemos – ela, como pós-doutoranda no Instituto de Química de São Carlos, eu, no início do doutorado –, nunca conversamos sobre uma banda curiosa e única, desde o nome: a Graforréia Xilarmônica.

É deles que trago a canção de hoje, “Nunca Diga”, uma balada jovem-guardista como muitas outras de seu repertório, cujos versos de abertura são marcantes: “Querida, nunca diga que eu tenho mau gosto / E saiba que o belo da vida ainda está pra nascer”. Acho lindo como esse mote, ao mesmo tempo, é terno e asseverativo, dando uma mostra do excelente caráter do sujeito enunciador.

A partir daí, temos uma harmonia que, explorando o campo harmônico do Mi Maior, mobiliza acordes inusitados como o Ré Maior e a sequência Dó Sustenido Menor-Lá Menor para reforçar a mensagem dos demais versos. Assim, o Ré, por exemplo, serve para ressaltar o tom queixoso em “Fui lhe mostrar um disco que eu comprei / De um cantor que eu sempre gostei / Mas você não me deu atenção”. Ao mesmo tempo, um Si Maior que se segue a esse acorde, devolvendo a harmonia ao tom original, apazigua os ânimos da voz da canção: trata-se de uma queixa-acusação à pessoa amada, sem dúvidas, mas não façamos crise por conta disso. Talvez seja isso o que se passa na cabeça do sujeito, que encontra na introspecção (receptiva a novos sons) a solução para o conflito denunciado, até que sua interlocutora “querida” aceite o conselho: “Querida por favor olhe bem em meu rosto / E tente enxergar o que os outros não conseguem ver”.

Moral da história: não tente enfiar sons goela abaixo de ninguém; deixe que os outros, naturalmente, se aproximem de seu bom gosto musical. E digo isso sob a pena de nunca ter seguido esse conselho… afinal, o que busco com este blog senão implorar para que a plateia “tente enxergar o que os outros não conseguem ver”? Dilemas…

Incoerências (minhas) à parte, “Nunca Diga”, composta por Frank Jorge e apresentada no primeiro álbum da Graforréia (Coisa de louco II, 1995), já é um clássico do rock, não apenas sulista, mas nacional.

graforreia-xilarmonica
Graforréia Xilarmônica: reeditando emoções da Jovem Guarda num som guitarreiro e orgulhoso de ser gaúcho.

Surgida em 1987, a Graforréia interrompeu suas atividades em 2000, retornando em 2005 e gravando um Ao vivo em 2006. Ali, temos uma versão com guitarras mais proeminentes que a original, valendo a pena a escuta:

Na verdade, “Nunca Diga” ficou famosa mesmo por conta da gravação feita pelos mineiros do Pato Fu em Televisão de cachorro (1998). A canção ganhou, assim, um registro punk e bastante divertido. Três anos depois, o Pato regravou outro sucesso da Graforréia, em Ruído rosa: “Eu”. Pois é, se você não estava ligando o nome à pessoa, veio dos gaúchos esse que é um dos últimos hits de Fernanda Takai e companhia, até hoje muito solicitado nos shows. Inclusive, achei que “Eu” é que seria a canção escolhida para o post de hoje. Refletindo melhor, notei que “Nunca Diga” combinava mais com a proposta do blog. Ouça (e pule à vontade):

Por fim, é preciso destacar a versão instrumental do produtor gaúcho Fabrício Carvalho, mais conhecido como Astronauta Pingüim, cujo debute fonográfico se deu com o álbum Petiscos: sabor churrasco (2004). Ali, diversos clássicos do rock gaúcho são relidos em versões divertidas, em que sobressaem os teclados, com destaque para os malandros órgãos pilotados pelo Astronauta. “Nunca Diga” aparece com um arranjo até que próximo da versão original da Graforréia, mas preste atenção ao efeito na passagem equivalente ao verso “Fui lhe mostrar um disco que eu comprei”:

4 comentários

  1. Não conhecia,a sonoridade é bem jovem-guarda mesmo.Quanto à questão de gosto,eu percebo uma coisa,quanto mais a pessoa é ignorante,mas ela acha que tem bom-gosto-musical,rs.

    Curtir

  2. Vou dar um exemplo,na minha cidade,os jovens falam que MPB é música de velho,e os mais velhos qualificam de dor de barriga.
    Aqui predomina o sertanejão,o sertanejo e o sertanejinho.Não me pergunte que escala é esta,me surgiu agora.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s