133. Fundo de Quintal: “A Amizade”

Amigo, hoje a minha inspiração
Se ligou em você
Em forma de samba
Mandou lhe dizer
Tão outro argumento
Qual nesse momento
Me faz penetrar
Por toda nossa amizade
Esclarescendo a verdade
Sem medo de agir
Em nossa intimidade
Você vai me ouvir


Anteontem e ontem foram dias de música no 11º Festival Contato, evento que ocorre em São Carlos (quase) todo ano, e que já foi comentado aqui e aqui. Por coincidência, a edição deste 2019 ocorreu justamente em meio às minhas férias, e é claro que eu teria que estar presente, ao menos a esses shows.

Como disse naqueles posts anteriores, essas apresentações gratuitas são excelentes oportunidades para se conhecer novos artistas. Assim, de certa forma, minha presença no Parque do Bicão, nesses dois dias, foi também uma espécie de trabalho de campo, em que procurei manter o espírito aberto a novíssimas canções a serem tematizadas aqui no blog. (E acho até que já sei quais serão).

festival-contato.jpg
Só para vocês saberem do que eu estou falando: esta foi uma tarde do evento, quando o público ainda não tinha ocupado todo o espaço à frente do palco. À noite, o bicho pegou, com muita gente pulando e curtindo excelentes sonzeiras até às 22h. (A foto veio do Facebook do Contato).

Que finalidade nobre ir ao evento para escutar novos sons, não é mesmo? Mas, honestamente, não posso me gabar tanto: apesar de estar ali com esses ouvidos generosos, minha intenção principal, confesso, era mesmo reencontrar gente. Gente! E nisso, fui muito bem sucedido. Revi uma penca de ex-alunos, ex-professores, conhecidos, colegas, gente muito querida e amigos, esses seres imprescindíveis em nossas vidas.

Alguns já foram mencionados neste singelo blog, sendo até uma surpresa encontrá-los, dado que pensei estarem vagando pelo mundo. E que gostoso é receber um abraço de gente assim! Por exemplo, ontem, voltando do festival, tive a bacaníssima companhia da sempre querida Maria Paula – que, na verdade, não estava assim, “desaparecida”. Entre um misticismo e outro, entre uma lembrança e outra, acabamos nos dando conta de que nos esbarramos nos eventos de São Carlos sem que nunca, nunquinha, tenhamos combinado de nos ver. A surpresa do (re)encontro, nesses casos, dá um toque especial à forma como o topar de duas almas gera essa faísca de deleite, alegria e satisfação.

Assim, o post de hoje celebra a amizade, trazendo uma canção – justamente “A Amizade”, do conjunto carioca Fundo de Quintal, uma joia legada pela lendário bloco do Cacique de Ramos – que, apesar de passar longe de tudo o que rolou musicalmente nesse último Contato, traduz exatamente o que eu (e, provavelmente, muito mais gente) sentiu nesses dois dias de celebração e de convergências.

Lançada no álbum É aí que quebra a rocha (1991), a canção (composta por Djalma Falcão, Cleber Augusto e Marco Antônio Dantas de Lima, o Bicudo) é uma declaração que o sujeito enunciador dirige à figura do amigo. O tom da voz oscila entre o exortativo (nos versos iniciais), o circunspecto (“Foi bem cedo na vida que eu procurei / Encontrar novos rumos num mundo melhor” – e repare como a harmonia colabora para reforçar a disfórica gravidade desses versos) e o claramente celebrativo (“Com você fique certo que jamais falhei / Pois ganhei muita força tornando maior / A amizade / Nem mesmo a força do tempo irá destruir / Somos verdade / Nem mesmo este samba de amor pode nos resumir”), confluindo no desejo de comunhão e empatia absolutas: “Quero chorar o teu choro / Quero sorrir teu sorriso / Valeu por você existir, amigo”.

Como crítico (e crica) das redes sociais, ausente de todas elas (exceto de uma que não revelarei qual, só garanto ser estritamente relacionada ao trabalho) sempre me lembro de como é enganadora a impressão transmitida pelo Facebook, por exemplo, de que fulano ou ciclano possui 300 e tantos amigos. Pois lá na terrinha onde fui criado, amigo não é artigo à venda assim, no atacado. E, fazendo minhas contas, cheguei à conclusão de que o tempo de uma encarnação é suficiente para angariarmos entre 15 e 30 (estourando) desses parsas, como aquele a quem se dirige a voz de “A Amizade”.

A coisa mais linda é poder cantar esse belo samba, em uma boa roda, ao lado de algum grande companheiro ou companheira, dirigir aquele olhar cúmplice na hora do refrão e terminar a cantoria com um abraço no verso “Valeu por você existir, amigo”. Nessas horas penso em como seria bom se pudéssemos sentir um pouco da dor de um amigo, se isso o ajudasse a padecer menos dela. Mas, pensando bem, não é exatamente isso o que acontece? Um amigo por perto, num momento difícil, não é justamente quem nos ajuda a segurar o tranco? E com as alegrias, também não é esse o mecanismo? (Ah, que gostoso é receber a notícia do sucesso de nossos grandes companheiros de jornada!)

Enfim, tantos encontros no Festival Contato reforçaram a breguice instalada em minh’alma desde o post de ontem. Vergonha nenhuma: verdadeiros amigos são figuras tão imprescindíveis quanto pais ou mães (sejam biológicos, adotivos ou simbólicos) e, em tempos de tanto ódio, temos mais é que valorizar essa gente que nos atura, sofre ou ri conosco, ajuda em nossa evolução e, principalmente, está ao nosso lado na busca por “novos rumos num mundo melhor”, como diz o sucesso do Fundo de Quintal.

Por isso, este post vai para todos os amigos, frequentadores do blog ou não (lembrando que ele foi criado mesmo visando se tornar ponto de reunião de criaturas afins), achados ou perdidos, lembrados ou esquecidos, mas sempre vivos no meu interior.

Salve, camaradas!

fundo-de-quintal.jpg
O Fundo de Quintal em 2015, ainda com o saudoso Mário Sérgio (segundo da direita para a esquerda): lembrando o poder libertador e transformador da amizade num mundo tão cheio de ódio e demais negatividades.

Em 2007, o Fundo de Quintal lançou o DVD O quintal do samba, que traz um emocionante registro da canção:

No ao vivo 40 anos – no Circo Voador, o conjunto relê “A Amizade” com a participação de Cléber Augusto, compositor da canção, que participou do conjunto por quase 20 anos:

Por fim, em 2016, o paulistano Leandro Lehart homenageou os lendários bambas do Cacique com o disco Violão é no fundo de quintal. “A Amizade” foi lembrada e ganhou uma bela versão voz-e-violão:

5 comentários

  1. Ainda bem que você fez a ressalva de que amigo é coisa rara.”Eu quero ter um milhão de amigos” é só na música do Roberto Carlos e no mundo fake das redes sociais.
    Apesar de não ter afinidade com ninguém,eu tenho,sim,algumas amizades que eu considero.

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  2. Achei engraçado que você ressuscitou o termo ”conjunto”,quando eu era bem jovem,toda banda,grupo ou coletivo ganhava o nome de conjunto,rs.

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