134. Palavra Cantada: “Fome Come”

Gente eu tô ficando impaciente
A minha fome é persistente
Come frio, come quente
Come o que vê pela frente
Come a língua, come o dente
Qualquer coisa que alimente
A fome come simplesmete
Come tudo no ambiente
Tudo que seja atraente
É uma forma absorvente
Come e nunca é suficiente


Quem assistiu à TV Cultura em fins dos anos 1990 certamente conhece a dupla paulista Palavra Cantada. Em comemoração ao Dia Internacional da Criança, em 1999, o canal produziu o especial Um dia de criança, apresentando alguns clipes para canções do duo formado por Sandra Peres e Paulo Tatit. Nos meses seguintes, tais vídeos passaram a ser exibidos, avulsos, entre uma atração e outra, e agora habitam o imaginário de mais de uma geração: o das (então) crianças que assistiam ao canal e o de seus pais.

O vídeo de “Fome Come”, composta por Sandra, Paulo e seu irmão Luiz Tatit, foi exibido exaustivamente até os anos iniciais deste novo século. Confesso que, à época, não era meu clipe favorito; hoje, no entanto, a canção cresceu no meu conceito. Prestando atenção à letra, notam-se algumas sutilezas que descolam a obra do universo infantil e explicitam seus nexos com outras produções cancionais.

Assim, me parece natural tomar “Fome Come” como uma consequência de “Comida”, dos Titãs, iniciada com os versos: “Bebida é água! / Comida é pasto! / Você tem sede de quê? / Você tem fome de quê? / A gente não quer só comida / A gente quer comida / Diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída / Para qualquer parte”. Em comum, há o fato de as duas canções tematizarem a “fome” ou a “comida” mas, numa jogada esperta, não entregarem de bandeja a amplitude dos temas alojados nessas palavras que as intitulam. Apenas uma audição atenta, especialmente no caso de “Fome Come”, levará à conclusão de que a letra vai além das consequências biológicas e psicológicas de uma fome interminável, abordando os carecimentos de uma forma geral – como a necessidade de alimento intelectual (exatamente como na obra dos Titãs): “Se for cultura ela tritura, ela tritura / Se o que vem é uma cantiga, ela mastiga, ela mastiga / Ela então nunca discute, só deglute, só deglute”. E nada é por acaso: Paulo Tatit chegou a tocar na banda de Arnaldo Antunes, nos tempos iniciais da carreira solo do ex-Titãs e autor da letra de “Comida”.

Em entrevista ao projeto Gafieiras, do portal Medium, Tatit confirma que “Fome Come” mantém certo distanciamento em relação às demais faixas do álbum a que pertence (Canções curiosas, 1998), não sendo uma canção infantil convencional,

porque é um negócio que abandona um pouco esse lirismo ligado à infância, à delicadeza, abandona um pouco essa idéia e parte para uma idéia de energia musical.

Em outro fragmento da entrevista, o cantor e compositor confessa que a canção poderia, perfeitamente, ter integrado o repertório do grupo Rumo, que ele e Luiz Tatit integraram/integram (e que já foi tema do blog, como você vê aqui). De fato, o contorno melódico de versos como “Toda fome é tão carente / Come o amor que a gente sente / A fome come eternamente / No passado e no presente / A fome é sempre descontente / Fome come fome come” lembra os jogos de figurativização da entoações vocais cotidianas, marca registrada do Rumo, de forma a potencializar o processo de significação disparado pela letra – no caso, ressaltando a tormenta e o gosto insuportável da fome. (Se há o dedo de Luiz Tatit, estudioso dos processos semióticos envolvidos na composição da canção brasileira, pode ter a certeza de que a canção de fato aproveita tais recursos de forma planejada, consciente – e eficiente).

“Fome Come”, enfim, é muita coisa junta: canção infantil sobre um tema familiar a todos os pequeninos; uma sutil crítica social ao fato de milhares de crianças, inaceitavelmente, ainda não terem o que comer (numa sociedade desperdiça e inviabiliza milhares de hectares para produzir a soja que apenas descerá goela abaixo de nossos amigos bovinos, posteriormente consumidos por nós numa cadeia alimentar desperdiçadora de 90% da energia inicialmente incluída no sistema); uma reflexão sobre a necessidade de consumirmos comida para “o corpo e a alma”; e, como diz o próprio Paulo Tatit, a consubstanciação da ideia de energia musical, mediante o emprego de uma divertida e bastante sofisticada forma de percussão (que deve ter desconcertado muito marmanjo que assistiu ao clipe exibido da Cultura, tentando copiar os movimentos dos atores).

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Paulo Tatit e Sandra Peres: palavras (bem) cantadas para os pimpolhos, mas não só para eles.

O Palavra Cantada lançou um álbum em castelhano, intitulado Canciones curiosas, lançado em 2008. “Fome Come” virou “Hambre Come” e aposto que os hermanos da América Latina e da Espanha devem ter gostado:

No livro e DVD As melhores brincadeiras musicais da Palavra Cantada (2010), Sandra e Paulo finalmente apresentam um “tutorial” de como proceder na brincadeira com os copos do clipe de “Fome Come”. Impressionante como os dois cantam e executam a coreografia manual ao mesmo tempo! Divirta-se:

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