136. Cidadão Quem: “Girassóis”

Nunca olhei pros lados
Pra não perder a direção
Nem senti meus passos
Na marcha cega
Encontro uma razão
Talvez perca o emprego
Talvez a sua resposta seja não
Quero dar um jeito
De conseguir pagar a prestação
De passear na grama do Parcão
De respirar, deitar ao sol que brilha


Houve uma época em vivi grudado nos programas da TV Cultura que abordavam ou tangenciavam o universo musical: Musikaos, Turma da Cultura, Metrópolis e, claro, o Bem Brasil. Certa manhã de domingo de 2000, esticara-me no sofá de frente para a televisão, preparando-me para um show de Nando Reis neste último programa. A abertura da apresentação ficou por conta de uma, para mim, obscura banda gaúcha, uns tais de Cidadão Quem. Sabia de um filme chamado Cidadão Kane, a que ainda não havia assistido (e anos depois me impressionaria com o documentário Muito além do Cidadão Kane), e achei engraçado o nome do conjunto. A formação era curiosa: um guitar-hero magrelo nos vocais, um baixista que parecia seu irmão (de fato, era) e uma garota gatíssima na bateria (e, naqueles anos adolescentes, não conseguia desgrudar os olhos dela).

Gostei do som, mas não prestei tanta atenção assim, pois queria mesmo era ver o show do Nando. E não me preocupei em conhecer o Cidadão Quem até saber, muitos anos depois, que aquele vocalista das guitarras iradas estaria se unindo com Humberto Gessinger para criar um power duo (!) chamado Pouca Vogal. Bem, apesar de fã (chato) dos Engenheiros do Hawaii, só fui me interessar em escutar o som da dupla Humberto Gessinger & Duca Leindecker muitos meses após a divulgação de suas oito (incríveis) canções inéditas. Então, já era 2010 e o Pouca acabara de lançar as oito canções, mais alguns números vindos do repertório dos Engenheiros e do Cidadão Quem, no CD/DVD Ao vivo em Porto Alegre (2009), que me senti obrigado a comprar.

Entre as canções do Cidadão Quem ali reproduzidas, estava “Girassóis”, que foi a que mais gostei. Na letra, o sujeito enunciador está imerso em preocupações cotidianas (“Talvez perca o emprego / Talvez a sua resposta seja não / Quero dar um jeito / De conseguir pagar a prestação”) mas, nem assim, se sente tentado a esmorecer ou desistir de um foco (“Nunca olhei pros lados / Pra não perder a direção”). Acima de tudo, o personagem confia em certo poder interno, não deixando os revezes do dia-a-dia interferirem em seu caminho e em sua paz de espírito: nada pode invadir o espaço reservado à introspecção meditativa (o Parcão – Parque Moinhos de Vento, em Porto Alegre), momento “De respirar, deitar ao sol que brilha”. E o astro-rei, sinônimo de luz e energia, expurga tudo o que é obnubilação e confusão mental, conforme aponta o belo e simples refrão: “Deixo o sol bater na cara / Esqueço tudo que me faz mal / Deixo o sol bater no rosto / Que aí o desgosto se vai”.

“Girassóis” é um pseudo-ska (na verdade, um eficiente pop-rock) com uma atmosfera luminosa, graças às várias camadas das guitarras sempre impecáveis de Duca. A canção foi lançada em Girassóis da Rússia (2002), único álbum de carreira que registra a formação que vi tocar no Bem Brasil: além dos irmãos Duca e Luciano Leindecker, respectivamente, na guitarra e no baixo, a tal baterista-gata-de-minha-adolescência, Paula Nozzari. Infelizmente, Paula deixou o conjunto em 2004 (ouça Girassóis da Rússia e perceba como ela é poderosa nas baquetas). Mais infelizmente ainda, Luciano Leindecker sucumbiu ao câncer em 2014, com apenas 41 anos, selando o fim do Cidadão Quem.

Preste atenção às demais letras de Girassóis da Rússia, que trazem outros momentos em que Duca canta a necessidade do silêncio interior, como “Embalada” (com o verso “Preciso encontrar a paz dentro de mim”), ou a disposição em se conectar com o que há de positividade na vida, como em “Yoko” (cuja harmonia me lembra “Segundas Mornas Intenções” de Lô Borges, com uma letra também típica do universo do Clube da Esquina: “A intenção / É usar o sim / Sempre que alguém / Defender o não / E então / Aprender a andar / Livre, sem esperar / Aceitar cada um / De um jeito / Oh! Yoko…”).

cidadao-quem.jpg
O trio que gravou Girassóis da Rússia, belo disco do Cidadão Quem: da esquerda para a direita, o saudoso Luciano Leindecker, Paula Nozzari e o líder Duca.

No DVD Cidadão Quem no Theatro São Pedro (2005), “Girassóis” ressurge com um delicado arranjo acústico e uma emocionante participação da plateia no último refrão:

Já a versão de que falei no post, do Pouca Vogal, reconstrói completamente a balada do Cidadão Quem. E pensar que são apenas duas pessoas tocando violão, guitarra, pandeiro, bombo leguero e harmônica! Aqui, também temos uma efusiva participação da plateia. Confira:

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