137. Clara Nunes: “As Forças Da Natureza”

Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal


“As Forças Da Natureza”, composta por João Nogueira e Paulo César Pinheiro, foi lançada no álbum de mesmo título da mineira Clara Nunes, em 1977. À época, a cantora e Paulinho Pinheiro já estavam casados e a discografia de Clara já explicitava a guinada da artista em direção aos temas das tradições populares, da espiritualidade afro e da crítica social.

A canção pode ser analisada considerando-se três camadas de significados.

De forma mais explícita, a letra parece narrar o desenrolar do próprio Apocalipse bíblico: uma hecatombe irreversível, purgando todos os males do mundo e fazendo jazer, apenas, a natureza imaculada. A dramaticidade implicada nessa interpretação é reforçada pelo estado passionalíssimo do canto nos versos “Vai resplandecer / Uma chuva de prata do céu vai descer / O esplendor da mata vai renascer / E o ar de novo vai ser natural”.

Numa segunda camada, temos o tema ambiental: a degradação sobre Gaia levará, inevitavelmente, a que a Deusa-Terra acabe por expulsar todos aqueles que a maltratam. Seguidos cataclismas – envolvendo todos os elementos naturais – tratarão de substituir a humanidade ingrata pelo verde, e talvez por uma raça que saiba aproveitar de forma mais inteligente os recursos proporcionados pelo planeta. (Sim, essa leitura reduz a canção a um manifesto ecológico pra lá de brega, ainda que necessário).

Por fim, de forma mais sub-reptícia, aparece a crítica ao regime civil-militar. Este, é um pesadelo que parece não ter fim, mas terá: não tarda o dia em que o sol (o exato antônimo da escuridão dos porões da ditadura) resplandecerá “pra combater o mal”. Como diria Chico Buarque, “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” – e, coerentemente, o compositor também está representado em As forças da natureza, com seu “Fado Tropical”, cujo tom profético do verso “Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal” ecoa o /querer/ da canção de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. À luz dessa leitura militante, os versos finais de “As Forças Da Natureza” adquirem uma nova claridade: “Das ruínas um novo povo vai surgir / E vai cantar afinal / As pragas e as ervas daninhas / As armas e os homens de mal / Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval”. Aliás, será preciso uma canção dessas para nos lembrar que os “homens de mal” estão sempre próximos das “armas”?

clara-nunes.jpg
Clara Nunes: a mineira guerreira que foi, ela própria, uma força da natureza.

Em 1995, o tributo Clara Nunes com vida uniu as vozes de Clara e de João Nogueira, sobre o registro original. Não sou lá muito a favor de duetos póstumos, mas esse em “As Forças Da Natureza” soou, com o perdão do trocadilho, bastante natural:

O próprio João registrou “As Forças Da Natureza” em Vida boêmia (1978), com um arranjo um pouco diferente daquele da versão de Clara. Repare nos versos finais: desaparece a pausa entre os versos “As armas e os homens de mal / Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval”, o que faz do termo da canção uma certeza inescapável – sim, não tarda a tudo ser celebração sobre o fim de uma triste era. Ouça:

Em 1994, no álbum Parceria, João e Paulinho recriaram “As Forças Da Natureza” como um dueto que, contudo, não preserva a força dos registros originais de Clara e do próprio João:

Vamos agora aos demais intérpretes.

“As Forças Da Natureza” é uma canção privilegiada, por ter sido cantada por tanta gente boa, incluindo as damas do ABC do samba: além de Clara, Alcione e Beth Carvalho.

A versão de Alcione foi registrada em seu disco-tributo Claridade (1999), com repertório totalmente dedicado ao cancioneiro da amiga, e conta com uma performance vocal de tirar o fôlego, além de extravagâncias no arranjo, certamente o mais barroco de todos os registros da canção. Preste atenção também à coda, que traz uma animada cantoria entoando “Mineira”:

Já a versão de Beth foi registrada em João Nogueira através do espelho (2001), álbum que prensou uma apresentação em homenagem ao recém-falecido João Nogueira – e que, até onde sei, revelou seu filho Diogo Nogueira como herdeiro do canto grave do pai, com uma execução memorável de “E Lá Vou Eu”. A versão de Beth é, apesar de bem-comportada, muito bonita, como tudo o que a Madrinha fazia/cantava:

Das interpretações emanadas da nova geração de sambistas, destacam-se as versões gravadas por Teresa Cristina. A primeira foi lançada no tributo Um ser de luz – saudação a Clara Nunes (2003):

E a segunda aparece no Sambabook João Nogueira (2012). Observe que as duas versões se distinguem justamente no que diferem as versões originais de Clara e de João: na mencionada (ausência de) pausa entre os versos finais. Intérprete perfeita, linda, maravilhosa, com um timbre macio que acaricia nossos ouvidos… deleite-se:

7 comentários

  1. Grande canção, evoca a mensagem do mestre. Ao desafiar o poder da ciência, filha do intelecto, atravessamos a existência do ego humano rumo ao sol de nossa essência divina. Os palácios vão desabar, as farsas serão expostas, o joio separado do trigo. O desaparecimento do mal e nosso (re)encontro com a alma universal – vai voltar tudo ao seu lugar, afinal – nas cinzas de um carnaval. Sensacional.

    Meu amigo, parabéns pelo blog. Saudações.

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    1. Querido amigo! “A amizade… nem mesmo a força do tempo irá destruir!” hehehe
      Que comentário incrível. Acho que o dono do blog deveria ser você! Sua leitura foi muito mais fundo que as minhas (três) tentativas.
      Venha mais vezes, viu? Tenho certeza que você sempre acrescentará bastante aos meus textos mal-acabados.
      Abraço bem forte!

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  2. A gravação da Clara está entre o sublime e o inexplicável,tão linda quanto ela.A Tereza Cristina também mandou bem.

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  3. Legal as três possíveis leituras da mesma música,seria mais legal ainda se pudéssemos checar com os autores,rs.

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